
O Brasil não está somente envelhecendo —o país atravessa uma transição demográfica pautada por um sistema que favorece horizontes de vida reduzidos e trata a longevidade como exceção. Essa miopia não encontra amparo nos dados. Hoje, há uma população com mais de 50 anos ativa, conectada e relevante, que já transformou o mercado e o consumo digital, mas está pouco presente na instância cívica. A nação ignora a contribuição de trajetórias mais longas, plurais e produtivas no processo eleitoral.
A longevidade na vida cívica é um dos pontos críticos dessa equação. Em 2022, a abstenção de eleitores com 70 anos ou mais foi de 60%. Apenas 45% do grupo compareceu ao segundo turno. Em uma eleição decidida por 2,1 milhões de votos, a ausência se estabelece como uma distorção obtusa. Quando o país trata eleitores longevos como estatística, exclui uma das parcelas mais experientes do processo democrático.
A abstenção dos “70+” não está associada ao desinteresse, mas a um afastamento produzido. Esses brasileiros são protagonistas de transformações que moldaram o Brasil. Atravessaram mudanças políticas, econômicas e culturais profundas; vivenciaram alteração de moeda e turbulências sociais; adaptaram-se à revolução tecnológica. Seguem ativos. Ainda assim, a participação deles nas urnas não acompanha a experiência que carregam.
Nunca houve tantas pessoas vivendo mais, com plena capacidade de contribuir com um país que se reconfigura a partir dessa nova demografia. Uma parcela expressiva segue à margem dos espaços de decisão que delineiam o futuro nacional. E, quando essa população se abstém de votar, ela deixa de ser considerada. A abstenção se transforma em invisibilidade —traduzida em ausência de políticas públicas, de representação e de prioridade. Esse é o custo silencioso do etarismo no campo cívico. E ele não é pequeno.
Dos quase 15 milhões de eleitores “70+” cadastrados no país, 8 milhões deles não votam. E a maior ausência hoje é das mulheres “70+”: 64% delas não participaram das eleições, ou seja, dez pontos percentuais a mais de abstenção em comparação aos homens na mesma faixa etária.
Neste contexto, surge a campanha “Voto 70+”, iniciativa cívica e apartidária que busca recolocar essa geração no centro das decisões, numa ponte entre longevidade e participação. A primeira etapa da iniciativa é urgente: eleitores com mais de 70 anos precisam regularizar o título até esta quarta-feira (6) para participar das próximas eleições.
A longevidade é uma das principais forças do século; a ONU estima que a população “50+” cresce cerca de 3% ao ano globalmente, aproximando-se de 2 bilhões. É urgente traduzirmos essa vida em participação. Em um país que envelhece em velocidade acelerada, ignorar quem tem mais tempo de vida acumulado compromete o futuro e ignora a urgência de combater o preconceito etário —sobretudo, o etarismo cívico.
Por Cléa Klouri – Especialista em longevidade, é cofundadora do data8
Fonte: Folha de S. Paulo





