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O envelhecimento do eleitorado e o desafio da abstenção

Nelson Jr./Ascom/TSE

À medida que uma nova eleição se aproxima, o tema da abstenção retorna ao centro do debate público. E com razão. Em uma democracia, não basta garantir a existência do voto; é preciso assegurar que ele possa ser exercido, de fato, por todos. Os dados observados no primeiro turno das eleições de 2024 sugerem que um dos aspectos desse problema pode estar ligado ao envelhecimento do eleitorado.

Nas capitais com maiores índices de ausência, como Porto Alegre e Rio de Janeiro, também se verifica uma presença mais elevada de eleitores com mais de 70 anos. O mesmo movimento aparece em outras cidades que figuram entre as maiores taxas de abstenção, como Belo Horizonte, Goiânia, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Porto Velho, Campo Grande e Natal. Não se trata de uma coincidência irrelevante, mas de um sinal que merece ser examinado com seriedade.

A leitura estatística reforça essa percepção. Os dados indicam uma relação expressiva entre o crescimento da população idosa no eleitorado e o aumento da abstenção em capitais selecionadas. Evidentemente, isso não autoriza conclusões simplistas. A idade, por si só, não explica tudo. Mas os números sugerem que as duas variáveis caminham juntas de forma consistente, o que já basta para justificar atenção institucional e novos estudos.

É preciso reconhecer que o problema não é apenas demográfico, mas também prático. Muitos eleitores idosos enfrentam dificuldades de locomoção, limitações de saúde, obstáculos de transporte e barreiras de acesso aos locais de votação. Em vários casos, talvez não falte disposição para votar; faltem condições adequadas para que esse direito seja exercido com segurança e dignidade.

Por isso, a discussão sobre abstenção não pode ficar restrita à frieza das estatísticas. Ela precisa alcançar a realidade concreta de quem encontra mais dificuldade para participar da vida pública. As seções eleitorais são suficientemente acessíveis? Os idosos conhecem a possibilidade de transferência para locais mais convenientes? O país está preparado para pensar em soluções mais adequadas a uma população que envelhece de forma acelerada?

O Brasil do presente já exige uma democracia mais atenta à idade de seus cidadãos. Se a população envelhece, o sistema eleitoral também precisa se adaptar. Ignorar esse dado é correr o risco de naturalizar a exclusão silenciosa de uma parcela crescente do eleitorado.

Com a proximidade da próxima eleição, o debate sobre a abstenção volta a ser discutido. E talvez a pergunta mais importante não seja apenas por que tantos deixam de votar, mas se estamos fazendo o suficiente para que todos possam votar.

Por Margrid Sauer – mestre em educação e socióloga