Adultos de meia-idade e idosos que são mais ativos à noite apresentam pior saúde cardiovascular em comparação com pessoas do mesmo perfil que são mais ativas durante o dia — e o efeito é ainda pior para as mulheres. Pelo menos é isso que mostra uma nova pesquisa revisada por pares e publicada no Journal of the American Heart Association.
As doenças cardiovasculares — principalmente a doença isquêmica do coração (que pode levar ao infarto) e o acidente vascular cerebral (AVC) — são as principais causas de morte no Brasil, representando cerca de 30% de todos os óbitos registrados no País.
No estudo, foram analisados os dados de saúde de mais de 322 mil participantes do UK Biobank, do Reino Unido, descrito como o mais abrangente banco de dados biomédicos do mundo. As pessoas tinham entre 39 e 74 anos (idade média de 57 anos) e não apresentavam histórico de doença cardiovascular. Como ponto de partida, os pesquisadores avaliaram o cronotipo dos voluntários, ou seja, a preferência natural de um indivíduo pelo horário de sono e vigília:
- Cerca de 8% dos participantes disseram dormir tarde e ter o pico de atividade mais tarde no dia (são os chamados vespertinos).
- Em torno de 24% disseram ser mais ativos no início do dia e dormir mais cedo (são os matutinos).
- Aproximadamente 67% foram classificados como “intermediários”, pois disseram não ser nem matutinos nem vespertinos ou não ter certeza do seu cronotipo.
Para analisar o risco cardíaco dos participantes, os pesquisadores levaram em conta comportamentos e outros fatores associados à saúde cardiovascular ideal, como manter uma dieta saudável, fazer atividade física regularmente, não fumar, ter sono de boa qualidade, além de apresentar níveis saudáveis de peso, colesterol, glicemia e pressão arterial.
Ao cruzar os dados, os autores perceberam, então, que as pessoas com o cronotipo vespertino apresentaram uma probabilidade 79% maior de ter uma saúde cardiovascular ruim em comparação com os cronotipos intermediários (usados como base de comparação), principalmente por fumar e ter um sono inadequado. Ao longo de um acompanhamento médio de quase 14 anos, os vespertinos também tiveram um risco 16% maior de desenvolver doenças cardiovasculares, incluindo infarto e AVC.
O médico e neurocientista John Araujo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), afirma que esse estudo valida o que outras pesquisas já mostravam. “A grande novidade dele é trabalhar com uma população muito grande, o que confere uma validade epidemiológica. Os outros estudos sempre foram realizados com populações menores ou grupos controlados”, explica.
No trabalho, as mulheres vespertinas tiveram maior prejuízo em comparação aos homens verpertinos: elas apresentaram uma probabilidade 96% maior de ter um perfil de saúde cardiovascular ruim, enquanto para eles esse aumento foi de 67%.
Existem duas explicações para a diferença entre os gêneros, segundo Araujo. A primeira delas é biológica, já que as mulheres experimentam variações hormonais rítmicas durante o ciclo menstrual. “Lembrando que os hormônios, como a progesterona, são relacionados com a reprodução, mas agem em todas as células do corpo, inclusive no coração”, diz o especialista em neurofisiologia e cronobiologia.
A outra razão é sociocultural, já que elas costumam enfrentar a “tripla jornada”. “Durante o dia elas têm que fazer as tarefas domésticas, cuidar dos filhos. Infelizmente, ainda tem pouca divisão do trabalho em casa. É mais fácil para o homem, porque, quando ele trabalha à noite, vai para casa e pode dormir; a mulher, não”.
Os pesquisadores notaram ainda que os tipos vespertinos tendem a ser mais jovens, possuir menor nível socioeconômico e trabalhar com mais frequência em regimes de turnos do que os tipos intermediários ou matutinos.
Risco é comportamental, não biológico
Uma das conclusões mais importantes da pesquisa é que grande parte (75%) da associação entre o cronotipo vespertino e o maior risco de doenças cardíacas é explicada pelos comportamentos de saúde, e não por fatores biológicos ligados ao hábito de dormir mais tarde.
O tabagismo foi principal comportamento prejudicial ao coração notado entre os vespertinos. Outros medidores foram qualidade do sono, níveis de glicose no sangue, peso corporal e a dieta.
Esses achados sugerem que, se os indivíduos vespertinos focarem na manutenção de hábitos de vida saudáveis, o risco cardíaco pode ser comparável ao de outros cronotipos.
“Pessoas com cronotipo vespertino não são inerentemente menos saudáveis, mas enfrentam desafios que tornam particularmente importante para elas manter um estilo de vida saudável”, diferencia Kristen Knutson, professora da Northwestern Feinberg School of Medicine que liderou as recentes diretrizes da associação de cardiologia sobre ritmos circadianos. “A questão se resume ao problema de uma pessoa noturna tentando viver em um mundo de pessoas matutinas. Ela acorda cedo para trabalhar porque é quando o expediente começa, mas isso pode não estar alinhado com seu ritmo interno”.
Os impactos disso vão muito além do sono. O metabolismo, por exemplo, oscila ao longo do dia, conforme o corpo produz insulina para transformar os alimentos em energia. Isso significa que pode ser mais difícil para uma pessoa com cronotipo noturno lidar com um café da manhã rico em calorias consumido muito cedo (quando ela estaria, na verdade, dormindo) ou, se estiver fora de casa até tarde, pode não encontrar opções de alimentos saudáveis, exemplifica Knutson, que não participou do estudo.
“Quando você tem uma perturbação da ritmicidade circadiana, ou seja, do ritmo biológico, principalmente o ciclo sono-vigília, há uma quebra do controle do equilíbrio do organismo. Isso gera diversas alterações, desde as metabólicas e cardiovasculares até aquelas relacionadas ao nosso estado mental”, acrescenta Araujo.
A grande questão é a adaptação da pessoa à rotina, afirma o especialista em cronobiologia. E, para trabalhadores noturnos, esse é um desafio extra. Ele cita guardas noturnos, por exemplo, que podem até conseguir inverter a sua rotina se não forem casados e tiverem filhos. Mas, se tiver uma família, a tendência é acompanhar o ritmo dos demais membros da casa, tornando mais difícil dormir até tarde.
As principais limitações do estudo incluem o fato de que o cronotipo foi medido apenas uma vez e por meio da preferência autodeclarada pelos participantes, sem definição de um horário padrão para o que é considerado matutino ou vespertino. Além disso, a maioria dos participantes do UK Biobank é branca e mais saudável do que a população em geral, o que pode limitar a aplicabilidade dos resultados a outros grupos.
Fonte: Estadão





