
Com uma explosão de casos de ansiedade e depressão, o número de trabalhadores afastados em decorrência de transtornos mentais cresceu ao menos 79% em apenas dois anos no País, revela um levantamento feito pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) com base em dados do INSS divulgado nesta terça-feira, 27.
O número de licenças concedidas passou de 219,8 mil em 2023 para 393,6 mil em 2025 (com dados até novembro), um aumento de 79,1% mesmo sem os dados fechados de dezembro. Os transtornos depressivos e ansiosos foram responsáveis por 86% do total de afastamentos no ano passado.
As licenças por transtornos ansiosos subiram 92% no período, passando de 81.874 para 157.235. Já o total de afastamentos por episódios depressivos e por transtorno depressivo recorrente subiu 71%, saltando de 106.796 em 2023 para 182.937 nos primeiros 11 meses de 2025. O dado equivale a uma média de um trabalhador afastado por depressão a cada três minutos.
Os afastamentos por burnout, um quadro de esgotamento extremo diretamente ligado a questões laborais, triplicaram no período, passando de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025.
O presidente da ANAMT, Francisco Cortes Fernandes, lembra que os dados referem-se somente aos casos de licenças superiores a 15 dias, quando os trabalhadores recebem o benefício pelo INSS, e de trabalhadores formais, vinculados à Previdência.
Dessa forma, diz ele, o número de trabalhadores brasileiros afetados por questões de saúde mental deve ser ainda maior. “O levantamento mostra os quadros mais graves e de trabalhadores formais, que representam de 45 a 50 milhões de brasileiros. Mas como estão os trabalhadores informais? Deve ser uma coisa impressionante”, diz ele.
O cenário também tem impacto econômico. O custo dos benefícios concedidos pelo INSS relacionados a transtornos mentais no ano passado chegou a R$ 954 milhões.
Segundo a ANAMT, “os transtornos de ansiedade são caracterizados por medo excessivo, preocupação persistente e sensação constante de ameaça, mesmo na ausência de risco real”. No ambiente de trabalho, diz a entidade, costumam estar associados à sobrecarga, pressão por resultados, jornadas extensas e baixa previsibilidade das rotinas.
Já a depressão costuma ter como sinais “um humor persistentemente deprimido, perda de interesse ou prazer nas atividades, fadiga intensa e prejuízo funcional significativo”. No trabalho, o quadro costuma ter impacto sobre a capacidade de concentração, a tomada de decisões e a manutenção do ritmo de trabalho.
Para o médico, a crescente pressão por metas nas empresas, somada a fatores sociais e pessoais, ajudam a explicar a alta expressiva de afastamentos por transtornos mentais. “Os transtornos mentais são multifatoriais: existem as questões do trabalho e as de fora do trabalho, e muitas vezes elas coexistem, mas quando você faz uma remuneração vinculada a metas, por exemplo, você vai produzir trabalhadores doentes”, diz Fernandes.
Ele cita ainda como um dos aspectos relacionados ao aumento da ansiedade o medo da perda do emprego diante do avanço de ferramentas tecnológicas, como as operadas por inteligência artificial. “Imagina como fica a cabeça do trabalhador ao pensar que em breve pode ser substituído por uma máquina.”
Para Aline Wolff, psicóloga especialista em alto desempenho e pesquisadora de performance sustentável, as mudanças no ambiente de trabalho do período pós-pandemia podem estar contribuindo para o aumento do adoecimento mental.
“Cada vez mais, temos as fronteiras entre trabalho e vida pessoal misturadas, a tecnologia invadindo a vida das pessoas”, ressalta ela. A especialista também destaca que os cenários social, econômico e político contribuem para um contexto de incertezas e sofrimento psíquico.
Grupos mais afetados
A análise dos dados por gênero revela que as mulheres são a maioria nos afastamentos concedidos. Do total de licenças relacionadas a transtornos mentais, 68% foram para trabalhadoras. Para Aline Wolff, o cenário reflete as disparidades ainda existentes entre os sexos.
“As mulheres são mais afetadas porque elas têm mais sobrecarga, acumulam os cuidados com os filhos e casa com seus afazeres profissionais. Além disso, a gente pode entender as mulheres como um grupo minorizado. E esses grupos sentem que têm que fazer mais para serem reconhecidos e ter espaço”, afirma a psicóloga.
No recorte por idade, o maior número de licenças relacionadas a questões de saúde mental está na faixa etária dos 40 aos 49 anos, com 125 mil afastamentos.
Empresas precisam criar espaços de acolhimento
O presidente da ANAMT afirma que, diante do cenário preocupante, é importante que as empresas estruturem áreas de Medicina do Trabalho que estejam realmente atentas a fatores que aumentam o risco de adoecimento psíquico, como metas incompatíveis, assédio e sobrecarga.
Ele cita ainda a importância de as empresas seguirem as atualizações da norma NR-1, que estabelece as diretrizes gerais de segurança e saúde ocupacionais. No ano passado, a norma passou a exigir que as empresas façam a gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
“Não é só oferecer uma sala com massagem e outra sala com jogos para falar que está preocupado com o bem-estar. É preciso buscar uma série de correções de rumo”, destaca Fernandes.
Ele encoraja os trabalhadores a enxergarem a área de Medicina do Trabalho não só como aquela que realiza exames periódicos, mas como um espaço de escuta. “O médico do trabalho pode funcionar como uma ponte entre o trabalhador e o supervisor na tentativa de abrir o diálogo e melhorar a situação”, diz.
Para Aline Wolff, é importante que as empresas ofereçam esses espaços de escuta com profissionais especializados e um ambiente acolhedor.
“O trabalhador não vai se abrir se o espaço não for seguro. E ter um espaço seguro significa que o trabalhador não será julgado ou classificado como alguém que não quer trabalhar ou que é fraco de alguma forma. É preciso trabalhar as lideranças também para que elas sejam capazes de promover um ambiente psicologicamente seguro”, ressalta.
Fonte: Estadão





