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Crime contra a mulher é o mais grave para 60% do país, mas quase metade não vê violência em controlar saídas ou salário

Violência contra a mulher — Foto: Freepik

Seis em cada dez brasileiros (61%) entendem as agressões contra mulheres como o crime mais grave presente no país, superando problemas como o tráfico de drogas e os roubos. Por outro lado, quase metade da população não vê necessariamente como atitude violenta, em uma relação amorosa, o companheiro controlar o salário da parceira ou as ocasiões em que ela sai de casa. Os dados são de uma pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira em parceria com o Movimento Mulher 360 — associação sem fins lucrativos que atua pela promoção da equidade de gênero.

Na avaliação de Margareth Goldenberg, diretora-executiva do Movimento Mulher 360, a pesquisa reforça uma contradição nacional ao mostrar que, embora agressões físicas e ameaças sejam amplamente percebidas como equivocadas, a violência psicológica e coercitiva ainda é negligenciada pela sociedade.

— A população relativiza comportamentos que sustentam a violência de gênero. Raramente o crime começa com uma agressão física. Sem o reconhecimento disso, a prevenção pode chegar tarde para a mulher violentada — diz Goldenberg, acrescentando que os números ajudam a evidenciar esse “vazio de reconhecimento”. — E são justamente as etapas anteriores à violência física que são fundamentais para interromper o ciclo antes que ele se agrave.

Quase metade da população (45%) entende, por exemplo, que um homem impedir uma mulher de sair de casa para uma comemoração não é necessariamente uma violência. O resultado é próximo do percentual daqueles que não veem necessariamente como violência um companheiro controlar as amizades da parceira (41%).

Maria da Penha ignorada

A violência patrimonial, embora formalmente contemplada na Lei Maria da Penha, também é vista como de menor gravidade. Para 42% dos brasileiros, o marido controlar o salário da mulher não é necessariamente agressão.

O cenário muda quando a violência contra a mulher resulta em ataque físico ou em um contexto no qual haja constrangimento. Um homem humilhar a companheira em público é uma situação vista como violenta por 94% da população. Já 95% têm a mesma percepção sobre a ação de maridos que forçam relações sexuais com a esposa.

Os dados indicam ainda que a culpabilização da vítima ainda é um padrão: 61% dos brasileiros concordam que muitas das agressões são consequência de opções erradas feitas durante a escolha do parceiro. Esse entendimento é compartilhado por 57% das mulheres e 65% dos homens.

O Movimento Mulher 360 avalia que esse panorama contribui para o silêncio das vítimas. Como consequência, há o fortalecimento do medo de denunciar e a permanência em relações abusivas. Segundo o Datafolha, 37% das mulheres que sofreram agressões de maior impacto no último ano afirmaram não terem tomado atitude alguma a respeito do episódio.

— A culpabilização da vítima segue estrutural e deriva da cultura patriarcal. A sociedade tem o papel de conscientizar o que é uma relação de amor e carinho — alerta Goldenberg.

A baixa confiança nas instituições e na efetividade das leis é outro agravante. Apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las, percentual que sobe para 31% entre os homens. A pesquisa mostra também que, enquanto 55% dos homens consideram as leis de proteção às mulheres adequadas, o mesmo percentual de mulheres demonstra insatisfação.

— Sofri violência psicológica e patrimonial por mais de uma década, desde o nascimento da minha filha. Entrei com um processo criminal contra meu ex-marido, mas o Ministério Público compreendeu que eram simples brigas de casal — conta uma mulher de 51 anos atendida pelo programa Bem Querer Mulher, mantido pelo Instituto para o Desenvolvimento Sustentável (INDES) com apoio da ONU. — Quando perceber que não está saudável, procure ajuda. Foi um divisor de águas para mim. São muitos traumas, mas minha vida melhorou muito com a independência que conquistei — acrescentou.

Perigo dentro de casa

A pesquisa aponta que 89% dos brasileiros avaliam que os casos de violência de gênero aumentaram no último ano. Este índice é mais elevado entre as mulheres (94%) em comparação aos homens (83%). A maioria dos entrevistados (71%) também disse acreditar que as mulheres hoje correm mais perigo dentro de casa do que fora dela.

Das 1.037 entrevistadas, 857 (84%) responderam a um módulo paralelo, revelando que cada mulher já havia passado por três situações de violência de gênero, em média. Além disso, 74% viveram pelo menos uma situação violenta. Insultos ou xingamentos são as ocorrências mais comuns (59%), seguidos por ameaça de agressão física, empurrões ou chutes (45%), enquanto ser seguida ou intimidada alcançou índice de 43%.

O Movimento Mulher 360 destaca a ocorrência de “relatos significativos sobre violência sexual”, como em casos nos quais a mulher é tocada ou agarrada sem permissão: quatro a cada dez mulheres (38%) responderam ter passado por essa situação. Uma em quatro mulheres também já foi espancada ou sofreu tentativa de enforcamento, e 22% disseram já ter sido ameaçadas com armas ou facas.

O Datafolha realizou, ao todo, 2.004 entrevistas em capitais e regiões metropolitanas de todas as regiões do país. Elas ocorreram de forma estimulada, através da aplicação de um questionário estruturado. Foram ouvidos brasileiros com 16 anos ou mais entre os dias 6 e 11 de abril. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.

Fonte: O Globo