
Pela primeira vez em 18 anos, a pesquisa Vigitel 2025, divulgada pelo Ministério da Saúde no final de janeiro, incluiu o monitoramento do sono dos brasileiros. Os dados de 2024 revelam um cenário preocupante para os idosos: a população de 65 anos ou mais apresenta a maior frequência de sono curto entre todas as faixas etárias.
Segundo o levantamento, 23,1% dos idosos relatam dormir menos de seis horas por noite. O índice supera a média nacional de 20,2% e é significativamente maior do que o registrado entre os jovens de 18 a 24 anos (16%).
Além da duração insuficiente, a qualidade do sono também é afetada: 29,9% dos idosos relatam sintomas de insônia, com uma disparidade de gênero marcante, afetando 33,2% das mulheres idosas contra 24,8% dos homens.
Quais as razões?
Para a médica especialista em medicina do sono do Instituto do Sono, Luciana Palombini, é fundamental distinguir o que é uma mudança fisiológica natural do que é um distúrbio que necessita de tratamento.
Existe uma tendência natural para a gente acordar mais durante a noite e ter maior dificuldade de manter o sono com o passar da idade”.
Ela detalha que o ritmo circadiano — o relógio biológico que regula os horários de vigília e descanso — “fica um pouco mais fraco com a idade, assim como várias outras coisas”, tornando o sono mais fragmentado.
No entanto, a médica alerta que muitos comportamentos comuns na terceira idade agravam essa fragilidade natural. “Com a idade, é muito frequente as pessoas fazerem o que não deve ser feito. As pessoas têm menos atividade durante o dia, menos interação social e menos exposição ao sol”, afirma.
A especialista destaca que a falta de luz solar e o hábito de cochilar durante o dia acabam “roubando” o sono da noite, desregulando ainda mais um ritmo já fragilizado.
Perigos de se ter um sono curto
A preocupação com o dado de que quase um quarto dos idosos dorme menos de 6 horas vai além do cansaço. A privação crônica de sono nessa fase da vida está associada a riscos graves para a saúde neurológica.
Luciana Palombini destaca a descoberta recente do sistema linfático cerebral (chamado de sistema glinfático), que atua como uma “limpeza cerebral” durante o sono profundo. “A gente sabe que esse sistema funcionando bem é fundamental para a prevenção de doença neurodegenerativa, principalmente Alzheimer”, disse.
Se você dorme pouco, você tem mais chance de ter Alzheimer”.
Além dos riscos neurológicos, dormir menos do que o necessário gera um estresse crônico no organismo, aumentando a predisposição para doenças cardiovasculares, infarto, AVC e prejuízos ao sistema imunológico, segundo a especialista.
Uso de telas
Palombini destaca que ficar no celular até tarde da noite é mais um fator relevante que impacta o sono de qualidade. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de maio de 2025, divulgada pelo IBGE, 88,9% dos brasileiros com 10 anos ou mais possuem um celular para uso pessoal, totalizando aproximadamente 167,5 milhões de pessoas.
O aumento no acesso a celulares foi especialmente notável entre os brasileiros com 60 anos ou mais. Em 2019, dois terços dessa faixa etária tinham celular; já em 2024, esse percentual subiu para 78,1%. Diante desse contexto, a especialista ressalta a importância de evitar o uso de telas antes de dormir.
“O abuso das telas é fator número um atualmente para a perda de sono, principalmente entre os jovens, mas também afetando os idosos. O excesso de estímulo é o que causa a insônia e até mesmo ansiedade. Não é adequado ficar vendo diversos tipos de informação até altas horas da noite”, acrescenta Palombini.
Sinais de alerta
Como saber se o sono do idoso é apenas “leve” ou insuficiente? A resposta está na disposição durante o dia.”Estar cansado durante o dia não é normal”, enfatiza Palombini.
Fonte: viva.com.br
Ela orienta que, se o idoso apresenta desânimo frequente, falta de energia para realizar tarefas diárias e irritabilidade, isso não deve ser atribuído apenas à idade.
“Hoje as pessoas se acostumaram a dormir mal. Você fala com o paciente e ele diz ‘eu acordo cansado todos os dias’.”
A especialista reforça que essa situação não é normal. Para reverter esse quadro, a recomendação médica envolve “higiene do sono” e mudança de hábitos.
Manter horários regulares, aumentar a exposição ao sol pela manhã e garantir interação social são passos fundamentais para fortalecer o ritmo biológico na terceira idade.





