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População idosa cresce no Brasil e o país precisa de um plano

Foto: Freepik/Drazen Zigic

Pense numa rua comum de um bairro brasileiro. Duas décadas atrás, o barulho vinha das crianças jogando bola na calçada. Hoje, é bem provável que o som mais frequente seja o de uma avó chamando o neto da janela, o de um vizinho de 75 anos regando as plantas ou o de uma tia aposentada que segue trabalhando meio período, porque ainda tem disposição e também contas a pagar.

Essa mudança silenciosa nas famílias revela um fenômeno bem maior: o Brasil está envelhecendo, e num ritmo que poucos países viveram.

Os números que mudaram o retrato do país

Em 2023, pela primeira vez, o Brasil passou a ter mais pessoas com 70 anos ou mais do que crianças pequenas. Para dimensionar o salto: em 1950, havia 4,3 crianças de 0 a 4 anos para cada pessoa com 60 anos ou mais. A projeção para 2100 inverte a conta, com 10 idosos para cada criança dessa faixa etária.

A expectativa de vida acompanha essa curva. Era de 48,5 anos em 1950, chegou a 76 em 2024 e deve alcançar 87 até o fim do século. Quem nasceu em meados do século passado dificilmente imaginaria que seus netos viveriam quase três décadas a mais.

Viver mais é motivo de celebração

Ao falar de envelhecimento, é comum ouvir previsões sombrias, como se um país com mais idosos estivesse fadado ao colapso. Prefiro outro ângulo. Viver mais significa que menos gente morre cedo, que doenças antes fatais passaram a ter tratamento e que saneamento, vacinas e atendimento básico chegaram a mais lares. É um resultado coletivo, construído ao longo de gerações.

O economista Andrew Scott propõe uma distinção útil: há a sociedade apenas envelhecida e há a sociedade da longevidade. A diferença está em como cada país trata seus mais velhos, se como um custo a administrar ou como uma força a aproveitar.

Há evidências de que a segunda opção funciona. Dados da OCDE indicam que, na Europa, cerca de 90% do aumento no número de empregados na última década veio de pessoas com mais de 50 anos. Ao contrário do que muita gente supõe, os mais velhos não esvaziam o mercado de trabalho: ajudam a sustentá-lo.

Não basta somar anos, é preciso somar vida

Aqui está o ponto central. Importa menos quantos anos a pessoa vai viver e mais como vai vivê-los. Especialistas chamam isso de longevidade sadia: o tempo vivido com saúde, autonomia e vontade de participar da vida em comunidade.

Quem mantém a mobilidade, faz acompanhamento de saúde adequado e conta com uma rede de apoio tende a seguir produtivo, a consumir e a contribuir com a sociedade. Quem envelhece sem suporte acaba pressionando hospitais, famílias e o sistema previdenciário. O que separa um cenário do outro são as decisões tomadas hoje, não as de daqui a três décadas.

Previdência é só uma parte da conversa

Quando o tema é envelhecimento, o debate costuma parar na aposentadoria. A sustentabilidade das contas é legítima e urgente, mas sozinha não dá conta da vida real de quem envelhece. Um plano sério precisa olhar para ao menos cinco frentes.

Saúde. O sistema precisa estar preparado para cuidar de doenças crônicas, prevenir quedas, ampliar o acesso a geriatras e fortalecer a atenção primária e o cuidado domiciliar. Prevenir sai mais barato e é mais humano do que remediar.

Habitação. Escadas sem corrimão, banheiros escorregadios e ruas sem acessibilidade transformam o lar num risco. Programas de adaptação de moradias, opções para quem vive sozinho e incentivos a projetos acessíveis fazem diferença concreta.

Transporte e mobilidade. Calçadas regulares, semáforos com tempo suficiente para atravessar, ônibus de piso baixo e estações acessíveis garantem que a pessoa continue frequentando a padaria, a consulta e a casa dos amigos. Sem mobilidade, a autonomia vai embora antes da saúde.

Lazer e convivência. A solidão adoece. Praças bem cuidadas, centros de convivência, atividades culturais e esportivas e programas entre gerações ajudam a manter os vínculos e a saúde mental.

Trabalho. Quem quer ou precisa continuar trabalhando deve poder fazê-lo, com jornadas flexíveis, combate ao preconceito etário e oportunidades de requalificação. A permanência voluntária no mercado é um caminho para colher o chamado dividendo da longevidade: o ganho econômico e social de ter uma população mais velha e mais saudável.

O clima também entra na conta

Há ainda um fator novo. Uma pesquisa da Universidade de Michigan com pessoas acima de 50 anos mostrou que 74% haviam vivido ao menos um evento climático extremo recentemente. Entre elas, 59% temem os efeitos do clima sobre a própria saúde, e 74% se preocupam com o impacto sobre as gerações futuras.

Não é exagero. Idosos sofrem mais com ondas de calor e com a poluição, que agrava problemas respiratórios. Um plano de adaptação climática que ignore esse grupo deixa de fora justamente a parcela da população que mais cresce.

A decisão que não pode esperar

A transição demográfica brasileira já está em curso, é mensurável e, em boa parte, irreversível. A pergunta não é se o país vai envelhecer, mas se vai envelhecer bem.

Isso exige políticas públicas claras, com metas, orçamento e responsáveis definidos, que conversem entre si em vez de funcionarem em gavetas separadas. Previdência, saúde, habitação, transporte, lazer, trabalho e clima precisam estar no mesmo desenho, porque na vida de uma pessoa de 75 anos tudo isso acontece ao mesmo tempo, no mesmo dia.

O Brasil tem a chance de transformar uma mudança demográfica inédita em um projeto de país mais digno e mais humano. Todos nós estamos a caminho dessa fase.

Planejar para os mais velhos de hoje é, no fundo, cuidar de quem seremos amanhã.

Fonte: EcoDebate