“Regret nothing”: não se arrependa de nada. A frase estampava a camiseta de um dos jovens acusados pelo estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, ao se entregar para a polícia em Copacabana, no Rio de Janeiro, na última semana. Não parece ser apenas uma coincidência perversa — a expressão é considerada um mantra red pill difundido pelo anglo-americano Andrew Tate, um dos principais líderes do discurso masculinista na internet.
Desde a estreia da série ficcional “Adolescência”, da Netflix, há um ano, a misoginia difundida em plataformas digitais tem ganhado mais atenção. A produção britânica, bastante elogiada e premiada, chocou grande parte da audiência e trouxe para o debate público termos como “machosfera”, incel e também red pill, decifrando um universo virtual de ódio até então invisível para muitos pais, mães e demais responsáveis por meninos.

É óbvio que a violência contra mulheres não nasceu com as redes sociais, mas ganhou novos formatos e possibilidades de vitimização e revitimização, além de um acesso extremamente facilitado a uma infinidade de conteúdos que promovem narrativas sexistas. O que vemos no noticiário é reflexo de uma sociedade profundamente desigual em termos de gênero, o que é retroalimentado por influenciadores que enriquecem com a ideia de que mulheres são inferiores. E não temos sido nada efetivos, em nenhuma frente, no enfrentamento dessas violências.
O NetLab, laboratório de estudos sobre a internet da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), mostrou que 90% dos canais misóginos mapeados no YouTube pelos pesquisadores em 2024 seguem disponíveis. Ao todo, essas páginas contam com mais de 23 milhões de inscritos, número quase 20% maior do que o detectado há dois anos. Ou seja: considerando apenas uma plataforma, são milhões de homens impactados diariamente por vídeos que promovem o desprezo ao feminino. As empresas de tecnologia obviamente têm responsabilidade nessa conjuntura, pois a monetização dessas narrativas gera lucro.
É válido destacar que nem todo discurso de superioridade masculina prega, ao menos explicitamente, a agressão física, como é o caso da pavorosa trend “caso ela diga não”, em que homens ensinam como reagir, usando armas e golpes, se as mulheres recusarem um convite para sair ou namorar. Muitos “coaches red pill” difundem a ideia de desvalorização e submissão feminina por meio de supostos manuais de ajuda, em que muitos homens, especialmente os mais jovens, encontram conforto para suas mais diferentes frustrações
É por isso que, no caso de adolescentes, apenas controles parentais e supervisão de tempo de tela não bastam. É preciso criar meninos que tenham consciência do que significa equidade de gênero, para que compreendam o que é consentimento e exerçam respeito. Meninos que saibam o que significa masculinidade e de que forma ela pode ser extremamente tóxica. As famílias precisam estar informadas para formar garotos que consigam identificar e refutar mensagens misóginas, ao mesmo tempo que se sintam acolhidos.
A escola também não pode se furtar a integrar esse debate. Que tipo de cidadãos —no masculino, principalmente— estaremos formando se ignorarmos que eles consomem conteúdos virtuais de ódio contra mulheres? É urgente desconstruir a demonização que se formou em torno de termos como “gênero” e “feminismo” nos currículos escolares, pois é justamente esse discurso que endossa estruturas machistas.
Misoginia online ainda é misoginia. Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil, afirmou recentemente em entrevista à GloboNews que a educação midiática é necessária para o enfrentamento do problema, uma vez que derrubar canais e perfis nas plataformas não garante que surjam outros rapidamente, e que as mensagens já não tenham encontrado eco offline.
Criar e formar meninos empáticos é uma missão complexa, delicada e coletiva. A educação midiática faz parte dessa equação, pois ao promover criticidade, diversidade e cidadania no contexto ultraconectado, impulsiona também o combate ao ódio a meninas e mulheres, em todos os ambientes —digitais ou não.

Artigo originalmente veiculado no Folha de S.Paulo




