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Calor, coração e morte súbita: quando o clima se torna fator de risco

Calor escaldante no Rio — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo/12/01/2026

Ondas de calor deixaram de ser exceção climática para se tornarem um determinante relevante de saúde. A literatura científica recente consolidou uma associação clara entre temperaturas extremas e aumento da mortalidade cardiovascular, especialmente por infarto agudo do miocárdio, arritmias malignas, descompensação de insuficiência cardíaca e morte súbita. O calor não é apenas desconforto ambiental: é um estressor fisiológico potente.

Do ponto de vista cardiovascular, o calor impõe um duplo desafio. Para dissipar temperatura, o organismo promove vasodilatação periférica, reduzindo a resistência vascular sistêmica. Em indivíduos saudáveis, esse mecanismo é compensado por aumento da frequência cardíaca e do débito cardíaco. Em idosos, cardiopatas e pacientes com insuficiência cardíaca ou doença coronariana, essa capacidade adaptativa é limitada. O resultado pode ser hipotensão, isquemia miocárdica silenciosa e instabilidade elétrica.

A desidratação exerce papel central nesse processo. A perda hídrica aumenta a viscosidade sanguínea, favorece hemoconcentração e eleva o risco trombótico. Associada à ativação neuro-hormonal com liberação de catecolaminas e cortisol, cria-se um ambiente pró-inflamatório e pró-arrítmico. Distúrbios eletrolíticos, como hiponatremia e hipocalemia, tornam-se mais frequentes, aumentando o risco de fibrilação atrial, taquiarritmias ventriculares e morte súbita.

Estudos populacionais demonstram aumento consistente de internações e óbitos cardiovasculares durante períodos de calor extremo. A relação é não linear: a partir de determinados limiares térmicos, pequenas elevações de temperatura resultam em crescimento desproporcional da mortalidade.

Alguns grupos são mais vulneráveis. Idosos apresentam menor sensação de sede e menor eficiência de termorregulação. Pacientes em uso de diuréticos, betabloqueadores e inibidores do sistema renina-angiotensina podem ter respostas compensatórias prejudicadas. Doentes renais crônicos, diabéticos e portadores de doenças pulmonares também apresentam risco elevado.

Há ainda um fator clínico frequentemente negligenciado: o atraso diagnóstico. Durante ondas de calor, sintomas como fadiga, tontura e mal-estar são facilmente atribuídos ao clima. Infartos podem ocorrer sem dor torácica típica, especialmente em mulheres e idosos, retardando a procura por atendimento e o início do tratamento.

Nesse contexto, o debate climático deixa de ser periférico à saúde. O Acordo de Paris pode ser compreendido como uma das mais relevantes estratégias globais de prevenção em saúde do século XXI. Ao buscar limitar o aquecimento global, atua diretamente sobre determinantes fundamentais de morbidade e mortalidade cardiovascular. Reduzir emissões e conter o aumento da temperatura média é também diminuir a carga de doença, internações e mortes evitáveis.

Políticas climáticas funcionam como intervenções estruturais de prevenção primária. Menor poluição atmosférica reduz eventos cardiovasculares e respiratórios. Ambientes urbanos mais verdes e menos quentes diminuem o estresse térmico, favorecem atividade física segura e melhoram a saúde mental. Planejamento urbano adaptado ao clima salva vidas tanto quanto muitos avanços terapêuticos.

Ondas de calor devem ser tratadas como períodos de alto risco cardiovascular, com estratégias claras de antecipação: orientação ativa a grupos vulneráveis, hidratação, revisão de medicações e preparo dos serviços de emergência. Ignorar o clima como variável clínica é manter um ponto cego perigoso na prática médica contemporânea.

Em um mundo mais quente, cuidar do clima tornou-se parte indissociável de cuidar do coração. Não se trata de ideologia, mas de medicina baseada em evidências.

Fonte: O Globo