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Aos 80, Maria Bethânia segue libertária e reinventora do Brasil

Maria Bethânia completa 80 anos nesta quinta (18). Em homenagem, José Carlos Capinan relembra a convivência com ela desde o começo dos anos 1960, em Salvador, ainda antes da explosão nacional da cantora com o show “Opinião”. Rio inesgotável, que jorra muito além dos domínios da música, Bethânia alargou os estreitos caminhos de todos nós, escreve o poeta.

Tanta coisa pode definir Maria Bethânia. E nada será conclusivo. Aos 80 anos, ela tem uma permanente presença em nossa vida brasileira, que se identifica com a passagem de um inesgotável rio, e esse contínuo foi uma religiosa ação de devotamento à palavra, à religião da palavra, à sua liturgia e dramaturgia, que é exatamente a poesia.

Falar sobre Bethânia é atrevimento, tanto esse nome significa, tanto seu canto e sua arte simbolizam, tantos valores e sentimentos despejou em nossos caminhos, antes estreitos e hoje tão largos, desde sua voz e seus gestos.

Muito do que somos é consequência do que ela é, pois ofício e vida em Bethânia são a mesma coisa. Sua presença alterou os padrões de nossa sensibilidade, da percepção, do conhecimento do que somos. Sua postura foi determinante na emergência de novos comportamentos.

Ela ressignificou legados conservadores da arte brasileira, reposicionou valores críticos, moveu estruturas e signos com força suficiente para desconstruir montanhas de preconceitos sociais e alterar padrões de interpretar e ouvir canções, célula básica do nosso sistema de comunicação sociocultural, na sua expressão mais dinâmica, democrática e revolucionária: a música popular.

Criou uma imensidão de plateias porque com sua voz emergiram novas gerações de brasileiros que não eram representados nos padrões em que a redutora identidade nacional escamoteava a verdadeira diversidade oculta nos tecidos sociais. Iansã libertária, trouxe à tona um Brasil maior e diverso, que ela canta com um repertório tão plural e dialético.

Na Bahia, integrei o CPC (Centro Popular de Cultura) e escrevi meu primeiro texto musical, o “Bumba Meu Boi” (com Tom Zé) em 1963, o mesmo ano em que Bethânia e Caetano Veloso estrearam na peça “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues, dirigidos por Alvinho Guimarães.

Quando conheci Bethânia, ela andava com a atriz Anecy Rocha, irmã de Glauber, e cantava “Asa Branca”. Levava nas mãos um romance e declarava morrer de paixão por sua autora, Clarice Lispector.

Falou apaixonadamente sobre essa obra que sinalizava a atmosfera transformadora vivida nos jardins do Palácio da Aclamação, onde estava engastada uma oficina de espíritos rebeldes, o Teatro dos Novos, sob o comando do diretor João Augusto. Seus biógrafos por certo relembrarão o show “Nós, por Exemplo”, no Teatro Vila Velha, em 1964.

Bethânia nasceu em fecundo ventre cultural: o recôncavo baiano, onde a economia do açúcar e a estrutura do engenho permitiram acumular riquezas materiais e também valores culturais intangíveis.

A relação de personagens do recôncavo que ocupam a galeria de brasileiros importantes nos diversos setores da vida nacional corrobora o que eu digo: fossem descendentes da nobreza, da burguesia comerciante, do clero ou ainda de escravos, é imenso o número de homens e mulheres notáveis em artes e ofícios, como medicina, arquitetura, engenharia, poesia e música.

A economia obrigava a democratizar saberes e formas de fazer, popularizando a mestria em ofícios e artes, gerando uma sociedade de fazedores e inventores. Ainda assim é Santo Amaro, terra de Bethânia e Caetano, estranha flor da linguagem nascida da mescla entre a sacristia e as ruas, a casa grande e a senzala. O sagrado não limitou a força do profano e vice-versa, cresceram juntos no coração do povo e procriaram.

O rio Subaé agoniza, mas Santo Amaro está viva ainda lá e no mundo inteiro. O indomável espírito de seus artistas e pensadores continua cantando esse amor telúrico pela tradição, por essa linguagem liberta que respeita as crenças e as religiões, mas não lê a Bíblia do conformismo social nem religioso, muito menos estético, gastronômico e amoroso. Vai do Bembé [cerimônia do candomblé] ao bem que é viver livre e fogoso, dizendo amém ao santo, mas acreditando que o diabo é bem humano.

Do que não fala Bethânia? Em sua extraordinária produção, o que escapou de sua sensibilidade? Milhares de interpretações já fez, quebrando recordes do mercado para uma cantora—”Álibi”, disco de 1978, atingiu a marca de 1 milhão de cópias vendidas—, interpretando a numerosa diversidade brasileira sem falsear nenhum sotaque.

