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‘Músculo é patrimônio’: como ele impacta para a inteligência, longevidade e autonomia

Reserva muscular ajuda o corpo a enfrentar infecções, traumas e internações. — Foto: Editoria de Arte/Andre Mello

Embelezado pela musculatura definida de Matt Damon, o filme “Odisseia” exibe modernidade embora a história se passe na Antiguidade. Não apenas pela tecnologia cinematográfica, mas por colocar os músculos em destaque. Eles são os protagonistas de uma linha de vanguarda da medicina.

Também são os protagonistas da série “A Revolução dos Músculos”, escrita pela repórter especial Ana Lucia Azevedo. Desde ontem e até a próxima sexta-feira, teremos reportagens que abordam desde a importância dos músculos (como eles fazem falta em pessoas como astronautas e pacientes de UTI), as novas “canetas” para esse fim, o risco de anabolizantes, pílulas de exercício e o que mostram novos estudos sobre o tema.

Por muito tempo considerados apenas instrumentos de estética ou força, os músculos são compreendidos agora como motores de saúde, inteligência, longevidade e autonomia.

Ninguém precisa ficar atlético como Damon nem hipertrofiado como um fisioculturista. O importante é ter músculos preservados e funcionais. Enfraquecê-los pode reduzir a qualidade e o tempo de vida.

— Músculo é patrimônio — define Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Autor de “Stronger: The Untold Story of Muscle in Our Lives” (Mais forte: a história não contada dos músculos em nossas vidas, em tradução livre), o americano Michael Gross afirma que por muito tempo cuidar da musculatura foi visto como algo secundário, uma vaidade fútil. Esse preconceito histórico e preguiçoso, sem base na biologia, custou atraso que aos poucos vem sendo resgatado.

“Pense como o mundo seria diferente se ao ouvir a palavra ‘músculo’, a primeira imagem que nos viesse à mente não fosse a de um cara grande cheio de anabolizantes, mas a da sua avó saudável”, afirma Gross.

Ele cita um estudo da Universidade de Sydney (Austrália) que mostrou que o córtex posterior cingulado aumenta de tamanho e melhora de função quando se faz musculação. Essa é a parte do cérebro ligada à memória emocional, à empatia e à autoconsciência. E também a primeira estrutura cerebral a atrofiar na doença de Alzheimer, mesmo antes do aparecimento de sinais de perda de memória.

Um número crescente de estudos prova que investir na preservação dos músculos é o melhor plano de previdência e seguro de saúde que se pode fazer. Não à toa, médicos usam a expressão “banco de músculos”, no qual se deve investir ao longo da vida para escapar da miséria de uma velhice doentia e sem autonomia.

Sinal de alerta

O valor dos músculos fica mais evidente pela falta deles. Segundo Macedo, a baixa massa muscular esquelética aumenta o risco de morte por todas as causas em 57%, independentemente de idade e gênero. Quando associada à obesidade, essa elevação no risco atinge 160%.

A perda de massa muscular é considerada um preditor independente de mortalidade porque os músculos esqueléticos fazem bem mais do que permitir a sustentação e todo tipo de movimento. Eles atuam para evitar e controlar inflamação e doenças tão variadas quanto câncer, diabetes, demências, fragilidade óssea.

O pesquisador José Cesar Rosa Neto, do Laboratório de Imunometabolismo da Universidade de São Paulo (USP), frisa que os músculos são nossa maior reserva em casos de infecção, traumas e cirurgias.

E é por isso que pessoas com menor massa muscular apresentam maior risco de morte independentemente da idade, do índice de massa corporal (IMC) ou da presença de outras doenças.

Um aperto de mão

Um estudo publicado em agosto na GeroScience revelou que em pessoas acima de 60 anos, uma perda de 15% na força muscular medida pelo aperto de mão (isso é feito com um dinamômetro) é um indicador da lentidão na capacidade de caminhar. E essa redução é um sinal de alerta clínico, destacam os autores do estudo, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da University College London (Reino Unido). Lentidão da caminhada é o lado visível do aumento do risco de hospitalização, de queda e de perder a independência para tarefas cotidianas básicas.

