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“A vida não acabou”: Universidade Aberta à Pessoa Idosa transforma a aposentadoria em recomeço

Fotos: Alice Lima/SECOM

“Você tem que ter uma vida para você, para cuidar de você. Em vez de ficar em casa, no sofá, você sai de casa, porque a vida não acabou ainda.” O desabafo — que, na verdade, é um convite — é de Marisa Pikler, de 71 anos, uma das alunas da Universidade Aberta à Pessoa Idosa, turma do Cajuru. Marisa é uma das vozes que preenchem o auditório da Rua da Cidadania da regional, onde se transforma o momento da aposentadoria em novo ponto de partida.

Para ela, que é formada em Letras, ser aluna novamente significa uma forma de autocuidado e de criar laços. “Eu sempre fui uma pessoa que trabalhou com o público e sentia falta do contato com as pessoas. Aqui eu tenho isso, tenho o espaço, sou importante”, afirma ao retornar para o auditório, onde os alunos estavam assistindo à uma apresentação do contramestre de capoeira Imahero.


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A aluna Marisa Pikler. Foto: Alice Lima/SECOM

Unapi

Com a missão de garantir o direito à educação, previsto no Estatuto da Pessoa Idosa, a Universidade Aberta à Pessoa Idosa (Unapi) é fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Curitiba e o Governo do Paraná, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Humano do município (SMDH), das administrações regionais Bairro Novo, Boa Vista e Cajuru, onde ocorrem as aulas, e das secretarias de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa (Semipi) e de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti).

Durante aproximadamente um ano, os alunos 60+ cumprem uma carga horária de mais de 500 horas, com encontros semanais. A rotina é intensa e diversificada: vai de aulas teóricas sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU até atividades físicas, culturais e a elaboração de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

“Para o TCC, cada um está escolhendo com carinho algo que vai beneficiar a comunidade. Alguns querem deixar um legado, como livro de receitas e poesias, outros querem plantar uma horta para a população“, conta Carla Volpi, mediadora das aulas que acontecem na Regional Bairro Novo.

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Carla Volpi, mediadora das aulas. Foto: Alice Lima/SECOM

A aposentadoria ativa chamou a atenção da população da terceira idade de Curitiba. Na Unapi, são mais de 150 alunos, distribuídos nas regionais do Cajuru, Bairro Novo e Boa Vista. 

Mente ativa, corpo saudável

“O que eu sei, eu repasso, o que eu não sei, eu aprendo.” É com essa disposição que Doroteu José da Silva, de 68 anos, chega às aulas na regional Bairro Novo. O aluno, conhecido por sorrir com os olhos e sempre arrancar risadas dos colegas, vê na sala de aula um ambiente de interatividade e bem-estar.

“Gosto, me divirto, me distraio. É uma alternativa para a ociosidade da nossa idade. Você vive melhor. Com quase 70 anos, eu não tenho dor de cabeça nem problema de saúde”, conta.

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O aluno Doroteu José da Silva. Foto: Alice Lima/SECOM


A decisão de manter a mente ativa para o melhorar a saúde tem base científica. De acordo com o geriatra do Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), Gabriel Crovador, o aprendizado na terceira idade funciona como um escudo para o cérebro. Ele explica que o ensino contínuo estimula a mente, diminuindo os impactos da idade e combatendo doenças silenciosas dos idosos, como a depressão e o isolamento social. 

“Todas essas atividades mantêm os idosos ativos por mais tempo. Ativa a memória, a linguagem, inclusive os vínculos sociais. Isso, de uma forma geral, atua como um fator de proteção da saúde”, exemplifica o médico.

Além dos benefícios para a saúde mental, a rotina das aulas provoca a movimentação do corpo e auxilia na independência em atividades diárias, como a mobilidade, regulação do sono e até mesmo o autocuidado.

Sonhos antigos

Se para uns a Unapi é a chance de voltar à universidade, para outros, é o florescer de um sonho que a vida adiou, como é o caso de Maria Cândida Miranda, aluna da turma do Bairro Novo, que pausou os estudos na 4º série do Ensino Fundamental para ajudar a família. 

Quando mais jovem, conseguiu um emprego em uma empresa de fotografia, onde ficou por 30 anos “Entrei limpando o chão e depois comecei a trabalhar no laboratório fotográfico, revelando filminho.” No entanto, apesar das oportunidades que surgiram, a falta de um diploma impediu que ela crescesse mais na empresa “Na época, minha filha era adolescente e me faltava tempo, me faltava coragem. Mas hoje, graças a Deus, aqui estou me sentindo muito bem”, relata.

A turma da Unapi veio em momento oportuno, agora, já aposentada, Cândida tem tempo e coragem de sobra.

“Quando eles falaram de uma faculdade dos idosos eu achei a coisa mais linda do mundo. No primeiro dia de aula, o meu sentimento foi de muita alegria’ ‘To aqui de volta, consegui!”, relembra emocionada.

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A aluna Maria Cândida Miranda. Foto: Alice Lima/SECOM

Para o TCC, o grupo de Cândida vai trabalhar com um caderno de poemas que escreveu em sua juventude. “Quando eu trouxe os textos as professoras ficaram muito emocionadas. Eu não esperava porque era tão simples… Eu sou poeta, gosto de escrever”, contou com a promessa de enviar um de seus poemas para a equipe de redação.

Fonte: Prefeitura de Curitiba