Quando, aparentemente, o estuário de suas águas havia se estancado, por decreto das gravadoras tradicionais, ela retomou sua carreira de modo independente com “Maricotinha”, pela Biscoito Fino, em 2002. Sacudiu a morna produção da indústria fonográfica.

Intérprete autêntica, sabe o que diz, escolhe o que quer dizer, e oferece em seu repertório a fidelidade à reinvenção permanente de brasis desconhecidos, oprimidos ou esquecidos. Insubmissa intérprete, resistiu às gravadoras e não permitiu a substituição de sua escolha por oportunismos mercadológicos. É intérprete autoral, como foram Nara Leão e Elis Regina, difícil postura ante os dragões do marketing.

Muita coisa foi revolucionada na sociedade brasileira a partir da década de 1960 pela geração que emergiu nos festivais. A MPB não havia quebrado o recorde de 100 mil cópias de discos. A música estrangeira ocupava mais de 70% da programação musical das rádios e não havia legislação do direito autoral.

A acústica da MPB era preconceituosa e limitada por uma noção estreita de identidade cultural, um viés nacionalista rompido pelo tropicalismo. Nos 60 anos da carreira de Maria Bethânia, conceitos e números foram alterados. E ela tem muito a ver com esses avanços.

Em 1965, eu a vi estreando no Teatro Opinião ao lado de seu amigo e admirador Glauber Rocha. Ele, inquieto, dizia nervoso: “Eles vão desmitificar Bethânia”. O profeta não acertou. O temor de Glauber era o temor de um amigo numa nervosa noite de estreia. Ali nasceu um mito. Ali se revelou uma força matricial no reino em que dominam as mulheres, inesgotável força de invenção e sustentação da linha revolucionária da MPB.

Nasceu amada por Vinicius de Moraes e Ferreira Gullar, poetas maiores, e também por Vianinha, Paulo Pontes, João do Vale, Zé Kéti, Nelson Xavier, Tereza Aragão, Suzana de Moraes, Macalé e todos nós, sua plateia imensa.

Desde “Cirandeiro” (com Edu Lobo), agradeço a presença de Maria Bethânia no meu percurso. É uma canção que revela meu primeiro cinema, meu ingênuo olhar para o amor e as estrelas, na forma cabocla das cirandas.

Ainda tenho a visão que escreveu “O Tempo e o Rio” (outra com Edu), e como é importante para a poesia ter intérpretes que saibam oferecer nossas palavras servindo a elas com total entrega e paixão.

Sua dramaturgia foi capaz de mostrar um lado forte do Brasil que não tinha a visibilidade de agora —a determinação dos cava-mundo, dos bate-mundo, dos viramundo. Ela se antecipou como vaticinadora da saga nordestina.

O poeta precisa de quem entenda e estenda seus versos. Maria Bethânia é uma extensão da poesia, a ponte que vai de mim para o outro. “Viramundo” (com Gilberto Gil), “Cirandeiro” e “O Tempo e o Rio” são momentos inaugurais da minha trajetória de poeta e dos encontros com a voz de Bethânia.

Em 1966, com Caetano e Torquato Neto, escrevi o roteiro de seu show “Pois É”, dividido com Gil e Vinicius, no Opinião, sob a direção musical de Francis Hime. Ainda vejo seu olhar preso num horizonte humano que só ela vê e nos obriga a olhar quando focaliza um ponto distante, levanta as mãos e anuncia: “Ainda viro esse mundo em festa, trabalho e pão”.

Ela foi a garantia do ponto de partida e esteve no momento mais dramático do meu percurso, como se, para poder recuperar a alma quase perdida nas tormentas, houvesse a sua calma presença em “Movimento de Barcos” (com Macalé), poema escrito numa hora de solidão militante, com a prisão, o exílio e a morte de tantos companheiros, na ditadura militar.

O disco “Brasileirinho” foi mais um marco de Bethânia, em 2003. Nele, “Yáyá Massemba”, minha canção com Roberto Mendes, é o reencontro do narrador com sua avó negra, filha de escravos, reencontro do narrador consigo, já não só mulato, caboclo, mas brasileirinho feliz num barco onde as ondas de Iansã o vão levando, ele já sem mãe nem pátria, reorganizando seu exército de emoções e adoçando suas fraturas.

E seria ainda Bethânia quem me daria o mote desses versos de “Beira-mar”: “Dentro do mar tem rio,/ Dentro de mim tem o que/ Lágrima, chuva, aguaceiro”.

Sou poeta. E não há poeta que não admire Maria Bethânia, porque ela lê e interpreta os poemas com a emoção de quem os compreende. De quem sustenta o voo do condor e do colibri.

Sua emoção épica, lírica ou dramática expande, como um epifenômeno, as ondas da poética que lê. Aos 80 anos, Bethânia continua sendo uma estrela libertária, intérprete universal de seu país.

Fonte: Folha de S. Paulo