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Vacinar é uma estratégia para todas as idades – e tem tudo a ver com longevidade

Vacinação é essencial ao longo da vida toda, inclusive na terceira idade Foto: Yakobchuk Olena/Adobe Stock

Em 1904, a cidade do Rio de Janeiro foi palco de uma das maiores crises sanitárias e políticas da nossa história: a chamada Revolta da Vacina. Liderada por forte resistência popular à vacinação obrigatória contra a varíola, a revolta expôs desinformação, medo, autoritarismo estatal e uma população pouco esclarecida sobre os benefícios da ciência. À frente da campanha estava um jovem sanitarista, Oswaldo Cruz, que viria a se tornar símbolo da saúde pública brasileira.

Mais de um século depois, seguimos falando de vacina. E ainda precisamos falar.

As vacinas estiveram ao nosso lado como algumas das mais poderosas ferramentas de promoção da saúde. Graças a campanhas de imunização em massa, o mundo testemunhou a erradicação da poliomielite em diversos países, mudando o destino de gerações que antes conviviam com paralisias permanentes e mortes precoces. Avançamos na tecnologia: saímos de métodos rudimentares para plataformas modernas, como as vacinas de RNA mensageiro.

Talvez o exemplo mais emblemático da nossa época tenha sido a vacinação contra a covid-19. Em poucos meses, a ciência entregou imunizantes capazes de reduzir drasticamente hospitalizações e mortes, permitindo que retomássemos encontros, abraços e rotinas que pareciam perdidos. A vacina não foi apenas uma intervenção médica; foi um passaporte coletivo para a vida social.

Mas a história das vacinas também é atravessada por mentiras. Uma das mais graves foi a falsa associação entre a vacina contra o sarampo e o autismo. O estudo que originou essa alegação revelou-se fraudulento, baseado em dados manipulados. O pesquisador foi posteriormente descredenciado e condenado por má conduta. Ainda assim, o dano estava feito: a desinformação ganhou o mundo e impactou taxas de vacinação, favorecendo o reaparecimento de surtos de doenças antes controladas.

E por que retomar esse tema, com foco na população 60+?

Porque, paradoxalmente, enquanto associamos as vacinas quase exclusivamente à infância, esquecemos que elas são igualmente — e muitas vezes ainda mais — importantes na velhice.

Com o avançar da idade, ocorre o que chamamos de imunossenescência: um declínio gradual da resposta do sistema imunológico. Isso significa que pessoas idosas podem apresentar maior risco de infecções e, sobretudo, de suas formas mais graves. Ao mesmo tempo, é comum que convivam com duas ou mais doenças crônicas — hipertensão, diabetes, doença pulmonar, insuficiência cardíaca. Uma gripe que poderia ser autolimitada em um adulto jovem, é capaz de desencadear descompensações importantes em alguém com múltiplas condições, levando a internações, perda funcional e até óbito.

Vacinar não é apenas evitar uma infecção. É evitar a cascata de eventos que ela pode provocar.

Hoje, entidades como a Sociedade Brasileira de Imunizações recomendam para a população idosa vacinas como a da influenza (gripe), pneumocócica (contra pneumonia), vírus sincicial respiratório, herpes-zóster e, conforme o contexto epidemiológico e as diretrizes do Programa Nacional de Imunizações, a vacina contra a covid-19 e outras atualizações do calendário.

Há ainda linhas de pesquisa investigando possíveis associações entre vacinação e menor risco de demência, incluindo doença de Alzheimer. Embora os dados ainda estejam em estudo, a hipótese reforça algo que já sabemos: a prevenção de infecções graves tem o potencial de blindar também o cérebro e a autonomia.

Falar em vacina para pessoas idosas é falar em independência, em manutenção da funcionalidade, em evitar hospitalizações que podem marcar o início de um declínio acelerado. É falar em qualidade de vida.

Retomar a Revolta da Vacina não é apenas revisitar um episódio histórico. É refletir sobre o que aprendemos desde então. Oswaldo Cruz defendia uma ideia simples e revolucionária para sua época: a ciência como instrumento de proteção coletiva.

O que não podemos deixar acontecer é uma nova revolta movida pela desinformação e o consequente reaparecimento de doenças que já sabemos prevenir. Vacinas são fruto de pesquisa rigorosa, monitoramento contínuo e avaliação de segurança. Quando bem indicadas, salvam vidas, reduzem internações e evitam complicações que podem mudar trajetórias individuais e sobrecarregar famílias e sistemas de saúde.

Se, no início do século XX, a luta era convencer uma população desconfiada, no século XXI o desafio é combater a avalanche de desinformação digital e lembrar que envelhecer com saúde também passa pela caderneta de vacinação. Vacina não é só uma proteção para a infância. É uma estratégia de quem quer viver mais — e melhor.

Por Milton Crenitte – via Estadão

Médico geriatra, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e diretor técnico do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR)