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Março Azul reforça urgência do diagnóstico precoce do câncer do intestino

Relatando sangramento durante as evacuações há mais de um ano, Mariana, uma jovem senhora, entra no consultório. Convencida de que o problema se devia a hemorroidas, adiou a procura por atendimento médico. No entanto, o exame físico revela um tumor avançado de reto, que certamente evoluiu ao longo desse período em que o diagnóstico não foi realizado. Embora Mariana seja uma personagem fictícia, essa situação é real, frequente e preocupante.

Sintomas como sangramento nas fezes, dor abdominal, alteração do hábito intestinal, perda de peso não intencional e anemia jamais devem ser negligenciados. O câncer de intestino, quando identificado em estágios iniciais, apresenta taxas significativamente mais altas de sucesso terapêutico e chances de cura superiores a 90%. Em contraste, quando a doença já se disseminou para outros órgãos, essa probabilidade cai drasticamente, aproximando-se de 10%.

Infelizmente, o atraso na investigação ainda é comum, especialmente quando esses sinais são subestimados ou atribuídos a condições benignas.

Dados recentes reforçam a gravidade desse cenário mesmo em pessoas mais jovens. Um estudo da American Cancer Society mostrou que, entre 1990 e 2023, a mortalidade geral por câncer em pessoas com menos de 50 anos nos Estados Unidos caiu 44%, refletindo avanços importantes em prevenção, diagnóstico precoce e tratamento. Essa queda ocorreu para a maioria dos principais tipos de câncer, como pulmão, mama, cérebro e leucemia. No entanto, o câncer colorretal seguiu caminho oposto: desde 2005, sua mortalidade cresce cerca de 1,1% ao ano, tornando-se, em 2023, a principal causa de morte por câncer nessa faixa etária. De forma alarmante, cerca de três em cada quatro pacientes jovens, quando diagnosticados com câncer de intestino, a doença já está em estágio avançado.

No Brasil, a situação não é diferente. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer para o triênio 2026-2028 indicam mais de 53 mil novos casos de câncer colorretal por ano, fazendo dessa neoplasia a segunda mais frequente em homens e mulheres, excluídos os tumores de pele não melanoma. Aproximadamente 23 mil brasileiros morrem anualmente em decorrência dessa doença. Assim como observado nos Estados Unidos, há evidências de aumento da incidência em pessoas mais jovens, reforçando que o câncer colorretal não pode mais ser encarado como uma doença exclusiva de idosos.

Diante desse cenário, a prevenção torna-se indispensável. A prevenção primária baseia-se na adoção de hábitos de vida saudáveis, como evitar o tabagismo e o sedentarismo, controlar o excesso de peso, evitar o consumo exagerado de bebidas alcoólicas e reduzir a ingestão de carnes vermelhas e alimentos ultraprocessados. Também é fundamental aumentar o consumo de alimentos ricos em fibras, como cereais integrais, leguminosas, frutas e vegetais.

Já a prevenção secundária baseia-se no rastreamento, capaz de identificar o câncer em fases iniciais ou mesmo lesões precursoras, como os pólipos intestinais, que podem ser tratados antes de evoluírem para câncer.

O rastreamento por meio da pesquisa de sangue oculto nas fezes e da colonoscopia não apenas permite o diagnóstico precoce, mas também reduz de forma significativa a mortalidade, ao interromper a progressão da doença. Pessoas entre 45 e 49 anos concentram cerca de metade dos diagnósticos de câncer colorretal abaixo dos 50 anos, o que reforça a importância de iniciar o rastreamento a partir dessa faixa etária.

É nesse contexto que o Março Azul assume papel central. A campanha teve origem nos Estados Unidos e, ao longo dos anos, foi adotada por diversos países como estratégia de conscientização sobre o câncer colorretal. No Brasil, ganhou maior mobilização nacional a partir de 2021, com ações coordenadas em diferentes regiões do País.

O Março Azul constitui uma mobilização dedicada à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer colorretal. Seu objetivo é informar a população, estimular a atenção aos sinais de alerta e reforçar a importância do rastreamento, inclusive entre aqueles que ainda não se percebem em risco. Mais do que uma iniciativa simbólica, trata-se de um chamado à responsabilidade individual e coletiva diante de uma doença que pode ser amplamente evitada e tratada com sucesso quando identificada precocemente.

Informação de qualidade, atenção aos sintomas e acesso oportuno ao diagnóstico são pilares essenciais para mudar esse cenário. Ao valorizar os sinais de alerta e ampliar as políticas de rastreamento populacional, é possível reduzir o número de casos diagnosticados tardiamente e evitar que histórias como a de Mariana — e de tantas outras pessoas que perderam a vida para essa doença — continuem a se repetir e, assim, salvar muitas vidas.

 Por Marcelo Averbach – Presidente da ONG Zoé, cirurgião, é livre docente pela Faculdade de Medicina da USP