
A busca por retardar o envelhecimento ganhou força entre empresários e magnatas da tecnologia, que investem em procedimentos médicos, monitoramento constante do organismo e no uso de medicamentos e suplementos com a promessa de prolongar a vida. No entanto, muitas dessas estratégias ainda não têm comprovação científica e fazem parte de um debate mais amplo sobre a forma como a sociedade encara a velhice.
Algumas substâncias utilizadas, como os peptídeos, ainda estão em fase de testes. Mesmo os resultados preliminares são considerados controversos pela comunidade científica, explica Deusivania Falcão, professora de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. “O entusiasmo frequentemente é maior do que as evidências disponíveis”, afirma.
Hábitos saudáveis continuam sendo a melhor estratégia
Segundo Deusivania, a tecnologia pode contribuir para o cuidado com a saúde, mas não é o principal fator para um envelhecimento ativo e saudável. As medidas com eficácia comprovada continuam sendo relativamente simples: manter a saúde física e mental, praticar atividade física regularmente, adotar uma alimentação equilibrada e estimular o cérebro com atividades intelectuais.
Como destaca a pesquisadora, o objetivo não deve ser apenas viver mais, mas viver melhor. “Não adianta você ter muitos anos de vida se você não tem vida nesses anos. Então, mais do que quantidade, a qualidade é fundamental.”
A professora também ressalta que a saúde mental exerce papel central na longevidade. Manter vínculos sociais de qualidade, cultivar relações afetivas e enfrentar o envelhecimento com otimismo e capacidade de adaptação são fatores associados a uma melhor qualidade de vida.
A sociedade vive uma relação contraditória com a velhice
O interesse crescente por estratégias para evitar o envelhecimento revela uma contradição. Ao mesmo tempo em que muitas pessoas demonstram receio de envelhecer, os estereótipos sobre a velhice vêm sendo gradualmente superados, com um número cada vez maior de idosos participando ativamente da vida social. Deusivania avalia:
“Nós vivemos em uma situação paradoxal”.
Longevidade também depende do contexto social
Os aspectos sociais e culturais influenciam diretamente a forma como as pessoas envelhecem. Segundo a professora, as diferenças regionais brasileiras ilustram essa realidade.
“A gente observa o quanto a velhice do Nordeste é diferente da velhice do Sudeste”, afirma, destacando que desigualdades no acesso à saúde e às condições de vida ajudam a explicar essas diferenças.
O mesmo pode ser observado nas chamadas “zonas azuis”, regiões do mundo onde a população apresenta elevada expectativa de vida. Nessas localidades, o fator comum não é o acesso a tecnologias sofisticadas, mas a adoção consistente de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, atividade física, convivência social e propósito de vida.
Fonte: Jornal USP – Por Frederico Gomes





