Acabei de descobrir, em um disquete perdido no meio do meu acervo de pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade, um romance erótico que escrevi em 1999.
A protagonista é uma mulher de 40 anos que, apesar de se dizer feminista, é totalmente submissa a um engenheiro que faz dela gato e sapato. Uma mulher que, apesar de ser bem-sucedida profissionalmente e independente economicamente, sente-se à mercê do olhar, da aprovação e do desejo de um engenheiro. Uma mulher que, apesar de ter escolhido não casar e não ter filhos, precisa desesperadamente de um engenheiro para chamar de seu. Uma mulher que, apesar de ser considerada bonita, atraente e sedutora, começa a se sentir velha, invisível e descartável por causa de um engenheiro.
Como tantas mulheres da sua geração, ela sofre por ser considerada velha em uma cultura que supervaloriza a juventude feminina. Eu me reconheci no pânico de envelhecer da mulher de 40 que um dia eu também fui.
Por que não publiquei meu romance erótico?
Em 1999 eu estava no início da minha trajetória como professora, pesquisadora e orientadora de alunos da graduação e pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eu era a mais jovem professora do meu departamento. Ingressei na UFRJ, em 1994, com uma bolsa de pós-doutorado para fazer uma pesquisa sobre mulheres militantes em partidos e organizações políticas no Brasil. Em 1997, prestei o concurso para ser professora da cadeira de Métodos e Técnicas em Pesquisa Qualitativa.
Eu já havia publicado alguns livros, como “A Outra: um Estudo Antropológico sobre a Identidade da Amante do Homem Casado”; “Ser Homem e Ser Mulher Dentro e Fora do Casamento”; “A Revolução das Mulheres: Um Balanço do Feminismo no Brasil”; “Toda Mulher é Meio Leila Diniz: Gênero, Desvio e Carreira Artística”; “A Arte de Pesquisar: Como Fazer Pesquisa em Ciências Sociais”.
Minha editora gostou muito do meu romance erótico. Na hora de assinar o contrato, eu desisti. Não me arrependo. Tenho a certeza de que a minha decisão de não publicar o livro foi a mais adequada naquela altura do campeonato.
Há três meses estou organizando meu acervo de pesquisas. Já tenho mais de 12 caixas grandes com tudo o que produzi desde 1978, quando ingressei no mestrado. Não sei quantas caixas serão necessárias, mas tenho a sensação de que serão dezenas e que levarei muitos anos para terminar de organizar tudo.
No meio do meu acervo, encontrei centenas de disquetes dos anos 1990. Como não queria me descartar deles, meu marido comprou um aparelhinho para ler os disquetes. Abrindo um por um, fiquei surpresa com a quantidade de textos que escrevi e que não foram publicados. Mais surpresa ainda de encontrar o meu romance erótico de 192 páginas.
Lendo o livro que estava completamente esquecido no disquete que poderia ter sido jogado no lixo, estou morrendo de rir das aventuras amorosas e sexuais da personagem principal. Meu marido, que também está se divertindo com as peripécias da protagonista, me fez várias perguntas que pretendo responder em breve.
Por que as mulheres sofrem tanto com os próprios preconceitos, estigmas e pânico de envelhecer? Por que uma mulher de 40 anos se sente velha, invisível e descartável em uma cultura velhofóbica? E os homens? Também sentem vergonha, insegurança e medo de envelhecer? Também entram em crise aos 40? Afinal, Mirian, você vai ou não ter a coragem de publicar o seu romance erótico?






