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Quanto custa envelhecer? Como remédios, plano de saúde e cuidado afetam a vida financeira dos 60+

Foto: Adobe Stock 

A expectativa de vida no Brasil, hoje em 76 anos, deve ultrapassar os 83 em 2070, segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esta tendência de maior longevidade da população vem acompanhada da preocupação com o custo do envelhecimento.

Despesas com tratamentos de saúde, medicamentos e cuidadores, entre outros fatores, tendem a pressionar cada vez mais o orçamento de idosos e de suas famílias.

Principalmente no Rio Grande do Sul, que já lidera proporcionalmente o ranking dos 60+ no país. Dados do Censo de 2022 mostram que, para cada 100 pessoas entre zero e 14 anos, há 115 com 60 ou mais no RS — a média nacional é de 80.

Portanto, mais do que um desafio individual, o envelhecimento se transformou em uma questão macroeconômica. O professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS Giácomo Balbinotto concorda que os brasileiros estão mais longevos, porém, não estão mais ricos, de modo que sustentar a população que vive mais exige mudanças estruturais:

— O Brasil passa por uma transição acelerada, com a inversão da pirâmide populacional ocorrendo de forma extremamente rápida. As consequências para a economia e a estrutura social são significativas e tendem a se agravar já no curto prazo.

No âmbito do país, a Secretaria do Tesouro Nacional estimou que o envelhecimento da população exigirá um acréscimo de R$ 67,2 bilhões de recursos públicos entre 2024 e 2034, mas qual será o custo para as pessoas?

— Naturalmente, quanto mais vivemos, maiores tendem a ser os gastos com saúde, cuidado e suporte. Por isso, o ideal é guardar dinheiro para a velhice antes de chegar na velhice. É preciso termos consciência de que, quando nos aposentarmos, o valor recebido provavelmente será inferior ao nosso rendimento atual, mas os gastos certamente irão aumentar — alerta Wendy Carraro, professora dos cursos de Ciências Contábeis e Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Além das despesas de saúde usuais — como remédios, mensalidade do plano de saúde, consultas e exames particulares —, Wendy lembra que o envelhecimento pode trazer um “custo invisível”, que costuma ser percebido somente quando se torna uma realidade — geralmente, devido ao adoecimento da pessoa idosa.

São os gastos com eventuais reformas e adaptações de acessibilidade em casa, salário de cuidadores e mensalidades de clínicas de longa permanência, por exemplo, que podem inflar de maneira robusta o orçamento.

Remédios e plano de saúde inflam orçamento

Mesmo quando o cuidado intensivo não é necessidade, os gastos com saúde puxam a balança financeira dos idosos para baixo. Os remédios são o elemento de maior impacto nesta equação.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo IBGE, mostra que a compra de medicamentos corresponde a 33,7% de todos os gastos das famílias brasileiras com saúde, superando despesas com consultas médicas e planos, especialmente para quem está fora da classe média.

Conforme o economista Giácomo Balbinotto, pesquisador das áreas de Economia da Saúde e Farmacoeconomia, entre pessoas de baixa renda, não é raro que as despesas com remédios comprometam até metade da receita mensal.

Esse gasto pode existir até mesmo para usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Se o idoso necessita de um medicamento que não é distribuído gratuitamente ou que está com sua distribuição atrasada, ou ele compra por conta própria ou fica sem o tratamento. GIÁCOMO BALBINOTTO – Pesquisador

O especialista lembra ainda que muitos usuários do SUS recorrem a consultas em clínicas particulares para driblar as limitações da saúde pública — principalmente o tempo de espera elevado.

Já entre os usuários de planos de saúde, estas despesas são fixas e expressivas. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que o valor médio da mensalidade para pessoas acima de 59 anos é de R$ 2,2 mil.

O custo da perda de autonomia

Quando a perda de autonomia avança, o custo do cuidado intensivo pode surpreender as famílias. Segundo Henri Chazan, presidente do Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa), o custo médio para internação em clínica de longa permanência gira em torno de R$ 5 mil mensais no mercado da Capital.

— Existem locais de excelente qualidade com mensalidades nesta faixa, mas o valor pode chegar a até R$ 15 mil. A variação decorre, principalmente, da localização, do tipo de acomodação em que o paciente ficará e do que está incluído nos serviços — explica.

Entretanto, há famílias que optam por manter o idoso em casa com auxílio de cuidadores. Um levantamento do Portal Salário, elaborado a partir de informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), indica que a remuneração média desses profissionais no Brasil gira em torno de R$ 1,8 mil para jornadas de 44 horas semanais.

Quadros de maior dependência frequentemente exigem a contratação mais de um profissional para que o idoso esteja amparado durante a maior parte do dia, o que elevaria o valor mensal para, pelo menos, R$ 3,6 mil.

