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Exercício físico e colesterol: o que a ciência recomenda

Fazer exercício é recomendação para prevenir e ajudar no tratamento de uma série de doenças Foto: Mladen/Adobe Stock

Os lipídeos sanguíneos, incluindo o colesterol, são moléculas circulantes essenciais para o nosso organismo, porém, seu excesso se associa ao aumento do risco para eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), principais causas de morte e incapacidades no Brasil e no mundo.

Mas afinal, fazer exercícios pode ou não ajudar a ter um perfil lipídico sanguíneo mais favorável?

É verdade que a genética influencia e pode ser considerada um fator de risco não modificável para a chamada dislipidemia (ou seja, alterações nos níveis de gorduras), mas existem fatores modificáveis, como alimentação, peso, tabagismo e, com cada vez mais destaque, a atividade física.

Prova disso é que uma nova diretriz para o tratamento da dislipidemia divulgada recentemente pela ACC/AHA (American College of Cardiology/American Heart Association) cita o exercício regular como essencial para uma vida saudável e para a redução do risco cardiovascular, incluindo o manejo da dislipidemia.

Perceba que, antes, a atividade física era vista como um fator adicional no estilo “quando der tempo, você faz”, mas, atualmente, é encarada como essencial – tanto que faz parte do tratamento e dos fatores de risco modificáveis.

Agora, reflita: você é ativo de verdade?

Mas, como saber se sou realmente ativo ou se fico excessivamente em comportamento sedentário? A forma mais simples de classificar o nível de atividade é medir os minutos semanais de atividade física e a sua intensidade.

Segundo as principais diretrizes, é necessário considerar o mínimo de 50 minutos por sessão, de intensidade moderada e realizada três vezes na semana. Moderada seria uma intensidade nem muito forte nem muito leve – na prática, você consegue manter uma conversa, mas com certa dificuldade. Essa recomendação está, inclusive, dentro do que preconiza a OMS (2020) e o Guia de Atividade Física para a População Brasileira do Ministério da Saúde (2021).

Acontece que ser “apenas” ativo fisicamente, alcançando essa meta, pode não ser suficiente se você trabalha ou estuda por muitas horas seguidas em comportamento sedentário. Por exemplo: se você é ativo, mas fica sentado por oito a 10 horas por dia, pode estar perdendo os benefícios conquistados durante os exercícios físicos! É algo muito importante a se considerar.

Além disso, quando o assunto é colesterol, é impossível não citar o papel da alimentação, principalmente o excesso de ingestão de gordura saturada e gordura trans, ingredientes comuns em alimentos ultraprocessados.

A escolha dos exercícios

Quando pensamos no exercício físico, existem inúmeras opções de modalidades, duração, intensidade, frequência – e muita gente fica perdida. O que realmente funciona?

Em resumo, exercícios que melhoram o condicionamento cardiovascular (sabe o “fôlego” que a gente percebe que não tem quando precisa dar uma corridinha para não perder o voo no aeroporto? Então…) e que promovem fortalecimento muscular na academia, no crossfit ou até no jiu-jítsu, têm efeitos significativos nos lipídios.

Uma meta-análise com 148 estudos clínicos randomizados controlados mostrou que a prática de exercícios causou um aumento de cerca de 2,11 mg/dL no HDL (considerado o colesterol “bom”), além de reduzir em 7,22 mg/dL o LDL (o colesterol “ruim”) e em 8,01 mg/dL os triglicerídeos em adultos acima de 40 anos com diabetes e/ou obesidade.

Para a hipertrigliceridemia especificamente, é recomendado acumular, na semana, pelo menos 150 minutos de atividade física moderada ou 75 minutos vigorosa, adicionando no mínimo dois dias por semana de exercício de força para membros superiores e inferiores. Manter-se ativo melhora a sensibilidade à insulina, auxilia na manutenção do peso e tem efeitos diretos na remoção de triglicerídeos.

As metas de colesterol

A dislipidemia geralmente ocorre com aumento do colesterol total, mas acompanhar somente esse valor pode levar a interpretações equivocadas – por isso, embora ele ainda apareça como referência geral, não direciona o tratamento.

Não é à toa que o colesterol – produzido pelo nosso fígado, mas também obtido pela alimentação – pode ser dividido em frações. O LDL (a lipoproteína de baixa densidade), por exemplo, transporta colesterol para os tecidos, mas, em excesso, acumula-se nas paredes dos vasos sanguíneos (artérias), formando placas ateroscleróticas e, por isso, também é conhecido como colesterol ruim.

Não existe um único número mágico: a meta de LDL deve considerar o risco individual, que pode aumentar com a idade; com diagnóstico de hipertensão arterial; infarto prévio ou até inatividade física. Na nova diretriz estadunidense, em pessoas com risco limítrofe ou intermediário, a meta de LDL é menor que 100 mg/dL; em casos de alto risco, esse valor cai para menos de 70 mg/dL; e, em indivíduos de muito alto risco, a meta é menor que 55 mg/dL. Assim, podemos entender por que cada mg/dL conta tanto.

É preciso reconhecer que o impacto do exercício físico no LDL é menor, mas o benefício cardiovascular continua expressivo.

Temos ainda o HDL (a lipoproteína de alta densidade), conhecido como bom colesterol, que faz o caminho inverso: recolhe o colesterol dos tecidos e o leva de volta ao fígado para ser eliminado. Esse costuma ser bem elevado em ciclistas e corredores (mais de 20% em comparação a pessoas inativas). Não podemos esquecer de que os triglicerídeos, que são a principal forma de armazenamento de energia no tecido adiposo, também circulam no sangue e, em níveis elevados, aumentam o risco cardiovascular. Quando as taxas ficam acima de 500 mg/dL, a preocupação maior é com a pancreatite.

Se você já faz exercício e seu colesterol está elevado (especialmente o LDL e os triglicerídeos), saiba que se manter ativo também melhora a função de relaxamento dos vasos sanguíneos e auxilia no controle da pressão arterial, um dos principais fatores de risco para eventos cardíacos. Uma única sessão de treino pode reduzir a pressão arterial por muitas horas, fenômeno que chamamos de hipotensão pós-exercício (HPE). Esse tipo de hipotensão (que não tem a ver com uma doença) pode levar pessoas com pressão elevada pré-exercício a normalizarem os valores após a atividade. Já a soma de sessões agudas gera um efeito crônico de controle da pressão arterial. Ou seja, mesmo que os níveis de colesterol não caíam, movimentar-se traz benefícios cardiovasculares significativos.

A diretriz brasileira mais recente sobre tratamento da dislipidemia foi publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia no ano passado e também trabalha com metas:

  • Para pessoas com baixo risco: recomenda-se um LDL menor que 115 mg/dL
  • Risco intermediário: menor que 100 mg/dL
  • Alto risco: menor que 70mg/dL;
  • Muito alto risco: menor que 50 mg/dL.

Outro ponto em comum é que nossa diretriz enfatiza a importância do exercício físico com base em forte evidência, e a recomendação segue o mesmo que preconiza a OMS e o Ministério da Saúde: pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada, ou 75 minutos de atividade vigorosa. O exercício físico, especialmente quando realizado no lazer e no tempo livre, deve ser estimulado desde cedo e é parte do tratamento – mesmo naqueles que fazem uso de estatinas e outros fármacos.

Fonte: Estadão