
A ideia de que tristeza, desânimo e isolamento são consequências naturais da velhice ainda circula com força no imaginário social. Especialista alerta, porém, que é preciso cautela para não confundir transformações próprias da idade com sinais de adoecimento psíquico. O envelhecimento envolve mudanças físicas, emocionais e sociais, redução do ritmo, maior cansaço e reflexões sobre a trajetória de vida, que nem sempre indicam depressão.
“Eu diria que o envelhecimento é uma fase fundamental da vida como é a adolescência, como é se casar, como é entrar no primeiro emprego, como é se mudar, como é um divórcio”, afirma o psiquiatra e psicogeriatra Dr. Felipe José Nascimento Barreto, Cremers 42533. Segundo ele, é natural que o envelhecimento traga preocupações a respeito da parte financeira, se a pessoa vai ter capacidade de se manter com aposentadoria, preocupações a respeito de doenças, doenças que são mais comuns com o envelhecimento, preocupações sobre síndrome do ninho vazio, sobre viuvez, etc. Então é mais comum ter esse tipo de preocupações e pode trazer nostalgias e comparações entre passado e presente, mas isso, por si só, não caracteriza doença.
O médico reforça que “a depressão é um problema comum entre idosos, mas não é parte do envelhecimento”. Por isso a importância de uma avaliação específica para identificar se é a doença ou se são sentimentos e emoções inerentes a essa fase da vida, pois muitas vezes, dificuldades de adaptação às limitações da idade podem ser confundidas com sintomas depressivos, atrasando o diagnóstico correto.
Critérios diagnósticos e sinais menos evidentes
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, por meio da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o diagnóstico de depressão exige a presença, por pelo menos duas semanas, de tristeza persistente e/ou perda de interesse e prazer em atividades antes significativas. A pessoa pode não chorar com frequência, mas deixa de sentir satisfação no que antes lhe era importante.
Outros sintomas incluem alterações de apetite, insônia ou sono excessivo, lentificação psicomotora, sensação de inutilidade, fadiga intensa, e em casos mais graves de depressão, o indivíduo poder ter ideação de suicida ou mesmo tentativa de suicídio.
“Esses critérios para depressão são iguais, seja para jovens, seja para crianças e também para adultos. Mas é importante enfatizar nos idosos, principalmente sintomas que a gente liga a sintomas somáticos e cognitivos”, pontua. Entende-se por sintomas somáticos, dores persistentes sem causa clara e queixas vagas e, por sintomas cognitivos, esquecimentos frequentes e repetição de assuntos podem ser indícios. “É importante ficar atento a esses sintomas somáticos, principalmente na população idosa, pois muitas vezes o idoso não tem tristeza, não chora com facilidade, mas apresenta bastante desânimo”, alerta.
Solidão, luto e perda de autonomia
Dados apontam que cerca de 14% dos idosos convivem com transtornos mentais pouco reconhecidos e subtratados. A solidão é fator de risco relevante: um em cada quatro relata sentir-se só. O isolamento social, intensificado em contextos recentes como a pandemia, evidenciou o impacto do afastamento no agravamento de quadros cognitivos e emocionais.
Além do isolamento social e da solidão, há outros fatores de risco como, o uso de substâncias psicoativas como álcool, doenças médicas como o derrame, ou o acidente vascular cerebral ou o câncer.
Luto pela perda do cônjuge, convivência com doenças crônicas e a responsabilidade de cuidar de parceiros adoecidos ampliam a vulnerabilidade. “Cuidar de um esposo ou de uma esposa com doença crônica, especialmente condições severas ou neurodegenerativas, é um peso”, explica o médico. Doenças cardíacas, insuficiência renal e quadros demenciais exigem acompanhamento contínuo e geram desgaste físico e emocional.
A perda de autonomia também pesa, “hoje a gente sabe que um determinante importante da saúde do idoso é a funcionalidade, a capacidade de fazer o que gosta com autonomia e independência”. Ele defende adaptação em vez de desistência, pois “não é que a pessoa não consiga mais fazer, é que não consegue fazer como fazia 10 ou 15 anos atrás, mas pode fazer diferente”.
Ansiedade que se confunde com doença física
Nos idosos, a ansiedade pode se apresentar com sintomas físicos intensos, falta de ar, dor no peito, sensação de morte iminente, frequentemente confundidos com emergências clínicas. “Ansiedade é ação que o corpo tem diante de adversidades ou de coisas que potencialmente ele acredita que vão abalar a sua estrutura. É como uma reação de medo. Os sintomas de ansiedade são como um alarme de um carro, que toca não necessariamente porque alguém violou a unidade do carro”, explica o médico.
Crises de pânico atingem auge em minutos, “é uma crise muito rápida, aguda e de uma intensidade tão forte que a pessoa acha que vai morrer. Tem o seu auge em dez minutos e depois passa, geralmente com 30 minutos”, ainda assim, o especialista recomenda cautela redobrada, reforçando a necessidade de sempre afastar causas físicas, pois há casos em que sintomas atribuídos à ansiedade são na verdade, insuficiência cardíaca.
Estigma, etarismo e diagnóstico tardio
O preconceito etário contribui para a negligência do sofrimento psíquico, pois muitas vezes se atribui tudo à idade, mas idade não é doença, é fator de risco. Entre homens idosos, barreiras culturais dificultam a busca por ajuda, visto que sempre foi reforçado que homem não chora e não fala de seus sentimentos e problemas e isso acaba dificultando na busca por tratamento.
O resultado de tudo isso pode ser diagnóstico tardio. Dr. Felipe lembra que “às vezes a pessoa chega com depressão há cinco ou dez anos e nunca fez tratamento e a avaliação especializada é essencial para diferenciar depressão, ansiedade e demências, como a Doença de Alzheimer, além de revisar medicamentos que podem provocar apatia”.
Cuidadores, políticas públicas e envelhecimento digno
O envelhecimento populacional amplia também o número de familiares responsáveis pelo cuidado. “Cuidar de idoso requer técnica, habilidades e saber lidar com paciência, por isso há a necessidade de capacitação e atenção à saúde mental dos cuidadores”, frisa o médico. A população idosa é bastante vulnerável e o desgaste extremo nesses cuidados pode gerar irritação e até violência por parte de um cuidador/familiar que está despreparado para a função.
Para além do âmbito individual, o especialista defende que esse compromisso deve ser coletivo e envolver políticas públicas como acessibilidade urbana, transporte adequado e espaços de convivência que são determinantes para o bem-estar. Além disso, Dr. Felipe defende que grupos comunitários e atividades culturais ajudam a enfrentar a “solidão invisível, que é um sentimento profundo de isolamento, que ocorre mesmo na presença de outras pessoas, caracterizando assim uma falta de conexões verdadeiras. Ele lembra também que em uma sociedade que valoriza excessivamente a produtividade, há que se ressignificar papéis, pois não se pode medir a capacidade de um homem e de uma mulher apenas pela capacidade laboral.
Entre tradição e modernidade, autonomia e dependência, o desafio é garantir que o envelhecimento seja vivido com dignidade, escuta e acesso adequado à saúde mental, reconhecendo limites, mas também preservando propósito e participação social.
Fonte: Jornal Bom Dia