“A idade sempre traz mais despesas”

Leila Balthazar Roses, 71 anos, avalia que envelhecer mudou a forma como organiza as próprias contas. Moradora de Porto Alegre, a aposentada viu despesas antes inexistentes ou eventuais passarem a ocupar espaço fixo no orçamento, enquanto outras precisaram ser eliminadas ou reduzidas.

Os gastos com exames, consultas médicas, suplementos e cuidados voltados à manutenção da saúde física e mental se tornaram mais frequentes. Para acomodar as novas demandas, Leila precisou rever prioridades e se tornar ainda mais criteriosa com o dinheiro.

A idade sempre traz mais despesas e, se você não adequa a sua vida financeira a elas, pode acabar se apertando – LEILA BALTHAZAR ROSES – 71 anos

Mateus Bruxel / Agencia RBS
Leila não abre mão de investir em atividades de bem-estar.Mateus Bruxel / Agencia RBS

— Minha prioridade é sempre pagar as contas obrigatórias de casa e garantir o que é essencial para mim: meu plano de saúde, minhas atividades físicas e meus suplementos. No restante, pesquiso muito e busco ofertas. Às vezes, preciso abrir mão de outras coisas para priorizar esse investimento em mim mesma — narra.

Leila é aposentada, mas continua trabalhando como representante comercial de uma importadora. O emprego, contudo, não responde a uma necessidade de sobrevivência: o salário serve para que ela possa manter autocuidados que considera essenciais ao próprio bem-estar.

Preocupada com envelhecer de forma saudável, a idosa pratica atividades físicas regulares na academia VivaClub, exclusiva para o público 60+.

A rotina também impõe um custo, mas Leila não abre mão de investir nestas atividades — embora reconheça que a realidade não é a mesma para todos:

— Vivo de acordo com o que eu ganho, não tento dar o passo maior que a perna.

Como se organizar financeiramente na velhice

Apesar do maior cuidado na terceira idade, a educadora financeira Wendy Carraro que reforça a importância de poupar em todas as fases da vida. Ela aconselha que o valor disponível para investimentos, caso haja possibilidade, seja dividido em pelo menos duas frentes:

  • Reserva de emergência: valores depositados em fundos de fácil resgate (como o Tesouro Selic e CDBs de liquidez diária), para que possam ser sacados de forma imediata quando necessário
  • Reserva para sonhos de médio/longo prazo: valores depositados em fundos de renda fixa com prazo de vencimento alinhado ao que se deseja realizar — como uma viagem, a compra de um bem ou outro tipo de projeto

Entretanto, as dicas levam em consideração idosos que têm margem orçamentária para realizar investimentos — o que não é a realidade de uma parcela significativa da população 60+, como observa a professora da UFRGS.

— Para quem está com o orçamento apertado, o foco deve ser a gestão rigorosa do que se ganha. É necessário revisitar entradas e saídas e buscar alternativas para reduzir as despesas. Isso inclui pesquisar preços, buscar subsídios do governo que possam estar disponíveis e aproveitar serviços gratuitos oferecidos por instituições, para economizar o máximo possível — orienta Wendy.

Já em casos mais delicados, quando há endividamento, a prioridade deve ser renegociar as pendências sem comprometer os gastos essenciais do idoso. 

Dados do Serasa Experian demonstram que a população brasileira 60+ vive um cenário de superendividamento. Entre 2019 e 2026, o número de idosos com dívidas em atraso passou de 9,2 milhões para 15,9 milhões — uma alta de quase 73%.

Vida financeira x saúde mental

Especialistas alertam para os impactos clínicos que a insegurança econômica pode trazer. Conforme o psiquiatra Alfredo Cataldo Neto, professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e coordenador do Grupo de Pesquisa Envelhecimento e Saúde Mental (GPESM), este é um fator importante de sofrimento psíquico para os idosos.

Quando a pessoa chega na velhice e percebe que não se organizou como deveria ou que a sua aposentadoria não é suficiente, isso pode ser desesperador. ALFREDO CATALDO NETO – Psiquiatra e professor da PUCRS

Segundo ele, a necessidade de recorrer aos filhos ou outros familiares para se manter costuma ser especialmente dolorosa para um idoso:

— Muitas vezes, ele já está lidando com a perda da autonomia física, e é difícil perder também a autonomia financeira. Ele não quer “dar trabalho”, não quer se sentir um peso, mesmo que essa ajuda seja apenas uma retribuição de tudo o que ele também já fez pela família.

Por isso, o psiquiatra sinaliza que a preparação para lidar com os custos trazidos pelo envelhecimento envolve também laços de afeto.

— É muito importante que, além de fazer uma poupança de dinheiro, as pessoas também façam uma poupança de afetos. Quando há esse afeto estabelecido, é mais fácil para o idoso entender que não há nada de errado em ser amparado nesta fase da vida.

Fonte: GZH