
Especialistas apontam que o envelhecimento da população exigirá reestruturação dos currículos dos cursos de Medicina e necessidade de formação continuada para preparar profissionais capazes de atender às demandas da população idosa. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que, em 2023, pela primeira vez, há mais idosos do que jovens no Brasil. O porcentual de pessoas acima de 60 anos é de 15,6% e ultrapassou os 14,8% que têm entre 15 e 24 anos. De 2000 para 2023, a população idosa quase duplicou.
Para Eduardo Canteiro Cruz, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e chefe da residência em Geriatria, a formação médica não tem acompanhado a velocidade do envelhecimento populacional. “Embora a gente entenda a premência de formar os profissionais em áreas mais associadas ao envelhecimento, não há uma mudança substancial na proposição de formação. Existe uma certa sedimentação das mentalidades dos coordenadores dos cursos médicos, porque para aumentar a mesma carga horária de alguns conteúdos, tenho de diminuir outros.”
Entidades como a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) e a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) têm encabeçado movimentos para garantir que os currículos de Medicina passem a contemplar conteúdos mínimos dessas especialidades e estejam mais condizentes à realidade demográfica que se anuncia.
Em 2022, as diretrizes curriculares nacionais de Medicina passaram a incluir cuidados paliativos como conteúdo obrigatório. A ANCP atuou para definir quais eram as competências e conteúdos mínimos a serem desenvolvidos ao longo da graduação. Agora, a SBGG faz o mesmo com a Geriatria. “A maioria dos currículos médicos fala de saúde do idoso, o que é muito diferente de você ter alguém explicando sobre envelhecimento sob a ótica do geriatra, que é um especialista”, afirma Cruz.
Ele defende uma reestruturação de cursos de Medicina, de modo que os currículos trabalhem as competências menos fragmentadas, garantindo a formação de um profissional capaz de oferecer ao paciente um cuidado integral, que é mais eficiente e gera menos custos. “Não dá para continuarmos ensinando como a gente fazia há 50 anos.”
Ele cita como exemplo a oncologia, que é uma especialidade médica, e o aluno que não quer seguir esta área não precisa, necessariamente, aprender qual linha de quimioterapia deve ser prescrita ao paciente em tratamento. Mas há outros conhecimentos imprescindíveis. “Como reconhecer o câncer, saber rastreá-lo e acolher a pessoa com câncer.”
Para José Humberto Fregnani, Superintendente de Estudo, Pesquisa e Inovação do A.C.Camargo Câncer Center, o envelhecimento populacional e a longevidade vão exigir formação contínua e atualização dos profissionais da saúde. Ele já sente o aumento pela procura de especializações no A.C.Camargo. “Cuidados paliativos, por exemplo, é uma área que vai crescer muito e de forma geral os profissionais não estão preparados para realizar. Muitas vezes o paciente idoso não tem uma doença maligna, mas o melhor tratamento naquele momento não é fazer um procedimento invasivo, é oferecer qualidade de vida com alívio de sintomas.”
O aumento de casos de mortes provocadas por câncer em vez de doenças cardiovasculares, que historicamente vinham antes, também tem aumentado a procura por cursos na área de oncologia, segundo Fregnani. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima 781 mil casos de câncer por ano no Brasil entre os anos de 2026 e 2028.
Fregnani conta que o câncer está se tornando a principal causa de morte, superando as doenças cardiovasculares em alguns locais, pois estas tiveram avanços em tratamentos e controle de riscos como o tabagismo, enquanto a oncologia ainda apresenta uma estimativa de crescimento contínuo.
O dado é reforçado por um levantamento do Observatório de Oncologia que apontou que em 2023 o câncer foi a principal causa de morte em 670 municípios – o que representa 12% do total. Em 2015, esse número era de 516 cidades, e em 2020, de 606, ou seja, foi registrado um aumento acumulado de 30% em oito anos.
O médico explica que o câncer é uma patologia do DNA provocada por mutações genéticas que tornam as células “imortais”, permitindo que se repliquem desordenadamente. Com o avançar da idade, mecanismos de defesa do corpo contra essas células mutadas se tornam menos eficientes, e o tempo de exposição a fatores de risco, como tabagismo e má alimentação, é maior, o que explica a associação direta ao envelhecimento. “A oncologia ainda é um desafio muito grande para o País. Por isso, a importância do lifelong learning para todos os profissionais: eles não podem parar na residência, precisam continuar se atualizando. Mas não adianta só ir em congresso, é preciso fazer cursos de aprimoramento, como MBA, mestrado ou doutorado.”
Na contramão da recomendação, a Demografia Médica no Brasil 2025, produzida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, apontou que apenas 8% dos médicos cursavam algum programa de residência no ano de 2024.
Além disso, a pesquisa mostrou uma defasagem entre a oferta de vagas de graduação médica e residência médica. Em 2024, havia no Brasil 244.141 médicos generalistas, que não tinham título de especialista.
Duas das habilidades cuja importância será latente para a atuação médica nos próximos anos são a capacidade de se comunicar e a de trabalhar em equipe. O professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp reforça que tanto na área de cuidados paliativos quanto na geriatria, a atuação é feita por equipes multidisciplinares.
“Os profissionais de saúde são muito pouco treinados a trabalhar em equipe durante a sua formação. Isso é um problema porque gera muito conflito e se perde muito tempo até que o profissional já formado tenha a capacidade de fazer essa interação de maneira equilibrada”, diz Cruz.
A comunicação também será fundamental. “Saber como dar más notícias, incluindo a família, o cuidador, na tomada de decisão. Uma comunicação que dê protagonismo à pessoa idosa”, acrescenta o professor da Unifesp.
Além disso, é necessário que os profissionais saibam “promover saúde”, estabelecendo medidas de reabilitação, de prevenção primária, secundária, terciária e quaternária. “Se a gente fica focado só na doença, a gente acaba criando um cuidado em saúde muito caro. Temos de mudar um pouco o eixo da doença para saúde e com isso tentar mudar a realidade que a gente tem do processo de transição epidemiológica da população”, afirma Cruz.
Fonte: Estadão





