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Menos jovens, mais idosos: como o envelhecimento do país se tornou uma conta inescapável

Reprodução

“O Brasil corre o risco de envelhecer antes de ficar rico.”

A sentença em tom de alerta se tornou um lugar-comum ao longo da última década ao tratar da urgência do país de aproveitar o chamado bônus demográfico, ou seja, o período em que a população em idade economicamente ativa é maior do que a dependente, formada por crianças e idosos, o que favorece o crescimento da economia.

Para o próximo governo, seja quem vencer as eleições neste mês de outubro, essa transição estará cada vez mais iminente e vai exigir de políticas públicas voltadas a endereçar esse fenômeno demográfico – como atendimento em saúde mais abrangente para esse público com demandas específicas, de geriatras a fisioterapeutas – a uma possível nova reforma da previdência, como já defendem muitos economistas, como o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga.

A reportagem é a terceira da série Desafios do Brasil, que trata de questões fundamentais para o desenvolvimento do país para os próximos anos e décadas – e para os próximos governos.

As projeções indicam que o encerramento da janela do bônus demográfico já estão “ali na esquina”, daqui a menos de uma década, conforme o recorte estatístico.

Em 2034, o número de brasileiros de 16 a 59 anos – a faixa que corresponde à idade economicamente ativa – deverá chegar ao nível máximo de 134,6 milhões e, depois, começar a cair.

Essa população cresceu em cerca de 30 milhões entre 2000 e 2026. Nos oito anos seguintes, deverá ganhar apenas mais 900 mil pessoas.

Durante décadas, houve cada vez mais gente chegando à idade em que a maioria da população trabalha. Esse crescimento ajudava a ampliar a produção do país e a gerar riquezas, mesmo sem grandes ganhos no que cada trabalhador produzia. Mas isso está perto do fim.

A parcela de pessoas de 16 a 59 anos na população total, por sua vez, já diminui desde 2016. O pico previsto para 2034 marca o momento em que também começará a cair o número absoluto de pessoas nessa faixa etária.

Isso não significa que o número de trabalhadores cairá exatamente naquele ano. Nem toda pessoa de 16 a 59 anos está ocupada, e muitos brasileiros continuam trabalhando depois dos 60. Mas a mudança reduz a margem para o país crescer apenas com a entrada de mais pessoas em idade de trabalhar. Ganham importância a produtividade, a formação profissional e as condições para que quem deseja trabalhar consiga fazê-lo.

Na origem dessa transformação está a queda da fecundidade. Em 2023, a taxa brasileira era de 1,57 filho por mulher, segundo a projeção mais recente do IBGE, abaixo dos cerca de 2,1 necessários para repor uma geração no longo prazo.

Em 2024, foram registrados 2,38 milhões de nascimentos, 5,8% menos que no ano anterior. Ao mesmo tempo, a população com 60 anos ou mais passou de 22 milhões em 2012 para 34,1 milhões em 2024.

Mais velho, mas ainda não rico

E o Brasil envelhece sem ter alcançado o estágio de nação rica e desenvolvida.

O Brasil ainda é classificado pelo Banco Mundial como país de renda média alta. Uma comparação da OCDE mostra a velocidade do envelhecimento: em 2024, havia no Brasil 17,7 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 habitantes de 20 a 64 anos.

A projeção para 2054 é de 43,1, acima da relação observada na França em 2024, de 40,2. Veja que se trata de uma comparação entre faixas etárias, não entre contribuintes e aposentados.

Ocupações para os mais velhos

Com menos jovens entrando no mercado, as empresas terão de produzir mais por hora trabalhada e adaptar funções a carreiras mais longas e que dependem mais do conhecimento, o que dialoga com a era da IA. Mas isso está longe de ser uma tendência da economia brasileira.

Outra reportagem da série Desafios do Brasil, do InvestNews, mostrou a distância entre essa necessidade e a situação da indústria: máquinas antigas e investimento caro dificultam a renovação da produção.

A formação profissional precisará acompanhar carreiras que podem se estender por mais tempo. Cursos e programas de qualificação terão de alcançar também quem já está empregado e precisa aprender novas funções.

Na educação básica, a redução do número de crianças exige que governos acompanhem onde as matrículas devem cair, reorganizem a oferta de escolas e usem a mudança para melhorar o ensino.

Mais velhos no mercado de trabalho

A equação para o Brasil que envelhece e precisa crescer passa por algumas frentes. Uma delas, como citado acima, é criar empregos para quem já passa da idade economicamente ativa mas ainda quer ou precisa continuar trabalhando por causa da renda.

Parte da população mais velha já está no mercado. Em 2024, uma em cada quatro pessoas ( 24,4%) com 60 anos ou mais estavam ocupadas, segundo o IBGE.

