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Um robô pode cuidar de um idoso melhor que um ser humano?

Enquanto se discute a possibilidade de usar robôs para ajudar no cuidado com idosos, questões como crise climática, guerras, deslocamentos populacionais e desigualdades econômicas desafiam o futuro do cuidado Foto: StockPhotoPro/Adobe Stock

A pergunta parece saída de um filme de ficção científica. Mas talvez esteja mais próxima do que imaginamos. No último Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, no começo do ano, Elon Musk disse apostar em um futuro no qual os robôs farão cada vez mais parte da vida cotidiana — e chegou a projetar um mundo em que eles poderão superar em número os eletrodomésticos.

É tentador imaginar o que isso significaria para o envelhecimento. Um robô poderia lembrar o horário dos medicamentos, acompanhar sinais vitais, identificar uma queda, chamar ajuda, conversar com uma pessoa que mora sozinha, auxiliar na locomoção ou até mesmo realizar tarefas domésticas.

Na gerontologia existe um campo chamado gerontecnologia, dedicado justamente a pensar como conhecimentos tecnológicos podem ser utilizados para promover saúde, autonomia, segurança e qualidade de vida na velhice. Telemonitoramento, dispositivos vestíveis, sensores, tecnologias assistivas e ferramentas de comunicação já fazem parte desse universo.

Porém, não podemos confundir companhia tecnológica com pertencimento. Uma sociedade que tenta lidar com o isolamento social colocando um robô dentro da casa de uma pessoa talvez consiga resolver o problema do silêncio, mas não necessariamente o da solidão. O mesmo vale para o preconceito, a pobreza e as desigualdades de acesso à saúde.

O Japão é frequentemente lembrado quando falamos da combinação entre envelhecimento e inovação, já que desenvolve soluções tecnológicas voltadas para uma população que envelhece rapidamente, incluindo robôs e tecnologias assistivas para o cuidado. Mas existe uma contradição importante nessa história. Enquanto a população japonesa envelhece e a proporção de pessoas jovens diminui, o país também enfrenta desafios relacionados à imigração e à disponibilidade de trabalhadores para determinadas atividades, inclusive o cuidado de pessoas idosas.

Nesse contexto, não podemos olhar para o envelhecimento apenas como um problema de eficiência. Há uma enorme diferença entre perguntar “como conseguiremos cuidar de mais pessoas idosas?” e “como construiremos uma sociedade capaz de cuidar de mais pessoas idosas?”.

O envelhecimento populacional não acontece isoladamente. Ele acontece em um planeta que enfrenta crise climática, guerras, deslocamentos populacionais, desigualdades econômicas e uma crescente concentração de riqueza e tecnologia.

Por isso, quando alguém afirma que haverá mais robôs do que eletrodomésticos, talvez seja necessário acrescentar algumas perguntas sobre o custo e os impactos ambientais dessas medidas. Nesse sentido, é possível que estejamos construindo máquinas cada vez mais sofisticadas para cuidar de uma população que envelhece enquanto degradamos as condições ambientais necessárias para que essa população — e as próximas — tenha um futuro. Não é incoerente?

E esse não é um debate para demonizar a tecnologia. É fundamental desenvolver melhores sistemas de telemonitoramento, tecnologias assistivas, ferramentas de prevenção de quedas, dispositivos para pessoas com demência, soluções para pessoas que vivem sozinhas e recursos que permitam que pessoas idosas permaneçam mais tempo autônomas em suas casas, incluindo a opção por robôs como parte de uma rede de cuidado.

Mas uma tecnologia só será verdadeiramente inovadora se estiver a serviço de uma sociedade melhor — e não se for utilizada como desculpa para uma sociedade que deixou de cuidar.

Há algumas décadas, Hollywood imaginou um futuro em que as máquinas se tornariam tão poderosas que se voltariam contra nós. Arnold Schwarzenegger ajudou a transformar O Exterminador do Futuro em uma das imagens mais conhecidas desse medo. No primeiro filme, ele interpreta um robô enviado ao passado para matar a protagonista. Já no segundo, seu personagem é reprogramado e passa a proteger o filho da protagonista justamente contra outro exterminador.

Divagações à parte, penso que podemos aproveitar o que a tecnologia tem de melhor para proteger a sociedade, incluindo a população que envelhece em ritmo acelerado. Mas não dá para perder de vista que a construção de comunidades em que ninguém precise envelhecer sozinho depende muito mais de nós do que da evolução das máquinas.

Foto do autor
Por Milton Crenitte – Médico geriatra, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor em longevidade