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Preocupação com dinheiro envelhece o coração mais rápido que o cigarro, mostra novo estudo

Pessoas que relatam angústia financeira têm 60% mais risco cardíaco — Foto: Freepik

Viver com pressão financeira e insegurança alimentar são os principais fatores associados a um envelhecimento biológico acelerado do coração e aumento da mortalidade, mais até mesmo do que os fatores de risco tradicionais, como idade, peso e hipertensão. É o que mostra um novo estudo de pesquisadores da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, publicado na revista científica Mayo Clinic Proceedings.

O trabalho buscou avaliar o impacto cardíaco dos determinantes sociais da saúde (DSS), um conceito que aborda as condições em que as pessoas nascem, trabalham e vivem e seus impactos na saúde. São fatores econômicos, sociais, ambientais e culturais, como renda, educação, habitação, condições de trabalho e acesso a serviços de saúde.

Para isso, os cientistas analisaram dados de 280.323 americanos com mais de 18 anos que buscaram atendimento em uma das unidades ligadas à Mayo Clinic nos estados de Minnesota, Arizona e Flórida entre 2018 e 2023.

Os pacientes preencheram questionários com perguntas sobre nove domínios (estresse, atividade física, conexão social, instabilidade habitacional, dificuldade financeira, insegurança alimentar, necessidades de transporte, nutrição e escolaridade) e realizaram um eletrocardiograma, exame que que registra a atividade elétrica do coração por meio de eletrodos na pele.

Para estimar a idade biológica do coração, eles desenvolveram um algoritmo de inteligência artificial (IA) que utiliza o eletrocardiograma para fazer uma estimativa. A ferramenta foi criada anteriormente com base nos resultados de quase 775 mil exames feitos pela Mayo Clinic e validada internamente. Uma lacuna maior entre a idade cardíaca e a cronológica significa um coração biologicamente mais velho, com mais risco de doença cardiovascular e morte, afirmam os responsáveis.

Além disso, os pesquisadores coletaram dados para mapear os fatores de risco cardíaco tradicionais, como idade, gênero, peso, etnia e histórico de hipertensão, diabetes e tabagismo. Com isso, conseguiram relacionar as determinantes sociais da saúde e os fatores de risco convencionais com a lacuna de idade do coração apontada pelo eletrocardiograma.

Os principais resultados foram que a interação dos DSS foi o fator mais influente para o envelhecimento cardíaco quando comparada aos fatores de risco clínicos tradicionais. Entre todos os determinantes, dificuldade financeira e insegurança alimentar foram os mais significativos.

— Já sabíamos que as populações mais vulneráveis são mais sujeitas aos fatores de risco cardíacos, até por dificuldade de acesso aos serviços de saúde, à informação. E agora o estudo identifica numa amostragem de quase 300 mil pessoas esse impacto. Isso chama atenção e ajuda a melhorar a nossa estratificação de risco dos pacientes e identificar problemas de forma precoce — avalia Carlos Alberto Machado, assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

No estudo, ao longo de dois anos, pessoas que relataram dificuldades financeiras tiveram um risco de morte 60% maior. Para fins de comparação, ter sofrido um infarto anterior foi associado a um aumento de 10%, e o tabagismo a um aumento de 27%, na mesma análise.

— Durante muitas décadas, aprendemos que o coração envelhece por causa da pressão alta, do colesterol elevado, do diabetes e do tabagismo. Esses fatores continuam sendo fundamentais para a saúde do coração. Contudo, temos ampliado um pouco a visão sobre as condições socioeconômicas. O estudo vai nesse sentido ao demonstrar que algumas condições sociais podem influenciar o envelhecimento cardíaco tanto quanto, ou até mais, que doenças tradicionais — diz Sarah Fagundes Grobe, cardiologista membro do comitê de comunicação da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Esses achados são relevantes especialmente no contexto em que as doenças cardiovasculares são as que mais matam no mundo e no Brasil. Segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, em 2024 foram registrados 398.605 óbitos por doenças do aparelho circulatório no país, o que corresponde a 26% do total. Em 2025, dados parciais apontam que foram 237.501 mortes do tipo apenas até agosto.