A possibilidade de trabalhar por mais tempo depende da saúde, dos empregos disponíveis e da adaptação das funções. Depende também de serviços de cuidado: há quem poderia aceitar um emprego ou trabalhar mais horas, mas precisa assistir diariamente um familiar.

O desafio é organizar o atendimento para uma população que viverá mais tempo. Um brasileiro que completou 60 anos em 2024 tinha, em média, mais 22,6 anos de vida pela frente.

O aumento da população idosa exigirá acompanhamento de doenças crônicas, prevenção de quedas e reabilitação. Para o SUS, isso envolve atendimento perto de casa e continuidade entre consultas, hospitais e cuidados domiciliares.

O envelhecimento mudará ainda o que as pessoas consomem e onde precisam encontrar serviços. Em 2025, 19,7% dos domicílios brasileiros tinham apenas um morador, ante 12,2% em 2012, segundo o IBGE.

Entre as mulheres que moravam sozinhas, 56,5% tinham pelo menos 60 anos. Viver sozinho não significa precisar de assistência. Aumenta, porém, a importância de ter comércio, transporte e atendimento de saúde acessíveis perto de casa e adaptados aos mais velhos.

Aposentadorias e saúde no orçamento

A Previdência apresenta uma das contas mais diretas do envelhecimento, dado que as contribuições dos trabalhadores ajudam a pagar aposentadorias e pensões. Como a arrecadação não cobre todos os benefícios, a diferença é financiada pelo orçamento federal.

Um estudo do Ipea já abordado pelo InvestNews calculou que, em 2022, havia quase dois contribuintes para cada pessoa que recebia um benefício.

O pesquisador Rogério Costanzi, coautor da projeção, alertou na ocasião que “a sociedade está envelhecendo mais rápido do que se esperava”. A relação depende também do emprego formal e da contribuição de quem trabalha por conta própria.

Nas projeções que acompanham a proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, a diferença entre receitas e despesas da Previdência dos trabalhadores da iniciativa privada equivale a 2,49% do PIB em 2026. Pelas contas do governo, ela cairia para 1,45% em 2030, antes de voltar a subir e chegar a 3,79% em 2050.

Essas estimativas dependem de hipóteses sobre crescimento, salários, arrecadação e benefícios. A redução projetada para os próximos anos dá ao governo eleito um período para discutir o financiamento do sistema antes que a pressão volte a aumentar.

Uma nova reforma que possivelmente eleve a idade mínima de aposentadoria pode ser uma questão inadiável, segundo defendem economistas como Arminio. A reforma aprovada em 2019 fixou a idade mínima de 62 anos para mulheres e de 65 anos para homens, além de pelo menos 15 a 20 anos de contribuição a depender de certos casos. E com exceções para certas categorias que podem ter que ser rediscutidas.

Uma cidade em que seja possível envelhecer

As necessidades de uma população mais velha ultrapassam os serviços de saúde. Uma pessoa pode estar apta a trabalhar e levar sua vida sozinha, mas encontrar uma calçada intransitável, dispor de pouco tempo para atravessar a rua ou ter dificuldade para embarcar no ônibus se tornam desafios reais. E o Brasil, como sociedade, precisa se adaptar a elas por meio de políticas públicas e iniciativas privadas.

Moradias, ruas e transporte influenciam por quanto tempo uma pessoa idosa consegue circular com autonomia. A Organização Mundial da Saúde inclui esses elementos entre os critérios de uma cidade preparada para o envelhecimento.

Há também idosos que precisam de ajuda diária. Alberto Luís Araújo Silva Filho, pesquisador do Ipea, encontrou centros de atendimento diurno em menos de 20% dos municípios entre 2019 e 2023, considerando os serviços registrados na rede de assistência social.

Entre as instituições de longa permanência estudadas, cerca de 30% não tinham acesso fácil ao transporte público. Segundo ele, o modelo de cuidado apoiado principalmente nas mulheres da família está “cada vez mais fragilizado”.

O Brasil aprovou uma Política Nacional de Cuidados em 2024 e instituiu um plano para implementá-la. O próximo governo terá de definir o ritmo de expansão dos serviços, a formação de profissionais e a divisão do financiamento com estados e municípios.

Também precisará considerar o envelhecimento nos planos de saúde, habitação e mobilidade, cujas decisões são tomadas em diferentes esferas de governo.

O mandato que começa em 2027 termina antes do pico projetado para a população de 16 a 59 anos. Até 2030, o governo poderá identificar onde a demanda por escolas vai diminuir e onde crescerá a necessidade de cuidados, preparar a rede de saúde e discutir a trajetória da Previdência.

São decisões que levam anos para produzir efeito – e que determinarão em que condições o país chegará a 2034.

Fonte: InvestNews