
Você já reparou no lóbulo da sua orelha? Nas últimas semanas, milhares de brasileiros fizeram exatamente isso. Após a morte súbita de um influenciador digital, vítima de infarto aos 50 anos, um detalhe quase invisível do seu rosto viralizou nas redes sociais: uma pequena dobra diagonal no lóbulo da orelha. De repente, todo mundo queria saber a mesma coisa: “Eu tenho isso. Significa que vou infartar?”
Respire. A resposta não é tão simples, e também não é tão assustadora.
Essa marca se chama sinal de Frank, descrita pela primeira vez em 1973 pelo médico americano Sanders Frank. Desde então, dezenas de estudos observaram uma associação entre essa prega e maior prevalência de aterosclerose, especialmente doença arterial coronariana e eventos como infarto e AVC. Alguns trabalhos sugerem que, em pessoas mais jovens, a presença do sinal pode estar relacionada a maior gravidade de lesões nas artérias do coração, mesmo após ajuste para fatores clássicos como diabetes, colesterol alto e tabagismo.
Até aqui, parece alarmante. Mas é justamente agora que começa a parte que raramente viraliza. Ter o sinal de Frank não significa ter doença no coração. E não ter o sinal não significa que o coração esteja protegido. Quando os pesquisadores analisam o poder real desse achado como “teste diagnóstico”, o resultado é modesto. Na maioria dos estudos, ele altera muito pouco a probabilidade prévia de doença coronariana. Em termos práticos: é um marcador curioso, mas fraco quando usado isoladamente.
Há ainda outro fator que costuma ser ignorado nas postagens virais: a dobra no lóbulo se torna mais comum com o avanço da idade. Parte da associação estatística pode refletir simplesmente o envelhecimento vascular, alterações microvasculares da pele ou mudanças naturais do tecido conjuntivo ao longo da vida. Ou seja, nem toda dobra é um sinal. Às vezes, é apenas o tempo.
O que realmente muda o risco cardiovascular de uma pessoa continua sendo aquilo que já sabemos, e que, curiosamente, nunca viraliza: pressão arterial mal controlada, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, sedentarismo e história familiar. Nenhum desses fatores rende um vídeo de 30 segundos tão impactante quanto uma foto de orelha. Mas são eles que, de fato, determinam quem terá ou não um evento cardíaco. E, diferentemente de uma dobra no lóbulo, são fatores sobre os quais podemos agir.
Se existe uma lição útil em toda essa discussão, não é examinar a orelha obsessivamente diante do espelho. É lembrar que a aterosclerose é silenciosa e começa cedo, muitas vezes décadas antes do primeiro sintoma. Lembrar que prevenção se faz no cotidiano, não no susto.
Hoje dispomos de ferramentas muito mais precisas para avaliar risco cardiovascular: escores clínicos validados, que combinam múltiplos fatores para estimar a probabilidade real de eventos, e, em situações específicas, exames como o escore de cálcio coronariano. São métodos que realmente ajudam a refinar o risco individual e orientar decisões de tratamento. Conversar com seu médico sobre esses recursos vale infinitamente mais do que qualquer autodiagnóstico feito pelo espelho.
O sinal de Frank pode, sim, servir como um alerta sutil ao médico atento, especialmente diante de um paciente jovem com poucos fatores de risco aparentes. Mas ele não substitui avaliação clínica criteriosa, exames adequados e acompanhamento regular. Transformar um detalhe anatômico em sentença cardiovascular é perigoso. Ignorar os fatores clássicos de risco é ainda mais.
Se uma morte precoce trouxe esse debate à tona, que sirva para lembrar que prevenção cardiovascular depende de decisões diárias, de acompanhamento médico e do controle rigoroso dos fatores que realmente importam. E esses, felizmente, estão nas nossas mãos.
Fonte: O Globo





