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O equilíbrio pode definir seu futuro

Exercícios podem ajudar a manter a sustentação do corpo — Foto: Magnific

Imagine uma pessoa de 82 anos caminhando sozinha até a padaria, carregando suas compras, viajando, brincando com os netos e subindo escadas sem medo. Agora imagine outra, da mesma idade, que evita sair de casa porque teme sofrer uma queda. Muitas vezes, a diferença entre essas duas histórias não está apenas na força ou na saúde do coração, mas apenas na capacidade de se equilibrar.

Quando pensamos em longevidade, falamos muito de colesterol, glicemia, alimentação e atividade física. Tudo isso é importante. Mas essa habilidade de se sustentar pode determinar se viveremos mais anos com autonomia ou dependência. O equilíbrio é um dos maiores preditores da independência funcional.

As quedas estão entre as principais causas de hospitalização, incapacidade e morte por lesões em pessoas acima dos 65 anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de um terço dos idosos sofre pelo menos uma queda por ano. Mais preocupante do que a fratura é o que acontece depois: surge o medo de cair novamente. A pessoa passa a andar menos, perde força, condicionamento, confiança e autonomia. Forma-se um círculo vicioso que acelera o envelhecimento.

O nosso equilíbrio depende da integração de três sistemas do corpo: a visão, o sistema vestibular, localizado no ouvido interno, e a propriocepção, formada por receptores nos músculos, tendões e articulações que informam ao cérebro onde cada parte do corpo está. Em frações de segundo, o cérebro integra essas diferentes informações e aciona os músculos para corrigir qualquer instabilidade.

Com o passar dos anos, todos esses sistemas vão perdendo a eficiência. A visão fica menos precisa, a velocidade de processamento diminui, o ouvido interno envelhece, a sensibilidade das articulações é reduzida e ainda ocorre perda de força e potência muscular. Felizmente, o cérebro mantém sua capacidade de adaptação. A neuroplasticidade continua existindo mesmo em idades avançadas.

É exatamente por isso que treinar equilíbrio funciona. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o American College of Sports Medicine, dos EUA, recomendam que pessoas com 65 anos ou mais incluam exercícios de equilíbrio pelo menos três vezes por semana.

Vale caminhar? Claro. Mas caminhar, apenas, talvez não seja suficiente. O cérebro precisa ser desafiado. Exercícios em um pé só, musculação com movimentos unilaterais, dança, tai chi chuan, pilates, subir escadas e mudanças de direção durante a caminhada estimulam o sistema nervoso a responder mais rapidamente diante de um tropeço.

Você pode fazer um teste simples em casa. Descalço e próximo a uma parede, fique apoiado em apenas uma perna, braços cruzados e olhando para a frente. Faça o teste dos dois lados. Adultos saudáveis geralmente conseguem permanecer cerca de 30 segundos. Após os 70 anos, manter-se por mais de 20 segundos continua sendo um excelente resultado. Um estudo publicado na revista científica British Journal of Sports Medicine mostrou que pessoas incapazes de permanecer 10 segundos nessa posição apresentavam maior risco de mortalidade nos anos seguintes. O teste não pode ser considerado um diagnóstico, mas funciona como um alerta para cuidar melhor dessa capacidade.

Talvez esteja na hora de tratarmos o equilíbrio como tratamos a pressão arterial: medindo, acompanhando e treinando antes que apareçam os problemas. Afinal, viver mais é uma conquista da medicina. Continuar andando com segurança, viajando, abraçando os netos e preservando a liberdade de fazer as próprias escolhas será sempre uma conquista dos hábitos.

Fonte: O Globo