— Se o tratamento da hipertensão envolve comida com pouco sal, atividade física, então imaginamos que a população mais vulnerabilizada, que têm dificuldade de fazer exercício por morar em áreas de risco, de comer melhor, porque ultraprocessado é mais barato, tem maior risco. Mas é importante termos dados objetivos para apoiar políticas sociais. Vemos muitas vezes questionamentos de políticas públicas, e esses dados ajudam a corroborar a importância delas para a saúde da população — afirma Aurora Issa, diretora do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), unidade de referência do Ministério da Saúde.

A vasta maioria dos brasileiros (87%), por exemplo, diz priorizar o bem-estar, mas devido a fatores como salário, tempo e trabalho, somente 33% conseguem investir de forma regular e contínua em serviços ligados ao autocuidado. Entre aqueles da classe DE, o cenário é pior: 35% investem apenas de forma ocasional, e 25% não investem nada por falta de condições financeiras, mostrou uma pesquisa conduzida pelo Instituto Locomotiva, em parceria com a QuestionPro, realizada no ano passado.

Para Luís Beck, chefe do serviço de Cardiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), há também um papel do estresse contínuo a que pessoas com dificuldades financeiras estão submetidas:

— Sempre pensamos no estresse de uma forma mais banal, mas o estudo mostra que, entre pessoas que vivem preocupadas com sua situação financeira, ele efetivamente pode contribuir para o surgimento de doenças cardíacas. É algo extremamente pertinente para o Brasil.

Limitações e IA

O novo estudo da Mayo Clinic foi conduzido nos EUA, com uma população predominantemente branca. Por isso, é preciso ter cautela ao extrapolar os resultados para o contexto brasileiro. Ainda assim, os especialistas afirmam que as conclusões estão alinhadas ao que se observa no país, e que devem chamar ainda mais atenção no cenário de desigualdade acentuada do Brasil.

Aurora, do INC, conta que o observatório do instituto cruzou dados do Índice Brasileiro de Privação, que é um indicador social de desigualdade, com as informações internas de mortalidade por infarto agudo de miocárdio de 2019 e viu que a mortalidade subiu de 8,79 óbitos para cada 100 internações, entre o grupo menos privado, para 12 mortes a cada 100 hospitalizações entre os mais privados.

Para os especialistas, esses dados reforçam que as determinantes sociais deveriam ser mais relevantes na elaboração de diretrizes, protocolos e políticas públicas na área cardiovascular.

— Do ponto de vista médico, precisamos prestar mais atenção às questões socioeconômicas do paciente para estimar o seu risco. Mas é importante para pensar políticas públicas que busquem mais emprego, moradia estável, mais transporte. É todo um emaranhado social que precisa melhorar para o paciente ter uma saúde cardíaca melhor. E serve como comprovação de que políticas públicas que melhorem a instabilidade de moradia, a financeira, também trazem saúde para as pessoas — diz Beck.

Algumas mudanças têm sido implementadas nesse sentido. Sarah, da SBC, lembra que as últimas diretrizes de saúde cardiovascular da mulher do Brasil pontuam que o público feminino sofre mais violência sexual, por exemplo, e que esse acaba sendo um fator de risco cardíaco sub-reconhecido. Além disso, nos EUA, a diretriz de aterosclerose mais recente considera o local em que o paciente mora na estratificação de risco, por entender que viver em periferias eleva as chances de um problema do tipo.

— É uma mudança de paradigma que está acontecendo no mundo, e isso é muito importante. Quando falamos sobre determinantes sociais e damos maior valor a eles não significa diminuir o tratamento da hipertensão, do colesterol, mas sim ampliar o olhar. A saúde cardiovascular não é apenas resultado de escolhas individuais, de estilo de vida. Tem relação com as oportunidades de cada um. Então precisamos perguntar para o paciente sobre a dificuldade de pagar as contas, de acessar uma alimentação balanceada, pode ser tão relevante quanto aferir a pressão arterial, medir o colesterol — defende Sarah.

Os especialistas também destacam o pioneirismo no uso de IA para estimar o envelhecimento cardíaco a partir de eletrocardiogramas. A ferramenta ainda precisa ser testada mais extensamente para se tornar um marcador oficialmente usado na prática clínica, mas mostra os potenciais da tecnologia na medicina, diz Beck:

— A IA é uma via sem volta, tem muito potencial. A demora depende de quantos populações diferentes poderão ser testadas com essas tecnologias até chegarmos à conclusão de que ela é confiável para representar aquela variável que ela busca estimar. Eu diria que de 5 a 10 anos vamos ter novas tecnologias do tipo se sedimentando como um uso recorrente.

Fonte: O Globo