
Cuiabá já foi conhecida como “cidade verde”, por conta de sua forte arborização. Nos últimos anos, esse título tem se tornado apenas uma vaga lembrança. Contudo, as árvores vão muito além da sombra e do embelezamento de ruas, praças e parques. Nos centros urbanos, são responsáveis por benefícios que refletem diretamente na qualidade de vida da população.
“A presença das árvores organiza e embeleza a paisagem, reduz riscos de desastres naturais e garante que os centros urbanos sejam mais resilientes, habitáveis e socialmente integrados. Vai além da estética, é essencial para a resiliência climática das cidades”, explica Solange Ikeda Castrillon, professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e doutora em Ecologia e Recursos Naturais.
Segundo a especialista, a importância das árvores no ambiente urbano ultrapassa a questão paisagística. Os benefícios incluem o aumento da infiltração da água no solo, contribuindo para a prevenção de enchentes, a contenção da erosão e a formação de corredores de biodiversidade. No cotidiano da população, a arborização também favorece a filtragem de poluentes, a redução de ruídos e a criação de espaços de convivência e bem-estar.
Alívio para o calor
Em cidades de clima quente, como Cuiabá, a arborização desempenha uma função facilmente percebida no dia a dia: amenizar o calor. De acordo com Solange, a diferença de temperatura pode variar de 2°C a 5°C, enquanto sob uma copa de árvore densa a sensação térmica pode ser de 10°C a 15°C mais amena.
Esse efeito ocorre principalmente por dois mecanismos: o sombreamento e a evapotranspiração. As copas reduzem a incidência direta da radiação solar sobre superfícies como asfalto e concreto, enquanto as folhas liberam vapor d’água na atmosfera, favorecendo o resfriamento do ar.
“As árvores atuam como verdadeiros reguladores térmicos naturais”, frisa a professora.
Árvore certa no lugar certo

Arborizar, porém, exige planejamento. Antes do plantio, é necessário considerar não apenas a espécie escolhida, mas também as características do local onde ela irá se desenvolver.
Segundo Solange, um dos principais cuidados envolve o sistema radicular. A preferência deve ser por espécies com raízes profundas, ideais para preservar as calçadas e redes subterrâneas. O porte da árvore e o formato da copa também devem ser compatíveis com o espaço disponível, especialmente em locais com fiação elétrica e iluminação pública.
A queda de frutos é outro aspecto a ser observado. Em calçadas estreitas ou vias de tráfego intenso, por exemplo, espécies que produzem frutos grandes e pesados não são adequadas.
Entre as espécies nativas citadas pela especialista estão os ipês roxo, amarelo e branco. Entre as frutíferas, há opções como cagaita, araçá, baru, pequi e mangaba, que também servem de alimento para a fauna urbana. A escolha, reforça a professora, deve sempre levar em conta as características e as dimensões do espaço disponível.
Plantar e cuidar

Para Solange, iniciativas de distribuição e plantio de mudas também exercem um importante papel na educação ambiental, ao aproximar a população do cuidado com os espaços em que vive.
“O ato de plantar uma árvore cria pertencimento e reconecta as pessoas aos ciclos da natureza. Quando essas ações são construídas de forma socioparticipativa, a comunidade deixa de ser apenas espectadora e passa a ser agente ativa da restauração ecológica”, afirma.
Verde Novo
Em Mato Grosso, uma das iniciativas voltadas ao fortalecimento da arborização urbana é o Programa Verde Novo, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Idealizado pelo desembargador Rodrigo Roberto Curvo, em 2017, o programa atua na recuperação das florestas urbanas e já distribuiu e plantou mais de 268 mil mudas de espécies nativas e frutíferas do Cerrado em diferentes municípios do estado.