Proteína pura

Ter a musculatura desenvolvida é decisivo quando se fica doente. Os músculos são a reserva de proteínas do corpo. Eles são compostos por 50% a 75% de proteínas.

Além disso, a musculatura esquelética é mais do que órgão de sustentação e mobilidade. Os músculos são órgãos endócrinos. Os nossos 640 músculos produzem ao menos 650 proteínas conhecidas e esse número pode chegar a milhares.

Muitas dessas proteínas, chamadas miocinas, funcionam como hormônios. Elas interagem com o fígado, o pâncreas, o sistema imunológico, o tecido adiposo (gordura) os ossos e o cérebro, quase todo o corpo.

— Músculos são nossa poupança de proteínas, nos ajudam a não perder líquidos e na imunidade — explica o clínico e intensivista Felipe Ribeiro Henriques, diretor médico do Complexo Hospitalar de Niterói, da Rede Américas.

Perdas e danos

Músculos são preciosos e sensíveis. Mas, se negligenciados, definham cedo. Por volta dos 30 anos, muitas vezes antes disso, as pessoas começam a perder cerca de 0,8% de sua massa muscular por ano. Após os 50 anos de idade, a redução anual de massa muscular oscila entre 1% a 2%. E a diminuição de força muscular pode alcançar a 5% por ano.

A perda de musculatura se deve à falta de atividade física — passar a maior parte do tempo sentado e caminhar pouco, por exemplo — e mudanças naturais no metabolismo que fazem com que cada vez menos proteína chegue aos músculos.

Sem proteínas e estímulo promovido pelo movimento, as células musculares se tornam menores. Essas células, chamadas de fibras, não se dividem. Elas aumentam de tamanho unindo-se umas às outras. Fibras menores levam a músculos atrofiados.

Epidemia de fraqueza

Se chama de sarcopenia o declínio acentuado da massa, da força e da função muscular. Ela se manifesta pela fraqueza e pelo desempenho físico prejudicado para coisas básicas, como se levantar ou caminhar. Costuma ser associada ao envelhecimento e anda de mãos dadas com a obesidade.

Henriques frisa que a sarcopenia é um problema mundial. Num mundo sedentário, onde se faz quase tudo sentado e andar até a esquina é desafio, a sarcopenia virou epidemia. Afeta também gente jovem e de meia-idade. E não poupa os magros inativos.

Tiago Fernandes, pesquisador do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício da Universidade de São Paulo (USP), explica que a sarcopenia afeta de 10% a 27% da população até os 70 anos, dependendo da definição adotada (se consideradas formas leves ou apenas as mais severas).

Porém, se estima que a sarcopenia acometa 50% da população acima dos 80 anos.

Perder músculos pode ser fatal. E nada nos faz perder mais massa muscular do que a imobilidade. Aos 40 anos uma pessoa já pode ter baixa massa muscular, mesmo que seja magra. Se estiver com excesso de peso, o risco é maior.

Questão de vida e morte

O perigo da perda muscular se torna evidente quando se adoece e, pior ainda, é preciso de internação. Um paciente de UTI pode perder, em apenas 7 a 10 dias, uma proporção de massa muscular equivalente ou maior à que um astronauta perde em 6 meses inteiros no espaço.  

A analogia entre a microgravidade do espaço e a internação hospitalar é amplamente estudada pela medicina. Mesmo em missões espaciais de curta duração, a ausência de gravidade provoca atrofia e perda de tônus.

Porém, os pacientes, além da imobilidade, têm a musculatura consumida pelo próprio corpo em função de seu estado doentio. Inflamação, sepse e catabolismo acelerado aceleram brutalmente a atrofia, além do desuso por imobilidade. E os danos começam em horas.

