
Um novo estudo que analisou dados de saúde de irmãos gêmeos indica que o peso da genética em determinar quanto uma pessoa vai viver é maior do que a influência dos hábitos de vida.
A pesquisa, realizada pelo Instituto Weizmann de Ciências, de Israel, foi publicada hoje na revista Science, e contraria resultados de outras estimativas feitas anteriormente.
Enquanto estudos anteriores estimavam o papel do DNA na longevidade em no máximo 25%, o novo trabalho estima que ele vale 55%.
Para chegar a essa conclusão, os autores do estudo, liderados pelo cientistas Ben Shenhar e Uri Alon, não usaram dados novos. O trabalho é todo baseado em uma abordagem diferenciada de análise estatística, mas usou informações que já estavam disponíveis em alguns grandes bancos de dados médicos.
O desafio que os cientistas se propuseram a enfrentar foi a falta de informações sobre causa de morte para a maioria dos dados de coorte (levantamentos de saúde em grandes populações).
Havia, além disso, muitas diferentes metodológicas entre as pesquisas mais influentes, o que tornava difícil entender o motivo de as estimativas não estarem entrando em acordo.
Mortes inesperadas
Segundo Shenhar e Alon, um problema essencial de estudos anteriores é que eles não conseguiam enxergar o peso de “causas extrínsecas” nas mortes das pessoas analisadas. Em outras palavras, se uma pessoa morre atropelada ou infectada por um vírus mortal, isso não significa que a genética não tenha peso em determinar a longevidade. Mortes por doenças crônicas, como câncer ou problemas cardiovasculares, porém, são mais “intrínsecas” à constituição genética de cada pessoa.
Usando uma manobra estatística para tentar preencher a ausência de informação, os cientistas recalcularam a influência do DNA no envelhecimento saudável, e chegaram em um número bem maior do que estudos similares haviam estimado.
Entre os bancos de dados usados para a pesquisa, está o Swedish Adoption/Twin Study of Aging (SATSA), um grande levantamento feito por cientistas suecos que acompanharam a saúde de irmãos gêmeos criados separados após serem adotados.
Estudos sobre essas pessoas, idealmente, são a forma mais objetiva de tentar separar origens genéticas e ambientais de suas características biológicas. Mesmo pesquisas anteriores usando essas informações, porém, geraram informações inconsistentes no passado.
“O nosso principal insight foi perceber que a mortalidade extrínseca estava mascarando sistematicamente a contribuição genética para a longevidade em análises tradicionais”, escrevem Shenhar e Alon.
Um problema que eles identificaram é que os dados obtidos no começo ou no fim do século 20 estavam recebendo o mesmo tratamento. Mortes por acidentes ou doenças infecciosas, porém, eram muito mais comuns antigamente do que são hoje. Ao levar isso em conta, os cientistas conseguiram eliminar esse ruído estatístico das informações.
Estudos com animais
Um sinal de que pesquisas sobre genética da longevidade em humanos estavam com problemas é que estudos com animais, em geral, viam correlações muito maiores entre DNA e envelhecimento.
“Uma hereditariedade de 55% para a longevidade está em consonância com a hereditariedade da longevidade em camundongos e com a herdabilidade da maioria das outras características fisiológicas, que em média giram em torno de 50%”, afirmam Shenhar e Alon.
Essa conclusão, claro, não significa que fatores como hábitos alimentares e atividade física não tenham peso relevante em determinar quanto uma pessoa vive. O que pode estar ocorrendo é que em muitas populações as pessoas talvez não tenham estilos de vida tão diferentes umas das outras.
Mudança de perspectiva
O estudo do Weizmann na Science foi comentado também em um artigo independente, assinado pela cientista Daniela Bakula, da Universidade de Copenhague, especializada em longevidade. Segundo ela, se as conclusões da pesquisa prevalecerem, o campo de estudos de envelhecimento pode ter mudanças de foco relevantes.
“Se a expectativa de vida for amplamente determinada pela genética, o potencial para influenciar a taxa de envelhecimento deve ser limitado, especialmente por meio de intervenções no estilo de vida”, explica. “Por outro lado, se as contribuições genéticas forem mínimas, os esforços para compreender o envelhecimento através de abordagens genéticas serão difíceis de justificar.”
Segundo a cientista, um desafio que a ciência tem agora é de entender melhor o peso de variáveis individuais na longevidade, sejam elas características genéticas ou fatores externos, para que a soma delas esteja de acordo com a soma dos dados têm mostrado na prática.





