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Que perigo é esse que mora ao lado? O caso das instituições para pessoas idosas da Lapa

Etarismo, o preconceito contra pessoas idosas, é um problema sério em nossa sociedade Foto: Rawpixel.com/Adobe Stock

Árvores, ruas calmas, pássaros e pequenos animais são marcas de alguns locais antigos e tranquilos do Alto da Lapa, em São Paulo. Mas esse não é o cenário que ganhou destaque na mídia após uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, que denunciou uma disputa entre moradores e instituições de longa permanência para pessoas idosas, também conhecidas como casas de repouso ou lares de idosos.

O que mais chamou a atenção dos ativistas e estudiosos da gerontologia nessa história foi a forma violenta e preconceituosa de lidar com a vida (e a morte) das pessoas idosas vizinhas.

Em um vídeo, por exemplo, é possível ver um morador debochando ao filmar um carro funerário saindo de uma instituição e, em outro, há o absurdo de uma música alta na janela para incomodar aqueles que já viveram muito mais do que nós, mas que infelizmente perderam parte de sua independência e/ou autonomia.

Nesse show sem fim de horrores, uma senhora diz que a presença dessas instituições estaria supostamente desvalorizando seus imóveis. Outra afirma que estão seguindo a lei, a qual determina que, em zonas estritamente residenciais, seriam proibidas outras formas de moradia ou comércio.

Primeiro, quero refletir por que a proximidade física da velhice e da finitude incomoda tanto. Será que esse incômodo não diz muito mais sobre nós e nossa sociedade? Nesse sentido, o preconceito a que me referi no início do texto é o famoso etarismo, associado a uma ideia quase pueril de que ao nos afastarmos da velhice, ela estaria se afastando de nós. Mas isso não é o que ocorre. Tanto a velhice quanto a morte estão olhando para todos, mesmo que nossos olhos estejam fechados para elas.

As associações dizem estar ao lado da lei. Vamos, juntos, refletir um pouco com nossos colegas da Lapa. A legislação de zoneamento a que se referem foi aprovada em 2016, ano em que já existiam na cidade de São Paulo quase 1,3 milhão de pessoas idosas (ou aproximadamente 11% da população geral), superando, em 2026, 2 milhões de cidadãos com mais de 60 anos, sendo mais de 17% da população total da cidade.

Dessa forma, e sem julgar o debate feito há 10 anos, é possível afirmar que a realidade já é outra e, assim, passível de uma nova discussão séria sobre o assunto – incluindo o local de moradia para diversas pessoas em situação de vulnerabilidade física, neurológica e social.

Assim, a prefeitura de São Paulo, que almeja ser reconhecida no futuro como cidade amiga das pessoas idosas, tem o dever de mediar essa discussão. E como foro competente de regulação e de promoção do direito à cidade, deve-se colocar ao lado do elo mais frágil dessa equação. Para tanto, deixo aqui duas possíveis sugestões.

Uma delas seria discutir possíveis exceções à regra de zoneamento na Câmara Municipal, com o recorte de que, diferentemente de grandes hospitais, tais casas geram pouquíssimo ruído urbano e baixo tráfego de veículos, o que preserva a calmaria residencial da rua.

Outra mais rápida seria a possibilidade de transformar tais instituições privadas em locais de interesse público, com destinação de uma porcentagem das vagas para as pessoas idosas que não teriam condições de pagar pelo serviço, em uma espécie de convênio entre o setor público e privado, o que já ocorre em outras áreas da administração municipal.

Mas e o valor dos imóveis?

O argumento de que a presença desses lares estaria desvalorizando as casas do Alto da Lapa, além de desumano, pode se mostrar extremamente superficial. Trata-se de um bairro com um elevado número de residências de alto padrão e grandes dimensões, o que as torna difíceis de manter financeiramente e contribui para certa desocupação.

Sendo assim, urbanistas comprovam, com evidências robustas, que ruas vazias e desertas são mais perigosas, enquanto calçadas com vida e presença humana geram convívio, pertencimento e maior sensação de segurança. Além disso, há pesquisas internacionais da gerontologia evidenciando a valorização de imóveis num raio de até 500 metros de instituições como essas, que são vistas como uma infraestrutura comunitária desejável e segura.

A velhice, assim como a morte, chegará para todos. Ser lembrado disso pode ser insuportável para alguns ou movimentar sentimentos que estavam guardados nas nossas profundezas. Pensando nisso, lembro do musical “As centenárias”, em cartaz no Sesc Bom Retiro, com as atrizes-cantoras Laila Garin e Juliana Linhares, que conta a vida de duas carpideiras que tentam driblar a morte com sua sabedoria e poesia.

Os queridos conterrâneos da Lapa com certeza iriam se emocionar com esse espetáculo, e quem sabe chegariam à conclusão de que se nem a música e poesia enganam o inevitável, o ódio e a insensatez só irão piorar o que chegará para todos nós.

Foto do autor

Por Milton Crenitte – Médico geriatra, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor em longevidade – via Estadão