Em casos mais graves com falência de órgãos, a perda de massa muscular pode chegar a mais de 1,5 kg de tecido muscular puro por semana.

Em situações de infecção grave ou choque séptico, o corpo começa a degradar o tecido muscular esquelético para obter aminoácidos. Os músculos funcionam como matéria-prima para manter órgãos vitais funcionando.

Henriques diz que em casos extremos de choque séptico, um paciente pode precisar de 5 mil calorias por dia e é nos músculos que o corpo encontra a reserva para o monstruoso gasto extra.

Até 30% da massa muscular pode ser perdida nos primeiros 10 dias de internação em UTI. Em casos mais prolongados, alguns pacientes podem perder 90% da massa muscular, diz Henriques. E aí se entra num círculo vicioso. Menos músculos, menos defesas e menos defesas implicam numa maior degradação dos músculos. É por isso que pacientes de UTI podem passar ainda mais tempo hospitalizados para reabilitação.

Poupança salvadora

Uma internação prolongada pode levar a perdas imensas até para quem tem boa composição muscular e mesmo com um tratamento que inclua dieta com suplementação de proteínas e calorias adequadas. Mas quanto menor for a massa muscular, pior será o prognóstico.

— Muitas vezes, a doença que levou à internação é curada, mas pessoas com pouca massa muscular podem ter sequelas permanentes ou não sobreviver. O corpo não consegue pagar a conta porque não tinha uma poupança muscular — afirma Henriques.

Ter os músculos em boa forma fez a diferença para Armando Pontes (o nome é fictício, para preservar a privacidade do paciente), de 60 anos, internado na UTI do CHN com sepse de origem pulmonar. Ele precisou de ventilação mecânica por dez dias e, por isso, foi sedado e submetido a bloqueio neuromuscular.

Porém, como tinha boa reserva muscular, os médicos puderam iniciar reabilitação ainda sob ventilação. Ele se recuperou e saiu da UTI sem sequelas, recuperando a maior parte de sua autonomia funcional em poucos dias.

Já Mariana Menezes (nome fictício), de 54 anos, sedentária e com sarcopenia, foi internada com insuficiência respiratória aguda decorrente de uma gripe severa. Ela precisou de ventilação mecânica por 12 dias. Durante a internação, a sarcopenia piorou muito, ela teve fraqueza generalizada e extrema dificuldade para sair do ventilador.

A infecção foi curada, mas ela continuou dependente de suporte ventilatório parcial. Teve úlceras por pressão, infecções secundárias e não conseguiu recuperar a autonomia para atividades básicas, como se levantar do leito, mesmo dois meses após a internação.

Segundo Henriques, a sarcopenia pré-existente combinada à longa imobilização e ao catabolismo (degradação dos músculos) intensivo da infecção foram as causas da drástica perda de qualidade de vida e necessidade reabilitação.

Em órbita

Todos os astronautas sofrem perdas musculares e precisam passar por programas de reabilitação. Marsha Ivins, que foi cinco vezes ao espaço, se notabilizou por fazer detalhados relatórios sobre as mudanças no corpo, que se tornaram referência para a Nasa. Quando passou 13 dias em órbita da Terra, a bordo do ônibus espacial Atlantis, em 2001, ela relatou, por exemplo, que os músculos das pernas e do tronco perderam a capacidade de sustentação rápida o suficiente para fazer com que se levantar de uma cadeira fosse quase impossível. E que tentar ficar de pé por algum tempo levasse ao desmaio.

Ivins mencionou que a simples tarefa de manter a cabeça erguida exigia um esforço consciente e exaustivo nas primeiras horas após o pouso. Coisa semelhante ocorre em pessoas que foram entubadas.

Pacientes hospitalizados por períodos curtos (uma a duas semanas) perdem massa e força muscular de forma acelerada, especialmente a capacidade neural de reativar e coordenar essas fibras.

Fonte: O Globo