Ao longo da minha prática médica, especialmente lidando com doenças da coluna e com pacientes idosos, aprendi que algumas complicações passam despercebidas até que aconteçam. Entre elas, uma das mais preocupantes é o alto risco de quedas em pacientes com doença de alzheimer.
Quando se fala nessa doença, quase sempre o foco recai sobre a perda de memória. Mas existe um aspecto pouco discutido e extremamente relevante do ponto de vista ortopédico: o impacto que essas quedas podem causar no sistema musculoesquelético.
E, infelizmente, esse impacto pode ser devastador.
Combinação perigosa
Com a progressão do Alzheimer, o cérebro começa a perder não apenas funções cognitivas, mas também a capacidade de organizar movimentos, interpretar o espaço ao redor e reagir rapidamente a desequilíbrios. Na prática, isso significa que o paciente passa a ter mais dificuldade para caminhar, para ajustar a postura e até para perceber obstáculos simples dentro de casa.
Do ponto de vista ortopédico, essa combinação é perigosa.
Tenho observado com frequência pacientes idosos que sofrem quedas aparentemente simples — um escorregão no banheiro, um tropeço em um tapete ou uma tentativa de levantar da cama durante a noite — mas que acabam evoluindo com fraturas importantes. Entre as lesões mais comuns estão as fraturas de quadril, as fraturas do punho e, especialmente, as fraturas vertebrais.
A coluna vertebral do idoso já enfrenta um processo natural de desgaste ao longo dos anos. Discos intervertebrais mais desidratados, presença de artrose, diminuição da densidade óssea e redução da massa muscular tornam a estrutura mais vulnerável. Quando somamos esse cenário à instabilidade motora e à desorientação causadas pelo Alzheimer, o risco ortopédico aumenta consideravelmente.
Uma queda que em um adulto jovem poderia gerar apenas um hematoma, em um paciente idoso pode resultar em uma fratura vertebral por compressão ou até em uma fratura complexa de quadril.
Consequências além das físicas
Fraturas em idosos frequentemente levam à perda de autonomia, necessidade de hospitalização prolongada, cirurgias e, muitas vezes, um período difícil de reabilitação. Em pacientes com Alzheimer, esse processo pode ser ainda mais desafiador, porque a compreensão das orientações médicas e a adesão à fisioterapia ficam comprometidas.
Outro fator que observo com frequência é a chamada perda do reflexo de proteção. Quando uma pessoa jovem tropeça, o corpo reage rapidamente para tentar evitar o impacto — colocando as mãos à frente ou ajustando a postura. Em pacientes com Alzheimer, essa resposta neuromotora costuma estar reduzida, aumentando a chance de impactos diretos na cabeça, na coluna ou no quadril.
Como reduzir os riscos
Do ponto de vista da ortopedia preventiva, algumas medidas podem reduzir significativamente esses riscos.
A primeira delas é a adaptação do ambiente doméstico. Muitas casas não estão preparadas para idosos com instabilidade de marcha. Tapetes soltos, pisos escorregadios, iluminação inadequada e ausência de barras de apoio no banheiro criam um cenário propício para acidentes.
Outra estratégia importante é preservar a força muscular. A perda de massa muscular — conhecida como sarcopenia — é um fator determinante para quedas em idosos. Exercícios supervisionados, fisioterapia e atividades voltadas para equilíbrio podem melhorar a estabilidade corporal e reduzir significativamente o risco de acidentes.
Também é fundamental avaliar a saúde óssea. Muitos idosos apresentam osteoporose sem sequer saber. Nesses casos, uma queda relativamente pequena pode resultar em fraturas graves. A investigação da densidade óssea e o tratamento adequado ajudam a proteger o esqueleto contra esse tipo de complicação.
Mas, acima de tudo, é preciso entender que o cuidado com pacientes com Alzheimer exige uma visão multidisciplinar. Não se trata apenas de tratar a memória ou o comportamento. É necessário olhar para o corpo como um todo — especialmente para a estrutura ortopédica que sustenta a mobilidade e a independência.
Costumo dizer que prevenir quedas é uma das formas mais eficazes de preservar qualidade de vida no envelhecimento.
Porque, para um paciente com Alzheimer, manter-se em pé, caminhar com segurança e evitar uma fratura pode significar muito mais do que mobilidade. Pode significar continuar participando da rotina familiar, manter sua dignidade e preservar aquilo que ainda resta de autonomia.
E, na medicina, poucas coisas são tão valiosas quanto isso.

Por Guilherme Galito – Médico Ortopedista e traumatologista sub especialista em cirurgia da Coluna Vertebral (Santa Casa de Santos –SP) , Pós graduado em medicina regenerativa ( Cetrus – SP ).





