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Desigualdades raciais e envelhecimento saudável: por que as condições de vida importam?

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O envelhecimento é um processo natural e contínuo que se inicia na concepção do ser humano e se estende até o final da vida. O envelhecimento populacional é um reflexo do aumento do número de anos de vida e redução das taxas de natalidade e mortalidade. A expectativa de vida ao nascimento para o mundo aumentou de 64,2 anos em 1990 para 72,8 anos em 2019. Prevê-se que novas reduções na mortalidade resultem em uma longevidade média global de cerca de 77,2 anos em 2050 (Organização das Nações Unidas – ONU, 2022).

O crescimento da proporção de pessoas idosas na população nos trás reflexões a compreender o envelhecimento sob as mais variadas perspectivas, contemplando suas pluralidades e, para além da saúde,  as várias dimensões sociais dos indivíduos, como gênero, raça e classe social são os marcadores mais expressivos a serem considerados e as pesquisas têm acrescentado muitas novas contribuições sobre como atuam no envelhecimento. Em um mundo resultante do processo de colonização, a raça, hoje sabidamente uma construção social sem nenhuma base biológica, limita oportunidades e acesso a serviços, circunscreve relações, o que  define trajetórias e, consequentemente, afeta a saúde e a qualidade de vida de pessoas racializadas.

A vivência do racismo impacta negativamente a qualidade de vida e não se limita a reações decorrentes de interações entre pessoas, mas é fortemente influenciada por elementos estruturais. A escassa presença de pessoas negras em posições de liderança, nas universidades, nos índices de altos cargos e salários, qualidade de vida, acesso aos serviços de saúde, entre outros, impede que essa comunidade alcance uma expectativa de vida mais longa. Isso reflete a memória ancestral marcada pela conexão intrínseca entre resiliência e vulnerabilidade, além das construções culturais fundamentadas no passado escravocrata do Brasil.

Em virtude de práticas de discriminação baseadas na raça, os idosos negros enfrentam desafios únicos durante a velhice, reflexo das diversas desvantagens resultantes das disparidades econômicas, sociais e históricas, bem como às responsabilidades extras de viver numa sociedade onde a igualdade racial ainda é uma utopia. Outro aspecto importante é que o racismo gera desigualdades raciais relacionadas com circunstâncias de fragilidade. As atitudes discriminatórias são evidentes nas relações interpessoais, na família, na distribuição espacial dos espaços urbanos, na organização espacial das cidades, na constituição de grupos sociais e nas várias organizações com as quais cada sujeito se relaciona nos vários âmbitos de sua vida. Estas ações estão relacionadas a uma série de elementos socioeconômicos e culturais que impactam a saúde física e mental, além da integridade pessoal e coletiva.

A abordagem aqui é sobre raça, mas é importante ampliar esta leitura para as várias formas de opressão e discriminação às quais as pessoas podem estar expostas em toda e qualquer análise, o que é sintetizado no conceito de interseccionalidade. Interseccionalidade refere-se à percepção de que as formas de poder se alimentam das origens da colonialidade que é a permanência de estruturas de dominação, controle e hierarquia criadas pelo colonialismo, mesmo após o fim da ocupação política e territorial dos países.  E se diversificam em formas e características únicas, mas nunca isoladas. Esta forma de análise deve mostrar como, ao se interligarem, os indivíduos moldam e organizam as estruturas sociais, definindo assim posições políticas, experiências de opressão e de privilégio.

Informações do estudo Fragilidade em Idosos Brasileiros (FIBRA) coordenado pela Profa. Anita Neri em (2013) revelam que as condições socioeconômicas mais desfavoráveis da população negra na juventude persistem até a velhice, indicando a continuidade na falta de acesso a benefícios e oportunidades, o que resulta em efeitos adversos sobre a saúde, a cognição e o bem-estar. Os idosos negros, em sua maioria, apresentaram renda baixa, níveis educacionais reduzidos, um índice de analfabetismo mais elevado, residindo em lares que combinam várias gerações ou são de composições mistas, e com uma renda familiar que é percebida pelos próprios idosos como insuficiente para atender às suas necessidades.

A partir do formato censitário de classificação racial brasileira, para além da população negra, que reúne pretos e pardos, a população indígena também é sujeita a opressões. Muitos povos indígenas vivem em condições precárias de habitação, com alta vulnerabilidade social e econômica que afeta sua saúde, tornando-os prioridade em ações de saúde e políticas intersetoriais. Os idosos indígenas são considerados guardiões de conhecimentos essenciais sobre suas tradições, incluindo medicina, ervas, músicas, rituais e práticas ancestrais, desempenhando papel crucial na organização social, na preservação cultural e na sobrevivência das comunidades. Contudo, enfrentam desafios significativos na velhice para manter sua saúde e acessar serviços adequados, agravados por marginalização social, econômica e geográfica.

Investigações científicas e levantamentos demográficos, a exemplo do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), demonstram que as consequências cumulativas do racismo ao longo do curso de vida comprometem a saúde cerebral no envelhecimento. O racismo afeta a cognição de pessoas idosas ao provocar estresse crônico, envelhecimento biológico acelerado e desigualdades no acesso à saúde e à educação. Os principais mecanismos de impacto cognitivo compreendem:

  • Estresse crônico e hipervigilância: a exposição recorrente a atos discriminatórios mantém ativados os mecanismos neurobiológicos de respostas ao estresse, provocando deterioração neuronal e prejuízos na memória, na atenção e nas funções executivas.
  • Envelhecimento precoce (epigenética): a incidência cumulativa de micro agressões e assimetrias sistêmicas acelera o processo de envelhecimento celular, ampliando a vulnerabilidade ao declínio cognitivo prematuro e a patologias neurodegenerativas, como as demências.
  • Desigualdades educacionais e socioeconômicas: as restrições impostas pelo racismo estrutural historicamente limitam a instrução formal e a inserção em ocupações com melhores rendimentos, resultando em uma menor reserva cognitiva em decorrência da baixa escolaridade.
  • Obstáculos no acesso à assistência médica: a população idosa negra encara entraves significativos no acesso a serviços de saúde adequados, além de vivenciar a negligência e a ineficiência terapêutica tanto na rede pública quanto na privada de serviços, o que retarda a detecção e o manejo de doenças e comorbidades prejudiciais à cognição.
  • Isolamento social e transtornos depressivos: a exclusão social e a perda prematura de entes queridos – motivadas pela violência urbana ou pela insuficiência de suporte médico – precipitam quadros graves de solidão e depressão entre pessoas idosas negras, sendo amplamente reconhecido que o transtorno depressivo não tratado exerce forte influência negativa sobre o desempenho cognitivo na velhice.

Dados sobre o acúmulo de desvantagens ao longo do ciclo de vida evidenciam o quanto o envelhecimento da população negra  depende da compreensão de que a velhice exige analisar a história de vida de cada pessoa e não apenas o corte etário atual, fundamentando políticas públicas que atuem preventivamente desde a base. As desigualdades raciais começam na infância e acumulam-se ao longo do curso de vida e se manifestam de forma severa e singular na velhice, comprometendo a longevidade e a qualidade de vida da população negra em uma etapa sensível, cheia de fragilidades e vulnerabilidades da vida.

Por Lucila Maria Barbosa Egydio- Lucila Maria Barbosa Egydio – Bióloga formada pela Universidade de São Paulo. Mestra e Doutoranda em Gerontologia pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia (PPGer) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. E-mail: lucilaegydio@alumni.usp.br & Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. E-mail: thaisbento@usp.br