
Chego hoje aos 50 anos e a pergunta, insistente e cansativa, é a mesma: “Qual o segredo da sua longevidade?”.
Não tem segredo nenhum, pessoal. A genética é quase tudo: venho de uma linhagem em que os homens chegaram sempre perto do meio século. Um bisavô, do qual tenho memórias difusas, atingiu os 54 cheio de vida e saúde. Há esperança para mim.
Claro que, para chegar a esta idade, alguns hábitos também foram importantes. Todos eles podem ser resumidos a um princípio básico: poupança de energia.
Como as tartarugas, mal me mexo. Meu desafio, com a idade, foi aprender a caminhar ainda mais devagar. Há vantagens: conheço minhas cidades com um detalhe microscópico. Seus habitantes também. Posso vê-los, consumidos pela pressa e pela ansiedade, correndo rumo ao abismo que será de todos.
Alguns, segundo as notícias, sonham com a imortalidade e submetem-se a tratamentos que, em outros tempos, seriam classificados como tortura de preso político.
Deitam e acordam em horas impróprias. Submetem o corpo a substâncias e violências que, aplicadas aos outros, seriam tentativas de homicídio. Negam-se todos os prazeres mundanos com um puritanismo só aceitável nos anacoretas do deserto.
Imagino-os no caixão: lindos e saudáveis, com suas peles esticadas e implantes capilares de fazer inveja a um leão. Serão um belo banquete para os ecossistemas lá em baixo.
Poupar energia não é apenas coisa física. É mental. Com a idade, uma pessoa percebe que grande parte dos problemas da vida não são problemas. É a própria vida soluçando. A resolução de muitos deles está nessa mudança de perspetiva –e na generosidade de permitir que eles se resolvam por si, com o mesmo mistério com que apareceram.
Aos humanos está reservado um papel mais modesto: não tentar impor aos outros uma cópia de nós próprios. Às vezes penso que a raiz do mal está precisamente aqui: na incontinência para a cópia.
Tiranizamos amores, filhos, pais, amigos, vizinhos, povos, países com essa demência mimética. Que sejam como eu! Que pensem como eu! Que acreditem nas mesmas coisas em que eu acredito! E, se resistirem, é minha missão quebrá-los.
A diferença entre um ditador e a maioria anônima é questão de grau. A tentação autoritária, em rigor, não está fora de nós. Está em nós.
Devemos temer esse bigodinho ridículo quando ele aparece no rosto da nossa alma. Devemos raspá-lo com ironia e perdão, as duas virtudes que o saudoso Roger Scruton contrapunha à tentação totalitária.
Eu tento. Pratico mais a primeira que a segunda, é verdade. Por educação ou temperamento, tendo sempre a ver o frango dos Monty Python caindo na cabeça dos assuntos mais sérios. Como se dizia no tempo dos Habsburgos, em plena Primeira Guerra, a situação pode ser catastrófica, mas não é séria. Ponham isso no meu epitáfio, por baixo da estátua galiforme.
E, aos 50 anos, descobrimos como as coisas mais importantes são também as mais banais. Não no sentido abstrato dos livros de autoajuda –o pôr do sol, as flores, o sorriso de uma criança.
Falo de coisas-coisas, concretas para mim, algumas possíveis de tocar, trincar, roubar. Uma noite bem dormida. Cerejas. Clash e Noël Coward. Dinheiro esquecido no bolso das calças. Gustave Caillebotte. Livros novos que chegam pelo correio. Pão de queijo. Hibiki 30 anos. Tirar os sapatos. Escrever. Falar sozinho. Aquela reunião inútil subitamente cancelada. Secretos de porco. As cartas de Sêneca a Lucílio. Antigos alunos que ainda se lembram. Filmes de vampiros. O pescoço da minha mulher. Vadiagem pelas ruas do Porto. A casa depois da viagem. Figurinhas da Copa do Mundo. Que foi que eu disse?
Não são para mim, as figurinhas. São para o meu rapaz, que vai colando os rostos dos craques na caderneta enquanto eu escrevo estas linhas.
Já tentei enxotá-lo daqui com o pé, mas ele resiste. E espera que eu use esta coluna solene para perguntar se, entre os leitores desta Folha, alguém tem Marrocos nº 11, Haiti nº 6, Brasil nº 10 ou Panamá nº 8 para a troca.
Garoto insolente! Quem pensa ele que eu sou? É nesses momentos que uma pessoa sabe que falhou como pai.






