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Morre Maricarmen Abascal, idosa que virou símbolo da crise habitacional na Espanha após ser despejada

A aposentada Maricarmen Abascal morreu aos 87 anos, depois de virar símbolo da luta habitacional na Espanha — Foto: Reprodução / Instagram / @inquilinato_madrid

Maricarmen Abascal, de 87 anos, mulher que se tornou símbolo da crise habitacional na Espanha após ser despejada de sua casa em Madri, há duas semanas, morreu nesta quarta-feira no Hospital Gregorio Marañón. A morte foi anunciada pelo Sindicato de Inquilinos e Inquilinas de Madri, entidade que acompanhou o caso e esteve à frente da mobilização contra os despejos no país. Também nesta quarta-feira, os principais sindicatos espanhóis convocaram uma greve geral para o dia 11 de novembro — a menos de três semanas das eleições gerais antecipadas anunciadas pelo governo do premier Pedro Sánchez — para lutar principalmente por “melhores salários” e “moradia digna”.

“Agora, após a sua partida, ficamos com o exemplo de luta e o legado que Maricarmen deixou. E, acima de tudo, cumpriremos o que ela sempre nos pedia: ‘lutem, continuem lutando pelo que é de vocês'”, escreveu o sindicato em suas redes..

“Maricarmen vive, a luta continua”, entoavam centenas de manifestantes reunidos perto do Congresso, no centro de Madri. Muitos vinham da praça Porta do Sol, onde manifestantes pelo direito à habitação estão acampados há dez dias.

Ali, o clima era de luto, com fileiras de velas colocadas entre as barracas e manifestantes se abraçando emocionados após guardarem um minuto de silêncio pela aposentada, cujo despejo, em 23 de setembro, deu início às mobilizações.

— Mataram Maricarmen. Fizeram com que uma senhora de 87 anos passasse seus últimos dias angustiada e em um hospital — afirmou, com a voz embargada pela emoção, Nora Boumghait, uma profissional de marketing de 25 anos. — Se isso começou por ela, vai continuar por ela.

O despejo da idosa provocou uma onda de protestos na Espanha, nas últimas semanas, com milhares de pessoas saindo às ruas para denunciar as dificuldades enfrentadas por inquilinos diante do aumento dos custos de moradia e da dificuldade de acesso a uma casa. A pressão fez Sánchez agir às pressas: após dias de protestos em Madri, Barcelona e outras cidades, seu governo aprovou medidas emergenciais, incluindo a suspensão de despejos de vulneráveis até 2030 e o fim da renovação automática dos aluguéis.

O Congresso, porém, rejeitou os dois decretos, o que levou o governo a convocar uma eleição geral para 29 de novembro, antecipando em vários meses uma votação que estava prevista para 2027. Na última terça-feira, Sánchez anunciou que irá apresentar novamente ao Congresso dois decretos sobre habitação, agora com empréstimos de “até 50 mil euros (cerca de R$ 280 mil, na cotação atual) sem juros” para a compra da casa própria. Desta vez, os textos serão debatidos por uma comissão especial, e não pelo plenário de 350 deputados, que os derrubou na última sexta-feira. A derrota levou o líder socialista a antecipar as eleições gerais para 29 de novembro.

Com o objetivo de “combater a especulação”, o premier também anunciou a regulamentação do aluguel por temporada. A ideia é obrigar “os imóveis de aluguel para turistas a pagar impostos como o que realmente são: um negócio, tal como fazem, por exemplo, os proprietários de estabelecimentos hoteleiros no setor de turismo”.

O pacote rejeitado no Congresso previa, entre outros pontos, suspender até 2030 os despejos de inquilinos considerados vulneráveis, prorrogar por dois anos contratos que terminariam antes de 2028 e estabelecer a renovação automática dos aluguéis, sem aumento dos preços. As propostas incluíam ainda aumento de impostos para apartamentos turísticos e restrições à compra de imóveis residenciais por grandes fundos.

A disputa pelo apartamento

Maricarmen viveu 70 anos no mesmo endereço até ser despejada, depois de um aumento expressivo no valor do aluguel. No dia 23 de setembro, ocasião do despejo, ela foi levada diretamente para o hospital, onde a população acompanhava seu estado de saúde. A mobilização em torno do caso transformou a idosa em um dos rostos mais conhecidos da luta contra os despejos na Espanha.

Ela chegou ao apartamento, no bairro do Retiro, em 1956, ainda criança, quando seu pai assinou o contrato de aluguel. Depois da morte dos pais, ela assumiu a locação e permaneceu no mesmo endereço, totalizando 70 anos no local. O conflito começou em 2018, quando o prédio mudou de proprietário. A incorporadora passou a pressionar a aposentada para comprar o apartamento por € 247 mil, valor que ela não tinha condições de pagar. Depois da recusa, foi comunicado um aumento de 275% no aluguel.

O valor, que era de aproximadamente € 500, chegou a ser estabelecido em € 1.650 mensais, enquanto a aposentada recebia uma pensão de cerca de € 1.350. Segundo as informações divulgadas durante a disputa, Maricarmen continuou pagando o aluguel.

O imóvel posteriormente passou para a Urbagestión, e a disputa sobre a validade do contrato foi parar na Justiça. A aposentada, com apoio do Sindicato de Inquilinos, conseguiu decisões favoráveis em diferentes momentos, mas a empresa recorreu até obter uma decisão a seu favor no Tribunal Supremo.

A primeira tentativa de retirar Maricarmen do imóvel ocorreu em outubro de 2025 e foi impedida pela mobilização de vizinhos e integrantes do Sindicato dos Inquilinos. Outras duas tentativas, marcadas para junho deste ano, também foram adiadas. Ao longo do processo, o Comitê da ONU solicitou a suspensão do despejo até que fosse garantida uma alternativa habitacional adequada para a aposentada. Na quarta tentativa, em 23 de setembro, as autoridades foram ao prédio no bairro do Retiro para cumprir a ordem judicial. Vizinhos e ativistas se reuniram no local para tentar impedir a remoção. Por volta das 13h05, Maricarmen foi retirada de maca e levada de ambulância para um hospital devido ao seu estado de saúde. As imagens da operação provocaram forte repercussão no país.

Dias depois do despejo, ainda do hospital, a aposentada enviou uma mensagem aos manifestantes:

“Peço a todos coragem, lutar, defender o que é de vocês”, afirmou em um vídeo publicado pelo Sindicato de Inquilinas e Inquilinos na rede social X.

Problema continental

O caso da aposentada passou a representar um problema mais amplo enfrentado pela Espanha e por vários países europeus. Para especialistas, apesar do déficit habitacional, a crise não se resume à falta de moradias: a transformação de imóveis em ativos financeiros e turísticos reduziu a oferta para moradores e pressionou os preços. Diante do problema, que atinge especialmente a população de baixa renda, jovens, estrangeiros e idosos, cidades como Paris, Praga e Berlim adotaram estratégias diferentes, enquanto a União Europeia começa a buscar respostas comuns para a crise.

A situação tem afetado especialmente jovens, idosos e famílias de baixa renda. Em um dos acampamentos de protesto em Madri, a manifestante Beatríz Blanco relatou a situação de uma mulher de 65 anos que precisou voltar a morar com a filha depois de não conseguir mais pagar o aluguel.

— Não podemos viver, não podemos ter um teto onde ficar. É uma situação completamente insustentável — afirmou.

Fonte: O Globo