Bomba, bomba, bomba, seria a manchete, a chamada de um importante jornalista e político de Cuiabá-MT em seu programa, mas a bomba foi de verdade, matou o principal líder do Irã. O ataque dos EUA e Israel contra o Irã traz muitas discussões, a começar pela “autonomia” iraniana que deve estar no centro das discussões, com críticos argumentando que o ataque viola a soberania e ignora negociações em Genebra sobre o programa nuclear. Diplomacia acima de tudo, diriam alguns. Enfim, diálogos, conversas de todos os tipos, prós e contras ao ataque e assassinato dos líderes.
Reações internacionais dividem-se: Rússia e China ironizam os EUA, a Comissão Europeia trata a questão como “extremamente preocupante”. Todos pedem cessar-fogo. Entretanto, vou focar num ponto, do Brasil ao Irã: onde a liberdade é um privilégio masculino. Sobre a mulher iraniana, seu cotidiano, seus “direitos” em 37 anos sob uma liderança teocrática.
Será que o bombardeio acendeu uma luz no fim do túnel? O sonho da liberdade, de ser dona da própria pele.
No Brasil, as mulheres, apesar de todas as injustiças e desigualdades ainda existentes, podem andar livremente, trabalhar, estudar, dirigir, protestar e lutar por mais direitos. Reclamam, com razão, sobre salários menores, machismo, assédio e outros obstáculos ainda presentes no nosso cotidiano, mas podem sair na rua sem temer uma lei que as transforme em propriedade jurídica.
No Irã, porém, essa luz parece uma miragem distante, um lampejo apagado pela sombra pesada de um sistema que não só segrega, mas desumaniza. A mulher não é vista como igual, seu corpo, sua vontade e sua liberdade pertencem, pela lei e pela prática, a uma estrutura patriarcal profundamente institucionalizada.
Enquanto no Brasil ninguém pode te obrigar a cobrir ou descobrir a cabeça, no Irã o hijab obrigatório é tratado como uniforme de submissão, fiscalizado em cada esquina por uma “polícia da moralidade”, por vizinhos que denunciam e até por tecnologia de vigilância. Vigilância 24 horas, o véu é como uma coleira estatal.
Em 13 de setembro de 2022, Mahsa Amini foi detida pela polícia da moralidade em Teerã sob a alegação de que seu véu não estava conforme as regras obrigatórias. Poucas horas depois, entrou em coma e morreu.
No Brasil, nenhuma mulher precisa perguntar ao marido se pode trabalhar, ter um passaporte, dirigir ou estudar. No Irã, muitos desses direitos dependem da autorização de um homem, do pai ou cônjuge, como se a mulher fosse incapaz de decidir por si só. O poder passa do pai para o marido, que autoriza como a mulher deve viver.
O Estado transforma a mulher em um objeto legal, cuja mobilidade e futuro podem ser bloqueados por outro ser humano. É uma prisão invisível, feita de carimbos, assinaturas e leis separadas por gênero.
No Brasil, a igualdade de gênero está na Constituição: homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres perante a lei. No Irã, entretanto, a lei fala em igualdade apenas quando convém e, quando não convém, estabelece que o testemunho ou a herança de uma mulher valem metade da de um homem. É outra forma de dizer: “Você existe, mas com valor reduzido”.
No Brasil, uma mulher pode gritar “meu corpo, minhas regras” sem ser presa por isso. No Irã, desafiar as regras impostas pelo Estado que determinam desde como se vestir até quando pode se casar, trabalhar ou viajar é visto como crime. Ali, a vigilância não acaba às 18h: é permanente, imposta por leis que vigiam a roupa, o olhar, o passo no espaço público, como se cada movimento fosse uma ameaça ao “moral” da sociedade. A mulher vive para obedecer.
No Brasil, as mulheres podem dizer “não é não” sabendo que, embora nem tudo seja perfeito, sua liberdade é a regra. No Irã, dizer “não” muitas vezes significa arriscar multas, prisão, violência ou retaliação pelo Estado ou por familiares, porque a lei está do lado de quem controla, nunca do lado da mulher.
No Irã atual, a luta da mulher não é apenas por direitos políticos ou salários iguais: ela luta pelo direito de ser proprietária da própria pele, do próprio destino e da própria vida, uma batalha que, para muitas, ainda é apenas um sonho sufocado por décadas de legislação discriminatória.
Sabendo disso: você que se apresenta como guardião(a) da democracia, da liberdade e da autonomia feminina, consegue enxergar alguma luz no fim do túnel para as mulheres iranianas? Ou você faz parte do grupo que prioriza a “soberania nacional” mesmo quando ela serve para subjugar mulheres e tratá-las como inferiores? Nem entrarei no mérito da comunidade LGBTQI+ e dos cristãos, cujas vidas são ameaçadas de morte por leis arcaicas.






