Pular para o conteúdo

A voz do silêncio

O silêncio tem voz. É possível ouvi-la?

Parece uma contradição. Se é silêncio, como pode falar? Mas fala. E, muitas vezes, fala mais alto do que os discursos. Apenas utiliza outra frequência. Para ouvi-lo, é preciso estar atento, ter sensibilidade e, sobretudo, saber observar.

Há silêncios que dizem mais do que palavras. O olhar, o gesto, a ausência de resposta, a distância, a mudança de comportamento e até mesmo a indiferença podem dizer aquilo que a boca não consegue ou não quer dizer.

Talvez por isso os antigos já ensinassem que “quem muito fala dá bom-dia a cavalo”. Há pessoas que precisam opinar sobre tudo, explicar tudo, ensinar a todos e, não raramente, acreditam saber mais do que aqueles que passaram a vida estudando ou construindo aquilo que elas pretendem ensinar.

A vida dá voltas. Quem está por cima hoje pode estar por baixo amanhã. Quem hoje é aplaudido pode amanhã ser esquecido. Quem hoje parece invencível pode descobrir, quando menos espera, que o poder é passageiro.

O silêncio fala, responde aos incautos, aos espertos, aos que zombam, no seu próprio tempo, diz: Chega!

O que mais surpreende é a coerência às avessas. Parte dessa esquerda queima bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, países onde há liberdade de se protestar, se criticar o governo e se vive a fé ou a orientação sexual de livre escolha, sem pedir licença. Ao mesmo tempo, relativiza regimes e grupos que vigiam cidadãos, censuram a imprensa, calam mulheres, perseguem religiões e criminalizam homossexuais. Grita “meu corpo, minhas regras”, mas aplaudem países onde a mulher não tem corpo, nem regra, nem direitos.

E o templo do saber? Virou palanque. Em muitas universidades, o lixo se acumula, as paredes gritam em tinta, os prédios definham, e o laboratório cedeu lugar à assembleia permanente. Quem discorda é “fascista”, palavra de ordem repetida com fervor por quem nunca abriu um livro para saber o que significa. Há os que estudam de verdade, e é por eles que o quadro dói. Mas há também a juventude desenfreada, que passa como um furacão de boas intenções e deixa o rastro de sempre: sujeira, ruína e a conta, enviada ao contribuinte. Sustentada por quem trabalha, se declara vítima de quem a sustenta, e serve de massa de manobra para quem lucra com sua fúria. Aprende a gritar, mas não aprende a pensar. E quando chegar ao diploma, se chegar, não terá rumo. Platão já mostrou, na alegoria da caverna, o sujeito que toma a sombra por realidade e se enfurece com quem acende a luz. Triste realidade. E quem se importa?

Opa! Não posso divagar. Volto para a voz do silêncio, essa não disputa volume com ninguém. Ela espera. Observa. Registra. E, no seu devido tempo, responde.

A política passa. Os governos passam. Os partidos passam. Os discursos passam. Os poderosos passam. Mas as consequências das escolhas permanecem.

Por isso, antes de falar, é preciso pensar. Antes de julgar, é preciso conhecer. Antes de seguir uma multidão, é preciso perguntar para onde ela está indo.

Antes de desprezar alguém porque está calado, lembre-se: o silêncio também vota.

O silêncio também escolhe. O silêncio tem memória. E, de tempos em tempos, a voz mais poderosa que muda os rumos de uma família, de uma sociedade ou de uma nação não é a voz de quem grita mais alto, é a voz de quem observou tudo em silêncio.

O silêncio sofre com o custo de vida. E observa. Esse cidadão pode não dizer nada. Mas não é ignorante. Ele percebe quando o discurso não combina com a prática. Percebe quando alguém fala em democracia, mas aplaude a censura. Percebe quando alguém fala em liberdade, mas admira regimes que controlam seus cidadãos.

Percebe quando alguém prega igualdade, mas vive dos privilégios do sistema que diz combater. Percebe quando alguém se diz defensor dos pobres, mas transforma a pobreza em instrumento permanente de dependência política. E, sobretudo, percebe quando tentam tratá-lo como massa de manobra.

O silêncio não é ausência de opinião. É acúmulo de consciência. É a voz daqueles que ouviram promessas, viram contradições, suportaram desgastes e guardaram cada episódio na memória. É a voz que não precisa de palco, de microfone ou de aplauso. Porque, quando chega a hora, ela se manifesta de forma decisiva.

E, quando chegar a hora, os que ficaram calados dirão apenas: “Chega.”

SEJA PARTE DA MUDANÇA – ACORDA BRASIL!

Por Naime Márcio Martins Moraes – Advogado e professor universitário – planejamento familiar e sucessório