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Por que a guerra no Irã pode encarecer quanto você paga no quilo do feijão

É um desses clichês do ofício. Toda vez que uma tensão militar estoura no Oriente Médio – como a que estamos vendo no Irã – os jornais correm para calcular o impacto no preço da gasolina.

Petróleo, porém, não é só gasolina. Na verdade, petróleo é um componente praticamente onipresente na vida moderna. Ele pode ser encontrado no plástico da sua escova de dente, no asfalto da sua rua, no tecido sintético da sua camiseta de academia, nos fertilizantes que ajudam a produzir a comida que alcança o seu prato, nos remédios da sua farmácia, na tinta da parede do seu quarto.

Produzir tudo isso só é possível porque o petróleo não é uma substância única. Ele é uma mistura extremamente rica de moléculas de carbono e hidrogênio – aquilo que nós chamamos de hidrocarbonetos. E hidrocarbonetos são, basicamente, blocos de construção químicos extremamente versáteis.

Quando o petróleo bruto sai do subsolo, ele parece apenas um líquido escuro e viscoso. Mas dentro dele existe uma espécie de biblioteca de moléculas: algumas muito pequenas e leves, outras longas e pesadas, com estruturas químicas variadas. É justamente essa diversidade molecular que torna o petróleo tão útil no nosso dia a dia.

A humanidade consome cerca de 100 milhões de barris de petróleo por dia. Cada barril tem 159 litros. Se você enfileirasse os barris consumidos num único dia, a fila daria mais de duas voltas e meia a circunferência da Terra. São quase 16 bilhões de litros de petróleo sugados do subsolo do planeta a cada 24 horas.

Há inúmeros motivos que explicam por que consumimos tanto petróleo. Um deles tem a ver com energia.

Poucos materiais conseguem guardar tanta energia em tão pouco espaço quanto petróleo. Um litro de gasolina concentra cerca de 34 megajoules de energia. Para transportar energia equivalente usando as melhores baterias disponíveis hoje, você precisaria de um conjunto pesando cerca de 15 a 20 vezes mais.

Essa capacidade de empacotar muita energia explica por que o petróleo dominou o transporte pesado. Aviões, navios cargueiros, caminhões e máquinas de construção precisam percorrer longas distâncias ou fazer esforços enormes, e para isso demandam carregar o máximo de energia possível sem ficar pesados demais. O petróleo resolve esse problema como nenhuma outra fonte foi capaz até hoje em larga escala.

Também há a questão logística. Petróleo é um líquido. Por ser líquido, pode ser bombeado por tubulações que se estendem por milhares de quilômetros, carregado em navios gigantescos que cruzam oceanos e armazenado em tanques subterrâneos.

Essa infraestrutura gigantesca – construída ao longo de mais de um século – forma algo parecido com um sistema circulatório da economia global. E como em qualquer sistema circulatório, abriga artérias.

O estreito de Ormuz é uma dessas artérias. 

Ormuz é um canal de água entre o Irã e a Península Arábica. No ponto mais estreito, tem menos de 40 quilômetros de largura – menos do que a distância entre o centro de São Paulo e o Aeroporto de Guarulhos. Por esse espaço passam, em média, 20 milhões de barris de petróleo por dia – um quinto de todo o petróleo consumido no mundo. Mais de 2 bilhões de litros.

É por isso que qualquer tensão militar envolvendo o Irã imediatamente provoca nervosismo nos mercados de energia. O Irã controla a margem norte do Estreito.

O petróleo que abastece o seu carro é feito de organismos marinhos microscópicos – algas e plâncton – que viveram há dezenas de milhões de anos, morreram, se acumularam no fundo dos oceanos e, sob pressões e temperaturas colossais, foram lentamente cozidos pela Terra até se transformarem nesse líquido negro e espesso.

Mas essa matéria-prima não está distribuída de maneira uniforme pelo mundo. A natureza concentrou quantidades absurdas de petróleo em regiões específicas, sobretudo no Oriente Médio – e é por isso que essa região, com uma faixa de areia e deserto entre o Iraque, a Arábia Saudita, o Kuwait e o Irã, se tornou o epicentro da geopolítica global no último século.

O Oriente Médio ocupa 5% da superfície do planeta e abriga 5% da população mundial. Mas concentra 48% das reservas provadas de petróleo.

A Arábia Saudita é menos populosa do que o estado de São Paulo. O Kuwait tem menos habitantes do que o Rio de Janeiro. E mesmo assim essas nações têm assento garantido nas conversas mais importantes do planeta, porque o preço que você paga na bomba de gasolina, o custo do frete que traz o produto que você comprou da China, o valor da passagem aérea que você adquiriu para viajar nas férias – tudo isso passa, em alguma medida, por decisões tomadas nessa faixa de deserto.

Por isso, quando há uma instabilidade na região, o preço do barril de petróleo sobe. E quando o barril sobe, o efeito se espalha como uma onda.

Em primeiro lugar, claro, no preço da gasolina e do diesel nas refinarias. Quando o diesel fica mais caro, o frete rodoviário encarece. E no Brasil, praticamente tudo que você consome viaja sobre rodas: comida, remédio, computador, material de construção. O feijão no supermercado, o tomate na feira, a cerveja no bar – tudo, em alguma medida, está atrelado ao preço do diesel.

Essa é a razão por que os economistas dizem que petróleo é inflação em estado líquido.

E quem determina esse preço? O mercado.

