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O Brasil perder para as bets dói mais que perder a Copa

A eliminação da seleção brasileira não foi a pior notícia da Copa. Foi triste ver o torneio se transformar numa vitrine para o mercado de apostas.

Antes da competição acabar, empresas do setor já estimavam movimentar 60 bilhões de dólares. Só o Brasil responde por 10% desse volume, segundo Alexander Kamenetsky, diretor de operações da Softswiss Sportsbook. As bets foram o segundo maior anunciante das transmissões no país, atrás apenas de alimentos e bebidas.

Os brasileiros fizeram, em média, 425 buscas por minuto pelo termo bet. O Índice de Saturação de Bets atingiu 45,3 pontos. O volume de publicidade levou a Secretaria Nacional do Consumidor a investigar a exibição de cotações em tempo real nas transmissões, por entender que estimulavam o jogo. A Cazé TV, por exemplo, precisou rever o formato.

Nada mais antagônico ao esporte do que as apostas. O esporte fortalece o corpo, protege a saúde mental, cria vínculos, ensina cooperação e lembra que nenhuma conquista nasce sem disciplina. As apostas caminham na direção oposta: estimulam o impulso, prometem ganho imediato, produzem isolamento, exploram a ansiedade e alimentam a ilusão de que a sorte substitui o trabalho.

Atreladas a um espetáculo como a Copa, as apostas são vendidas como entretenimento. O que nenhum influenciador ou atleta que faz publicidade de bets menciona é que, nos últimos cinco anos, a busca por atendimento de saúde mental no SUS por vício em apostas cresceu quase 140%. Ou que, segundo o Procon-SP, 40% dos apostadores relataram endividamento.

Muitas pessoas recorrem ao esporte para superar uma dependência. João Pedro (nome fictício), 47 anos, economista, casado, pai de dois filhos adolescentes, é meu paciente. Já perdeu mais de R$ 300 mil em bets e está há nove meses sem apostar. “Quando sinto vontade de apostar, eu vou correr ou pedalar. É o que me salva!”, costuma dizer.

Nem todo mundo tem essa história para contar. Duas jovens, pouco mais de 20 anos, chegaram chorando sem saber o que fazer com a mãe. Ela havia perdido o casamento, o emprego e todo o patrimônio da família em apostas. As filhas já não suportavam o convívio e vieram dizer que iam embora de casa. A mãe permanecia convicta de que recuperaria tudo apostando mais. Poucos meses depois, tirou a própria vida.

Por que transformar um espaço de promoção da saúde em vitrine para o vício? Quando o esporte empresta sua credibilidade a uma indústria que lucra quando o torcedor perde, a derrota é da sociedade — e pior do que qualquer eliminação em campo.

Daniel Guanaes

Por Daniel Guanaes – PhD em teologia pela Universidade de Aberdeen, é pastor presbiteriano, psicólogo e autor do livro “Cuidar de Si”