
Quem convive com dificuldades financeiras sabe que elas afetam a saúde de diversas maneiras, desde não conseguir dormir direito à noite até o estado constante de estresse devido às preocupações ao longo do dia. Agora, porém, pesquisadores da University College de Londres (UCL), no Reino Unido, descobriram um novo impacto a nível cerebral.
Segundo o novo estudo, publicado na revista científica Innovation in Aging, nesta semana, dificuldades financeiras persistentes aceleram o declínio cognitivo relacionado ao envelhecimento. É o que explica o autor correspondente do trabalho, Jacques Wels, da Unidade de Saúde ao Longo da Vida e Envelhecimento da UCL, em comunicado:
“A maioria dos estudos sobre envelhecimento cognitivo analisa as dificuldades financeiras em apenas um momento específico. Nosso estudo, utilizando dados de várias décadas, nos permite observar que é o acúmulo de dificuldades ao longo de muitos anos que está associado aos piores desfechos de saúde cognitiva, e não episódios ocasionais de adversidade”.
Para chegar à conclusão, os cientistas analisaram dados de 2.759 britânicos que responderam questionários ao longo da vida, aos 26, 43 e 53 anos, como parte do MRC National Survey of Health and Development, pesquisa que teve início ainda em 1946. Eles foram classificados como tendo renda persistentemente baixa se estivessem entre os 20% com menor renda do grupo em pelo menos duas dessas avaliações: critério que incluiu 16% dos participantes.
As dificuldades financeiras foram avaliadas por meio de perguntas como se as pessoas consideravam difícil viver com a renda disponível e se haviam enfrentado dificuldades para pagar contas. Essas dificuldades foram consideradas persistentes se as queixas fossem significativas em pelo menos duas avaliações entre os 36 e os 53 anos, critério que incluiu 12% dos participantes.
Além disso, foram realizados testes cognitivos que avaliaram memória verbal e velocidade de processamento e exames de ressonância magnética para medir fatores como atrofia cerebral (redução do volume do cérebro) e expansão ventricular, o aumento das cavidades preenchidas por líquido no cérebro, sinais de pior saúde cerebral.
Como resultado, os pesquisadores observaram que os participantes que enfrentavam dificuldades financeiras persistentes ou renda persistentemente baixa no início e na meia-idade tiveram pior desempenho em testes cognitivos realizados aos 53 anos.
Além disso, ao analisar o subgrupo de participantes que realizou exames de imagem cerebral, observou-se que os que tinham renda persistentemente baixa apresentavam pior saúde cerebral, incluindo maior atrofia cerebral na fase mais avançada da vida, entre 69 e 71 anos.
Essas associações foram registradas mesmo após serem considerados fatores que poderiam distorcer os resultados, como cognição na infância, nível de escolaridade e desvantagens socioeconômicas na infância.
“Nossos resultados sugerem que apoiar pessoas que enfrentam dificuldades financeiras e reduzir a pobreza crônica também pode ajudar a prevenir o declínio cognitivo e casos de demência no futuro”, afirma a autora sênior, Praveetha Patalay, professora da Unidade de Saúde e Envelhecimento ao Longo da Vida e Centro de Estudos Longitudinais da UCL.
A equipe de pesquisa constatou que a associação foi particularmente forte entre homens, pessoas que enfrentaram desvantagens na infância e indivíduos portadores da variante genética APOE-ε4, que aumenta o risco de doença de Alzheimer. Homens que enfrentaram adversidade financeira persistente também apresentaram desempenho inferior em testes cognitivos aos 53 anos em comparação com as mulheres na mesma situação.
Entre as possíveis explicações para essa diferença estão o fato de homens em situação de desvantagem poderem apresentar comportamentos menos saudáveis, como tabagismo e consumo excessivo de álcool, além de possivelmente sofrerem mais com o estresse causado pelas dificuldades financeiras, especialmente porque, nessa coorte nascida em 1946, eles tendiam a ser os principais provedores da família.
Estresse e sobrecarga cognitiva
Os pesquisadores apontam diferentes mecanismos que podem explicar a relação entre envelhecimento cognitivo e dificuldades financeiras, incluindo a inflamação, que é conhecida por acelerar o envelhecimento cerebral e pode ser provocada pelo estresse crônico. Outro fator mencionado é que a preocupação frequente com dinheiro pode aumentar a carga cognitiva, deixando as pessoas com menos capacidade mental disponível para outras tarefas cognitivas.
Os pesquisadores também observaram que, embora aqueles que enfrentaram dificuldades financeiras ou baixa renda tenham apresentado pior desempenho em testes cognitivos aos 53 anos, seu desempenho em um teste de memória declinou mais lentamente entre os 53 e os 69 anos.
Segundo os autores, isso provavelmente ocorreu porque essas pessoas já haviam sofrido perdas cognitivas significativas em comparação com participantes que não enfrentaram dificuldades financeiras persistentes.
Fonte: O Globo





