
Outro dia, uma amiga me fez uma pergunta simples, daquelas que parecem ter resposta óbvia, mas que dizem muito sobre como vivemos hoje. “O que é melhor para a saúde: ficar sentado o dia inteiro trabalhando e separar uma hora para ir à academia, correr ou fazer musculação, ou ter o movimento distribuído ao longo do dia, caminhando mais de 10 mil passos, subindo uns dez andares de escada, carregando peso aqui e ali?”
Para reforçar o argumento, ela contou a história de um funcionário do prédio onde trabalha. Um homem que praticamente não pisa numa academia, mas passa o dia em movimento: sobe e desce escadas, carrega caixas, empurra carrinhos, anda o tempo todo. “Ele é forte, disposto, saudável. Parece até contradizer tudo o que ouvimos sobre treino”, disse ela.
A pergunta faz sentido — e a resposta não é tão simples quanto escolher um lado. Durante muito tempo, vendemos a ideia de que uma hora de exercício por dia resolveria todos os problemas de quem passa o restante do tempo sentado. Mas a ciência tem mostrado que o corpo humano não funciona bem nesse modelo de compensação.
Estudos recentes indicam que longos períodos sentados estão associados a maior risco cardiovascular, diabetes tipo 2, perda de massa muscular e até aumento da mortalidade, mesmo em pessoas que praticam atividade física regularmente. Ou seja: ir à academia é importante, mas não “anula” completamente os efeitos de passar oito, dez horas sentado.
Por outro lado, o movimento distribuído ao longo do dia, o que os pesquisadores chamam de atividade física incidental, tem um impacto poderoso sobre o metabolismo. Caminhar, subir escadas, carregar peso, mudar de posição frequentemente, tudo isso mantém os músculos ativos, melhora a sensibilidade à insulina, aumenta o gasto energético e reduz inflamações crônicas. É como se o corpo recebesse lembretes constantes de que foi feito para se mover.
Isso ajuda a explicar por que pessoas com trabalhos fisicamente ativos, como o funcionário citado pela minha amiga, muitas vezes apresentam boa força, resistência e saúde geral, mesmo sem uma rotina formal de exercícios. O corpo responde ao estímulo que recebe repetidamente, não apenas ao esforço concentrado de uma hora.
Mas atenção: isso não significa que academia seja dispensável. Exercícios estruturados têm um papel fundamental, especialmente para ganho e manutenção de massa muscular, melhora do VO2 máximo, fortalecimento ósseo e prevenção de quedas com o envelhecimento. O problema não é treinar. O problema é treinar e, no resto do dia, viver como se o corpo fosse feito para ficar parado.
O cenário ideal não é “ou um, ou outro”. É a combinação. Distribuir movimento ao longo do dia — mais passos, escadas, menos tempo sentado — e, além disso, incluir sessões regulares de exercícios planejados. Um potencializa o outro. Quem se move mais ao longo do dia tende a render melhor nos treinos. E quem treina geralmente executa as tarefas diárias com mais eficiência e menos risco de lesões.
Talvez a pergunta da minha amiga pudesse ser reformulada. Em vez de “qual é melhor?”, o mais honesto seria perguntar: “Como posso parar de tratar o movimento como um evento isolado torná-lo parte da vida?”
Nosso corpo não foi projetado para aguentar horas de imobilidade e, depois, tentar resolver tudo em 60 minutos. Ele foi feito para se mover sempre que possível, ao longo do dia, em pequenos gestos repetidos, que somados fazem enorme diferença. E quanto mais cedo entendermos isso, maiores são as chances de chegar aos próximos anos com mais saúde, autonomia e qualidade de vida, vivendo melhor, com mais disposição e por mais tempo. Mas…. se você tiver mesmo que escolher, porque não consegue unir os dois cenários, escolha se movimentar mais ao longo do dia.





