
Quando pensamos em garantir uma velhice tranquila, é comum focarmos em economizar dinheiro para o futuro. Mas o saldo bancário é apenas uma das quatro “poupanças” que precisamos construir ao longo da vida para termos saúde, autonomia e bem-estar na terceira idade. Além da reserva financeira, também precisamos cultivar uma poupança física, para manter a mobilidade; uma poupança cognitiva, que protege o cérebro; e uma poupança de relacionamentos, essencial para reduzir o risco de depressão e isolamento. A boa notícia é que cada uma delas pode (e deve) ser construída com pequenas ações diárias, que se acumulam ao longo dos anos como investimentos de longo prazo em qualidade de vida.
Poupança física: a base da autonomia
“Manter a força muscular é essencial na prevenção de quedas, que são uma das principais causas de hospitalizações, fraturas e perda de independência entre os idosos. Músculos fortalecidos atuam como estabilizadores naturais do corpo, protegendo articulações, melhorando o equilíbrio e favorecendo o alinhamento corporal”, afirma a gerontóloga Valéria Lins, cofundadora do centro de saúde Nandarê. Segundo ela, exercícios de resistência, como musculação e treino funcional, aliados a uma ingestão adequada de proteínas, são as estratégias mais eficazes na manutenção e ganho de massa muscular. “A musculatura preservada garante mobilidade, estabilidade postural e permite que atividades cotidianas — como levantar da cama, subir escadas, carregar sacolas ou se locomover com segurança — sejam realizadas de forma independente”, completa.
Além dos músculos, o corpo também precisa de estímulos ao sistema cardiovascular, ósseo e articular. “A perda de todos esses aspectos com o avanço da idade prejudica a capacidade de movimentação, a qualidade de vida e aumenta a probabilidade do aparecimento das doenças crônico-degenerativas, como as cardiovasculares (hipertensão arterial, doença coronariana, insuficiência cardíaca e arritmias), as metabólicas (obesidade, diabetes, dislipidemia), as imunológicas (câncer), as renais, e as músculo esqueléticas (artrite, lombalgias)”, explica Cláudia Forjaz, professora da Faculdade de Educação Física e Esportes (EEFE) da Universidade de São Paulo (USP).
Para uma poupança física completa, é importante combinar os exercícios de fortalecimento com atividades aeróbicas e alongamentos. A recomendação é praticar pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada por semana, treinos de força de duas a três vezes por semana e exercícios de equilíbrio e flexibilidade na mesma frequência. “Vale lembrar que nosso organismo é extremamente plástico, sendo capaz de obter ganhos expressivos mesmo na terceira idade, ou seja, mesmo no momento em que as perdas são mais evidentes, uma intervenção adequada pode promover melhoras na capacidade motora, na qualidade de vida e nas condições de saúde”, ressalta Cláudia.
Poupança cognitiva: o escudo do cérebro
A segunda poupança que precisamos cultivar ao longo da vida é a cognitiva. Ela representa a capacidade do cérebro de se adaptar e continuar funcionando bem, mesmo quando há alterações físicas relevantes associadas ao processo de envelhecimento ou ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como demências e Parkinson. “É como uma reserva que construímos com estímulos diários e que nos protege quando aparecem os desafios”, explica Ana Carolina Souza, neurocientista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e sócia da Nêmesis.
De acordo com a especialista, atividades que envolvem concentração, aprender coisas novas, usar a memória para guardar e recuperar informações (e não o celular ou o caderninho de anotações), pensar de forma estratégica sobre as ações (exercitando a visão de futuro, relações de causa e consequência), desenvolver a linguagem (através da leitura e da escrita) e interagir com outras pessoas são alguns dos estímulos que devemos buscar ativamente em nossa rotina para fortalecer essa reserva.
Na prática, isso significa investir em pequenas rotinas e hobbies como ler livros, escrever textos, pintar, desenhar, fazer artesanato, tocar instrumentos, aprender outro idioma, praticar jogos de tabuleiro, fazer palavras cruzadas e ter uma vida social ativa. “O mais importante é diversificar essas práticas e buscar atividades consideradas prazerosas, estando sempre em contato com algo que seja novo”, reforça Ana Carolina.
Além de proteger contra o declínio cognitivo, a reserva cerebral também ajuda a manter o cérebro funcionando melhor por mais tempo, o que oferece melhor qualidade de vida e autonomia. “Esse investimento tem impacto direto na rotina das pessoas, promovendo uma vida com mais prazer e independência”, destaca.
Poupança de relacionamentos: vínculos que protegem
Mas de nada adianta ter um corpo forte e um cérebro ativo se a vida social está fragilizada. Por isso, a poupança de relacionamentos também é determinante para envelhecer bem. Estudos mostram que a solidão e o isolamento podem ser tão prejudiciais à saúde quanto fatores como obesidade e tabagismo, aumentando o risco de doenças crônicas, depressão e declínio cognitivo. “Manter uma vida social ativa é muito mais do que ‘ter companhia’: é sustentar o afeto, a identidade, a autonomia e o sentido de viver. E isso se constrói todos os dias — com escolhas, encontros e presença”, destaca Valéria.
“Para cultivar e manter conexões sociais duradouras na velhice, é crucial manter uma atitude aberta, participar de atividades sociais, cultivar novos relacionamentos e fortalecer os existentes”, completa Isabela Azevedo Trindade, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Como sugestão, ela aconselha o envolvimento em grupos de interesse, clubes, aulas, atividades recreativas ou voluntariado, além de reservar tempo para conversar e visitar pessoas queridas.
Aprender a usar as tecnologias de comunicação — como aplicativos de mensagem e chamadas de vídeo — é outro passo importante, já que elas ajudam a manter contato com familiares e amigos, especialmente quando há distância geográfica envolvida.
Poupança financeira: liberdade para escolher
Por fim, chegamos à poupança financeira, a mais conhecida e, muitas vezes, a única que recebe atenção ao longo da vida. Mas mesmo neste aspecto há desafios. “Deveríamos considerar o aumento da expectativa de vida ao calcular o montante necessário para a aposentadoria, já que esses anos a mais costumam ocorrer na fase em que já estamos aposentados”, explica a planejadora financeira Letícia Camargo. “O volume de recursos que precisamos acumular será maior do que o das gerações anteriores, o que exige anos a mais de trabalho ou um percentual de poupança maior ao longo da vida produtiva”, complementa.
Mais do que um saldo positivo na conta, a poupança financeira representa liberdade para tomar decisões na velhice, como escolher onde morar ou ter acesso a cuidados de saúde de qualidade. Para isso, anotar receitas e despesas, evitar dívidas e poupar um pouco todo mês são hábitos fundamentais. Segundo a especialista, o ideal é começar o quanto antes, mesmo que seja com pequenos valores. “Os juros compostos são grandes aliados para quem começa cedo. O importante é ter constância e disciplina”, orienta.
Construir essas quatro reservas – física, cognitiva, de relacionamentos e financeira – não é algo que acontece de uma hora para outra. É um processo de construção diária, feito por meio de escolhas conscientes e hábitos consistentes ao longo da vida. Envelhecer bem começa no presente: a cada caminhada, livro lido, ligação para um amigo ou real economizado.
Fonte: Estadão