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A vida das cuidadoras: ‘Adoeci e pensei ‘quem vai cuidar da minha mãe com Alzheimer se eu cair?’

A gerontóloga e cuidadora Claudia Alves — Foto: Estúdio34/ Divulgação

Com mais de um milhão de seguidores, Claudia Alves foi pioneira ao compartilhar sua vida como cuidadora da mãe, que tem doença de Alzheimer, nas redes sociais. O relato agora virou livro: “O bom do Alzheimer” (Editora Sextante). A seguir, ela conta um pouco da sua experiência:

O que de positivo pode ser tirado de cuidar de um familiar doente?

As pessoas ficam magoadas, frustradas, guardam um certo rancor, porque atrapalha a vida, tem que parar de trabalhar… Mas busco um olhar empático com compaixão, que é não só quando você se coloca no lugar do outro, mas também faz alguma coisa. Então o que eu fiz? Transformei esse tempo que ela tinha, que ainda entendia e tinha ânimo, e fiz o melhor que podia. Levava minha mãe ao cinema, teatro, praia, clube, viagem, tudo. Tudo que eu fiz, fiz com ela. E ela curtia, aproveitou muito. E eu também, junto com ela, compartilhando coisas boas. Consegui por anos fazer isso e foi muito bom.

Como fica a questão da sobrecarga?

Saí do mercado de trabalho para cuidar da minha mãe. Não sabia o que ia acontecer, como ia ser. Como eu parei de trabalhar, também fiquei com a responsabilidade de cuidar da minha neta que tinha 7 anos. Depois minha filha engravidou e quando voltou a trabalhar, fiquei responsável pela mamãe, pela minha neta e pelo meu neto, o bebê. Foi muito difícil, eu adoeci, mas aquela doença que não te derruba. Você está adoecida, mas operante. Também vejo muitas mulheres que param de trabalhar com 40 anos, no auge da vida profissional, e ficam décadas dedicadas ao cuidado. Depois, quando o familiar morre elas perdem a renda dele e ficam com uma mão na frente outra atrás.

Como saber o limite?

Quando fiz 60 anos, viajei com as minhas amigas, e eu não aguentava o pique, ficava acabada. Tenho fibromialgia, insônia e ansiedade. Mas foi só ali que caiu a minha ficha. Eu pensei: “estou doente mesmo e se não me cuidar agora, o que vou fazer? Quem vai cuidar da minha mãe se eu cair?” Eu podia até morrer, porque tem casos de cuidadoras que morrem antes da pessoa que ela está cuidando.

No Brasil ainda há uma certa resistência a ter cuidadores ou recorrer a uma instituição de longa permanência, não?

Trabalho muito isso e tento fazer com que as pessoas enxerguem que isso não é abandono. Hoje eu tenho uma cuidadora, e minha mãe está numa fase avançada. Mas se eu pudesse, há 15 anos, tê-la colocado num lugar onde fosse ter interação com pessoas, alguém cuidando e dando a medicação, tudo direitinho, eu faria. Sem culpa. É preciso mudar essa cultura, porque nós estamos envelhecendo, o país, o mundo, e cada vez mais vão ter idosos para serem cuidados. E quem vai cuidar?

Fonte: O Globo