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Domiciliar de Bolsonaro chega ao prazo com direita desorganizada e Michelle protagonista de crise

Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar desde março e pode voltar à Papudinha, a depender de Alexandre de Moraes Foto: Wilton Junior/Estadão

O prazo para a prisão domiciliar humanitária concedida ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) encerrou nesta sexta-feira, 26, e segue ainda sem definição judicial em meio à desorganização da direita e Michelle Bolsonaro como protagonista de uma crise.

Aliados de Bolsonaro vêm se queixando que a ausência do ex-presidente das articulações eleitorais deixaram impasses em diversos Estados. Ele está impedido de receber visitas, além de médicos, advogados e família, o que o afastou das discussões de formação de alianças e chapas eleitorais.

Em 24 de março, o ministro Alexandre de Moraes concedeu 90 dias de prisão domiciliar humanitária a Bolsonaro, então internado no hospital DF Star de Brasília para tratar uma broncopneumonia, a partir de sua alta médica, que viria dali a três dias. O prazo está esgotado.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), secretário-geral do PL e coordenador-geral da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, diz que a decisão de Moraes de restringir as visitas é uma “violência, que não aconteceu nem com Lula”, quando o então ex-presidente ficou preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (2018-2019).

“Tem prejudicado muito. Ele está muito circunscrito e conversa com pouca gente. Quando você tem que tomar medidas que afetam decisões no Brasil todo, quanto maior é a possibilidade de conversar com pessoas diferentes, maior é a condição de você ter uma condição mais acertada”, declara Marinho.

Um deputado amigo da família Bolsonaro afirma que a pré-campanha de Flávio “não sofre tanto impacto direto, mas em alguns Estados isso é muito sentido”. E diz que decisões estaduais podem interferir no resultado da eleição nacional.

O Distrito Federal, São Paulo e, principalmente, Ceará são mencionados como regiões em que a presença de Bolsonaro poderia debelar disputas entre grupos aliados e unificar a direita.

O caso cearense virou nesta semana o pivô de uma das maiores crises da pré-campanha de Flávio, quando Michelle publicou um vídeo criticando o enteado e defendendo a escolha de sua aliada, Priscila Costa, para uma vaga ao Senado. Ela disse que o senador a maltratou, humilhou e desrespeitou ao telefone.

A publicação caiu como uma bomba na direita, num momento em que Flávio tenta atrair o voto feminino, resistente à sua candidatura. Bolsonaristas passaram a se perguntar se Jair, preso em casa com a esposa, teve conhecimento da produção da peça — aliados de Michelle, e ela mesma, dizem que ela não faz nada sem conhecimento do marido.

Aliados de Bolsonaro dizem que o Ceará é o maior exemplo de como a ausência do ex-presidente causa estragos na articulação política. Sem o líder para arbitrar a questão, Michelle e Flávio vêm medindo forças para tentar impôr seus candidatos.

O senador, no entanto, saiu na frente. O PL regional decidiu lançar Alcides Fernandes, pai do deputado federal André Fernandes (PL-CE), como candidato a senador, jogando Priscila para o acostamento.

Dirigentes do PL dizem não acreditar que Michelle vá conseguir reverter a situação junto a Bolsonaro, o único que teria o poder de impôr sua vontade contra negociações das próprias lideranças regionais. André Fernandes é próximo a Flávio e Eduardo Bolsonaro, que defendem a escolha do pai do deputado.

Em São Paulo, o coronel Ricardo Mello Araújo (PL), vice-prefeito, era o nome preferido de Bolsonaro para a disputa ao Senado, enquanto Eduardo vinha defendendo a escolha do deputado federal Mario Frias (PL). O presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto, contudo, convenceu Eduardo a apoiar o presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado (PL), para a vaga.

Pessoas próximas a Bolsonaro avaliam que o desfecho teria sido outro se o ex-presidente pudesse receber visitas e ouvir todos os envolvidos, em especial Mello Araújo, antes de tomar uma decisão.

Para alguns bolsonaristas, a desunião vivia entre as legendas no Distrito Federal, com o afastamento entre o PP da governadora Celina Leão e o MDB do ex-governador Ibaneis Rocha, seria aplacada se o ex-presidente participasse do jogo.

Além da crise do Banco Master a que Ibaneis está atado, a predileção explícita de Michelle por Celina em sua tentativa de reeleição e pela deputada federal Bia Kicis (PL-DF) ao Senado tem sido um obstáculo extra para a tentativa de a direita ter uma chapa unida para as eleições.

Michelle ainda distante de candidatura ao Senado

Michelle vem admitindo indisposição em disputar as eleições ao mesmo tempo em que tem de cuidar de um marido com saúde debilitada, seja em casa ou na prisão, para onde ele pode voltar a partir dos próximos dias.

Os sinais também têm sido dados publicamente. Em 9 de junho, após o evento de lançamento da pré-candidatura do deputado distrital Thiago Manzoni (PL) à Câmara dos Deputados, ela colocou seu plano em xeque e afirmou que pediria a prorrogação da prisão domiciliar de Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes.

“Espero que ele continue em casa. Com certeza (pediremos mais tempo ao ministro), até porque ele (Bolsonaro) precisa estar em casa para pedir todos os cuidados. Um ano e dois meses com essa crise de soluço”, declarou a jornalistas na saída do evento.

Michelle também disse que, enquanto precisar cuidar do marido, não deverá concorrer ao cargo de senadora nas eleições deste ano.

“A prioridade é a minha casa, o meu marido. Eu não posso pensar no amanhã se hoje preciso estar firme e forte para cuidar dele. Ele quer muito (que eu concorra), mas acho que a minha contribuição eu já dei. Se eu tiver que ficar em casa cuidando dele, eu vou ficar”, afirmou.

Aliados que vêm recebendo relatos sobre a situação de Bolsonaro dizem que sua saúde e seu ânimo oscilaram ao longo dos últimos três meses. O bom humor teria voltado com o início da Copa do Mundo, dizem eles, uma vez que o ex-presidente passa o dia assistindo aos jogos de futebol.

A defesa de Bolsonaro pediu a prorrogação da prisão domiciliar, alegando que ele enfrenta doenças crônicas e sequelas permanentes, mas um episódio recente pode mudar o destino dele.

Na quarta-feira, 24, Moraes deu 48 horas para a Procuradoria-Geral da República (PGR) se posicionar sobre a apreensão da arma do ex-presidente em uma blitz de trânsito em Brasília na semana passada.

No despacho, Moraes observou que, segundo a legislação penal, o reconhecimento de uma “falta grave” pelo condenado pode embasar a “regressão do regime de cumprimento de pena, inclusive com a cessação da prisão domiciliar”. O Ministério Público considerou, no entanto, que é preciso esperar pela conclusão do inquérito que apura o caso da arma apreendida ante de se posicionar.

Fonte: Estadão