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Abstenção de idosos em cidades-chave e risco de desmobilização desafiam Lula e Flávio Bolsonaro

Lula e Flávio Bolsobaro se enfrentaram no dia 25 deste mês durante o segundo turno das eleições — Foto: Nelson Almeida e Brenno Carvalho

Diante da menor diferença de votos no primeiro turno de uma eleição presidencial desde a redemocratização, as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) têm concentrado esforços em buscar eleitores que deixaram de comparecer, em especial em grandes cidades do Sudeste, onde o índice de abstenção cresceu neste ano. De um lado, a equipe petista quer atrair idosos, acima de 70 anos, faixa etária que registrou o maior contingente de faltosos na primeira rodada de votações. Do outro, o time bolsonarista tenta evitar que seus apoiadores se desmobilizem em estados onde a disputa local já está resolvida, como nos casos do Rio e de São Paulo, para manter vantagem sobre o adversário.

O índice de abstenção neste ano foi o maior desde 1998, chegando a 21,08%, o equivalente a 33,5 milhões de eleitores. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que a distribuição não é uniforme e se concentra, principalmente, entre jovens e idosos. No primeiro turno, os grupos de eleitores entre 18 e 29 anos e com mais de 70 anos somaram 16,05 milhões de ausentes, ou 48,8% das abstenções do país, embora representem 31,4% do eleitorado.

Entre quem tem mais de 70 anos, apesar de a taxa de abstenção ter caído em relação a 2022 (de 58,8% para 49,1%), está a maior quantidade de eleitores a serem conquistados pelas campanhas: 8,46 milhões.

Abstenção no pleito de 2026 — Foto: Editoria de Arte

Menos filas

Embora o voto nesta faixa etária seja facultativo, aliados de Lula acreditam que atrair esse eleitorado pode ajudar o presidente a reverter a desvantagem de 2,2 milhões de votos para Flávio no primeiro turno. Pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira mostrou que o petista aparece à frente do adversário entre os eleitores mais velhos, acima de 60 anos, com 47% das intenções de voto, ante 39% do senador do PL.

— Tenho a expectativa de que as pessoas (ausentes no primeiro turno) vão votar. Será só um voto, vai ser mais rápido e vai diminuir as filas. Idosos, inclusive, que são ameaçados pelo “tesouraço” anunciado pelo Flávio — afirmou Sidônio Palmeira, ministro licenciado da Secretaria de Comunicação Social (Secom) e um dos estrategistas da campanha lulista.

Em evento em Minas Gerais na sexta-feira, Lula pediu ajuda a seus apoiadores para buscar esses eleitores que não foram votar no primeiro turno.

— Teve muita gente que não foi votar no dia 4. Pessoas acima de 70 anos, que não precisam mais votar, e quem não foi porque não quis. É importante ter um trabalho de convencer as pessoas a irem votar no dia 25. Vamos de casa em casa para convencer — disse Lula.

Aliados do presidente defendem também que a campanha intensifique o contato com prefeitos para garantir que o transporte público gratuito no dia da votação, previsto em lei, seja oferecido à população. Um ministro do presidente diz que foi identificado pelo entorno do petista uma baixa publicidade sobre o tema.

Mobilização nos estados

No entorno de Flávio, a preocupação é com os estados onde a eleição estadual já está definida. O temor é que o esvaziamento das estruturas locais contribua para aumentar a abstenção onde o candidato do PL teve vantagem sobre Lula, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A ordem agora é cobrar empenho dos aliados eleitos e evitar que a campanha presidencial fique sem a mobilização que acompanhou as disputas estaduais.

— A estratégia é cada estado fazer o seu trabalho de manter a mobilização, de buscar virar votos, de tentar trazer novas pessoas que não estiveram conosco no primeiro turno e sensibilizar aqueles que não vieram votar, diminuir essa abstenção, principalmente daqueles que votam conosco — afirmou o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio.

Em São Paulo, a preocupação levou Flávio a reunir 37 dos 55 vereadores da capital para cobrar uma atuação mais intensa nos bairros onde Lula teve vantagem no primeiro turno. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) assumiu papel central nessa articulação, aproximando o candidato de lideranças locais para tentar manter funcionando a estrutura eleitoral montada nos municípios.

No Rio, a missão recaiu sobre o governador eleito Douglas Ruas (PL), que passou a ser cobrado a manter prefeitos e lideranças municipais empenhados mesmo depois de encerrada sua própria disputa. O estado, que registrou a segunda maior taxa de abstenção do país (23,32%), atrás apenas de Mato Grosso do Sul (23,87%), é visto como um dos pontos de atenção da campanha.

— Nós queremos conquistar eleitores que não votaram no Flávio no primeiro turno e convidá-los a fazer uma reflexão sobre o futuro do Brasil. Estamos conversando com todos os eleitores, independentemente de em quem tenham votado no primeiro turno, para ampliar a vantagem que Flávio teve — disse Ruas.

Historicamente, a abstenção em locais onde a disputa do segundo turno se resumiu à presidencial aumenta em 1,2 ponto percentual em relação à primeira etapa. Isso daria 1,74 milhão de ausências adicionais no total, considerando os 20 estados onde já há governador eleito.

Divisão regional

No recorte regional, os dados do TSE mostram que o comparecimento no Nordeste e no Norte cresceu, enquanto o Sudeste registrou 800 mil eleitores a menos nas urnas. Nesta região, estão concentrados os maiores contingentes de eleitores e também as cidades onde houve mais ausências. Apenas as cidades de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Guarulhos (SP) e Campinas (SP) concentraram 4,3 milhões de ausências, 13% do total registrado no país. A taxa de abstenção média nos cinco municípios foi de 24%, acima da média nacional.

Se forem considerados apenas os eleitores ausentes acima de 70 anos, foco da campanha petista, o índice de abstenção chega a 57,3% na média das cinco cidades, 8,2 pontos percentuais a mais que a taxa do país para a mesma faixa etária.

Professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e cientista político, Emerson Cervi estudou o comportamento do eleitorado que se abstém historicamente no Brasil. De acordo com ele, é preciso diferenciar o que ele chama de abstenção involuntária da abstenção voluntária. No primeiro grupo, estão eleitores que queriam votar e não puderam comparecer às urnas, seja por algum impedimento de saúde, uma mudança de domicílio recente ou outro tipo de imprevisto. No segundo grupo, estão os eleitores que decidiram não votar. Para Cervi, são esses eleitores que decidiram se abster que estão em disputa pelas campanhas.

— A parcela de eleitor que se abstém voluntariamente pode ser convencida a ir às urnas. Se estamos falando de uma diferença de 2 a 3 milhões entre os candidatos, vale a pena investir nesse tipo de discurso porque pode ser muito mais produtivo do que tentar convencer o eleitor do outro candidato a mudar o voto. É mais fácil convencer quem não foi — afirma ele.

Fonte: O Globo