Durante a maior parte do século XX, o petróleo mundial foi controlado por sete empresas. Elas ficaram conhecidas como as Sete Irmãs: Esso, Shell, BP, Gulf, Texaco, Mobil e Chevron – todas ocidentais, a maioria americana.

Essas empresas não apenas extraíam petróleo. Elas negociavam diretamente com governos, definiam onde construir refinarias, determinavam quanto o barril valia e, em alguns casos, financiavam golpes e derrubavam líderes que ameaçavam os seus contratos.

Por exemplo: quando Mohammad Mosaddegh, o primeiro-ministro do Irã, tentou nacionalizar o petróleo iraniano em 1953, foi derrubado por um golpe articulado pela CIA e pelo serviço secreto britânico – em grande parte por pressão das petroleiras.

Isso mudou nos anos 1960. Os países produtores criaram a OPEP – a Organização dos Países Exportadores de Petróleo – e descobriram que podiam jogar o mesmo jogo. Por exemplo: em 1973, em resposta ao apoio americano a Israel na Guerra do Yom Kippur, os países árabes cortaram o fornecimento para o Ocidente. O preço do barril quadruplicou em meses. Filas enormes se formaram nos postos dos Estados Unidos. Alguns países europeus chegaram a proibir o uso de carros aos domingos.

Quando os preços do petróleo sobem dessa maneira – como vimos na última semana – bancos centrais ao redor do mundo ficam nervosos. Mais inflação na mesa significa menos margem para cortar juros. No Brasil, o Boletim Focus desta segunda-feira já elevou a projeção da Selic para 2026. O que significa crédito mais caro, financiamentos mais pesados, economia mais travada.

O mercado de petróleo é global. Quando o barril sobe em Londres ou em Nova York, ele sobe para todo mundo. E há uma crueldade particular nisso para um país como o nosso. O Brasil é o nono maior produtor de petróleo do mundo. Só em 2025, o pré-sal produziu mais de 3 milhões de barris por dia.

Isso deveria nos dar alguma proteção nesses momentos, certo? Mas isso não acontece porque o petróleo é uma commodity global, precificada no mesmo idioma do resto do planeta: o dólar. O petróleo pode até ser nosso, mas o preço dele continua sendo do mundo.

O preço do petróleo não é calculado por alguma reunião de cúpula. Ele emerge, a cada segundo, de milhares de apostas simultâneas feitas por traders em Londres, Nova York e Cingapura – a maioria deles comprando e vendendo petróleo que nunca tocarão na vida.

Funciona assim: existe um mercado de contratos futuros – acordos em que alguém se compromete a comprar ou vender uma quantidade específica de petróleo numa data futura, a um preço combinado agora. Uma refinaria no Japão pode comprar petróleo para entrega em maio. Um fundo de investimento em Chicago pode apostar que o barril vai subir em outubro.

A maior parte dessas operações nunca resulta em petróleo físico mudando de mãos. São posições financeiras, apostas sobre o futuro. O mercado, nesse sentido, não está precificando o petróleo de hoje – está precificando a expectativa do petróleo de amanhã.

E o que alimenta essa expectativa? Basicamente três coisas.

A primeira é a oferta. Quantos barris estão sendo produzidos nesse momento? A Arábia Saudita decidiu abrir ou fechar a torneira? Os Estados Unidos estão perfurando mais poços? Algum conflito interrompeu a produção em algum lugar?

A segunda é a demanda. A China está crescendo rápido e importando muito? A Europa entrou em recessão e está consumindo menos? O inverno no hemisfério norte foi mais frio que o previsto?

A terceira, e mais volátil, é o medo. O mercado de petróleo é extraordinariamente sensível a incertezas. Uma notícia sobre tensão militar numa região produtora pode mover o preço antes que um único barril tenha deixado de ser produzido. O mercado não precisa de uma interrupção real no fornecimento para subir – basta a possibilidade de que isso aconteça.

Há dois preços de referência que todo mundo cita, e vale entender a diferença.

Brent é extraído do Mar do Norte, mas funciona como a referência global – é o preço que aparece nas páginas do Estadão quando um jornalista diz que “o petróleo subiu”.

WTI, ou West Texas Intermediate, é o petróleo americano, produzido no Texas e em regiões vizinhas, e serve como referência principal para o mercado dos Estados Unidos.

Os dois andam sempre próximos, com pequenas diferenças que refletem custos de transporte e qualidade do óleo.

O petróleo brasileiro do pré-sal, assim como o russo, o nigeriano e o de dezenas de outros países, é precificado com base nessas referências – acrescido ou descontado de acordo com suas características físicas e custos logísticos. Nenhum produtor, nem mesmo o maior do mundo, escapa dessa lógica.

Quando o barril sobe, os produtores brasileiros têm incentivo para exportar mais. Se a Petrobras mantem o preço interno abaixo do mercado internacional, perde dinheiro e atrai críticas dos acionistas. Se segue o mercado, a gasolina no posto encadeia.

No fim, essa é uma das poucas mercadorias do planeta em que um evento a 10 mil quilômetros de distância pode, em questão de horas, mudar o preço que você paga na bomba do posto de gasolina na esquina de casa. E esse impacto pode mudar até o quanto você paga no quilo do feijão.

É por isso que entender o que se passa no Irã é também compreender como é gasto o dinheiro da sua conta bancária.

Foto do autor

Por Rodrigo da Silva – jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube. Em suas colunas, usa texto, vídeo, gráfico, mapa e fotografia para ajudar o público a entender os maiores eventos globais, com clareza e contexto.