
Algumas palavras funcionam mais ou menos como tênis de corrida ou pneus. Fazem a gente avançar muitos quilômetros, mas conforme os anos passam elas ficam bem gastas, carecas ou murchas e não levam mais a canto algum.
Mais ainda. Conforme a gente amadurece e vai passando do trotinho para os treinos com maior velocidade e distância, naturalmente procura o calçado mais moderno possível, que faz a gente mal sentir o chão que pisa.
Foi mais ou menos assim com “superação”. A palavra deu a muitos motivação para enfrentar os desafios impostos para quem tem uma condição particular física, sensorial ou intelectual em uma sociedade pouco preparada para lidar com a diversidade. Cada um que se superava oferecia ânimo para que outros fizessem o mesmo.
Até que este calçado ficou enlameado e descosturado, fazendo feio com quem anda com ele por aí, seja qual for a trilha. Isso porque cresceu a percepção de que nossas deficiências não precisam ser superadas. Em vez disso, temos direito a ter condições de trabalho, estudo, moradia, acesso à cultura e locomoção que permitam realizar o maior número de atividades possível com igualdade de oportunidades em relação a quem não tem uma deficiência.
Agora, suspeito que com “inclusão” também começa a dar os primeiros sinais de desgaste nos amortecedores.
Quando comecei a dar por mim como uma pessoa com deficiência, há mais ou menos 20 anos, inclusão vinha sempre associada a nós. Falar sobre inclusão era praticamente a mesma coisa do que dizer deficiência.
Mas quando se fala em inclusão, entendemos que existem pessoas dentro e outras fora. Aquelas que acessam a sociedade e outras que precisam ser incluídas por quem já está dentro, os ditos “normais”.
E, de fato, por muito tempo a realidade foi esta. Era preciso buscar uma escola inclusiva para estudar, sob o risco de a matrícula ser negada em instituições que não tinham esta preocupação. Precisávamos de sessões de cinema inclusivas, passeios inclusivos, vagas de trabalho inclusivas.
E faz parte do desenvolvimento ter sido assim naquele momento, com iniciativas pontuais oferecendo oportunidades para quem não tinha nada e gerando experiências e aprendizados para toda a sociedade.
Mas também é bom olhar para trás ou consultar no relógio a quilometragem percorrida e entender que avançamos e está na hora de buscar provas mais desafiadoras.
Agora compreendo que a escola atender uma criança com deficiência com qualidade não é favor nem inclusão. Ela está simplesmente cumprindo um dever e oferecendo ao aluno aquilo que ele tem direito.
O empregador que segue a Lei de Cotas e contrata pessoas com deficiência, oferecendo um ambiente de trabalho acessível e métricas justas de avaliação não faz inclusão, cumpre seu dever.
Da mesma forma, o shopping, a academia ou o restaurante que atendem uma pessoa cega com qualidade não fazem inclusão, mas garantem acessibilidade.
Hoje, prefiro falar em garantia de direitos e em participação em igualdade de condições. Mesmo que ainda haja um grande percurso a ser vencido, o cadarço está amarrado para seguir avançando.






