Não bastasse a polêmica sobre possível propaganda eleitoral antecipada e o constrangimento do puxa-saquismo em torno do homenageado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou o desfile da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí com uma ressaca moral que pode lhe custar caro nas eleições deste ano: um desgaste a mais com um dos segmentos mais refratários ao lulopetismo e à esquerda em geral – o evangélico. E não apenas ele, mas também conservadores ou não que veem na família uma instituição intocável.
Como se viu, a escola levou à avenida uma crítica ao uso da imagem da família por entidades supostamente nefastas, entre elas as igrejas neopentecostais. A ala da “família em conserva” foi interpretada, com razão, como deboche. Se vista de modo benevolente, a crítica reduz o universo evangélico a massa manipulada; se de modo direto, transforma fiéis em alvo de preconceito. Este, sim, nefasto.
Exceto a militância petista mais empedernida, poucos ignoram que Lula aprecia a adulação. Tampouco é novidade a dificuldade histórica do PT em lidar com o eleitorado conservador. O enredo que bajulou o presidente combinou proselitismo com desrespeito e reforçou percepções já existentes. O samba não é de Lula, mas sua presença, o gesto do “L”, os jingles no camarote e a tentativa de transformar a homenagem em consagração soaram, para muitos, como endosso explícito.
Ao longo do mandato, Lula tem buscado aproximação com evangélicos: recebeu lideranças, sancionou projetos de interesse de igrejas e, em discursos, sustentou que o segmento não é adversário da esquerda. Ainda assim, os gestos esbarram na dificuldade de compreender um eleitorado diverso.
No aniversário do PT, em Salvador, o presidente afirmou que “90% dos evangélicos recebem benefícios do governo” e defendeu que a militância destaque esse fato nas periferias. A lógica rupestre de Lula é conhecida: se não votam no PT, é porque desconhecem o que recebem. Trata-se de visão que atribui a divergência a desinformação ou manipulação, e não a desacordo legítimo.
Acostumado à demagogia que, desde Getúlio Vargas, acredita em legitimidade de encomenda, o lulopetismo não aceita a ideia de que o povo, ainda que beneficiado por suas políticas públicas, tenha capacidade de exercer juízo crítico. A falta de apoio político e eleitoral é, em geral, explicada como falha de informação, déficit de consciência, manipulação pelo Mal – no caso, pastores conservadores de linhagem bolsonarista – ou incapacidade do eleitor de perceber seus próprios interesses. Trata-se da combinação recorrente de arrogância, convicção da própria virtude e paternalismo.
Essa lógica não é nova. Em 2014, ainda sob efeito das manifestações do ano anterior que surpreenderam o governo Dilma Rousseff, o então ministro Gilberto Carvalho falou em “ingratidão”, sugerindo que a população não reconhecia o que fora feito por ela. Na ocasião, afirmou haver “quase um sentimento de ingratidão, de dizer: ‘Fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós’.” A ideia de que o eleitor erra quando rejeita o governo reaparece ciclicamente.
A rejeição evangélica a Lula e ao PT, porém, tem fontes múltiplas. Envolve divergências de valores, visões sobre família e costumes, percepções acerca da segurança pública e do papel do Estado, além de avaliações sobre desempenho econômico e qualidade de vida. Há quem veja na esquerda uma agenda moral incompatível com suas convicções; há quem simplesmente julgue que sua situação não melhorou. São escolhas políticas legítimas num regime pluralista.
Ignorar essa complexidade e atribuir a discordância a atraso, ingratidão ou tutela pastoral é tanto um erro estratégico quanto uma incompreensão do funcionamento elementar da democracia. Eleitores não são massa a ser convencida por homenagens festivas nem por contabilidade de benefícios. Essa postura lulopetista é pouco eficaz diante de um eleitorado que valoriza pertencimento, coerência e autenticidade.
Fora das concepções autoritárias, é trivial lembrar que, em democracias, o problema não é o eleitor, mas a política. É uma beleza que Lula parece desconhecer: o povo, quando é livre, tem vontade própria. Especialmente diante de preconceito explícito.
Por Por Notas & Informações





