
Idosos com doenças pré-existentes têm maiores chances de internação e óbito quando infectados com o vírus sincicial respiratório (VSR), mostra um levantamento feito por infectologistas, epidemiologistas e pneumologistas.
Os pesquisadores analisaram os dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica (SIVEP-Gripe) referentes ao período de 2013 a 2023. Os 3.384 quadros contabilizados nesses 10 anos incluem as redes pública e privada, e concentram internações de idosos com pneumonia, uma das complicações associadas ao vírus.
“Nós temos dados nacionais, de julho, mostrando que nesse momento, em pacientes que têm 60 anos ou mais, o VSR é a segunda virose mais comum causadora de pneumonia grave”, alerta Clovis Arns da Cunha, infectologista e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). O especialista explica que, nesse quesito, o vírus “perde” apenas para a gripe.
Apesar de o VSR afetar idosos com e sem comorbidades, o compilado destaca que os casos mais graves envolviam pacientes com doença cardiovascular (64,2%), diabetes (32%) e doença pulmonar obstrutiva crônica (26,5%). Além disso, nesses casos, também foram maiores as admissões em UTI (34,8%), mortalidade (26,9%) e internações mais longas (cerca de 13 dias).
O levantamento aponta ainda que quanto mais comorbidades associadas, maiores são os índices de internação grave. “Quando um paciente tem uma pneumonia grave pelo VSR e precisa de oxigênio e hospitalização, a letalidade é muito alta, em torno de 30%, porque não existe tratamento específico para essa virose”, destaca Cunha.
Sintomas de alerta
As infecções pelo vírus costumam provocar sintomas parecidos com os da gripe e de outras viroses respiratórias. Entre os principais, Cunha lista: febre, dor no corpo, tosse, dor de garganta, coriza e obstrução nasal. Já em quadros que evoluem para pneumonia na terceira idade, ele acrescenta dor ao respirar e falta de ar.
Outro grupo de risco são as crianças. “O VSR é a principal causa de bronquiolite viral aguda em lactentes, especialmente com menos de dois anos”, explica Lívio Dias, infectologista da Pro Matre com atuação em neonatologia e membro da SBI. Até essa idade, ele ressalta que são maiores as chances de complicações respiratórias.
Dias explica que, enquanto os bebês são mais vulneráveis por conta das vias aéreas muito estreitas e da imaturidade do sistema imunológico, nos idosos a vulnerabilidade é resultado de um processo natural chamado imunossenescência. “(Trata-se do) declínio funcional do sistema imunológico com a idade, que reduz a eficácia da resposta contra o vírus e aumenta o risco de complicações”, especifica.
Diagnósticos e vacinação abaixo do esperado
De acordo com Cunha, o VSR causa um quadro “indistinguível, que não dá para diferenciar só pelos sintomas clínicos”. Mas esse não é o único fator que dificulta o diagnóstico.
O infectologista elenca a questão do acesso a exames que detectam o vírus. “Se você vai à farmácia, é relativamente fácil encontrar testes rápidos para gripe e covid, mas não para o vírus sincicial respiratório. E, mesmo em alguns laboratórios, esse exame também não está facilmente disponível”, diz.
Já as baixas taxas de vacinação para o VSR, mencionadas pela SBI e pelos especialistas, podem estar relacionadas ao acesso às vacinas, atualmente ofertadas apenas na rede privada. Esse é o caso dos imunizantes aprovados até agora:
- Abrysvo – para gestantes a partir de 28 semanas
- Beyfortus – para crianças nascidas com até 37 semanas
- Arexvy – para pessoas a partir de 60 anos
Sobre a previsão de disponibilidade das vacinas na rede pública, o Ministério da Saúde afirma que o processo de aquisição das doses está em andamento. “As primeiras entregas estão programadas para o último trimestre de 2025, com 1,8 milhão de doses destinadas à imunização de gestantes ainda neste ano. Em 2026, a oferta será ampliada para contemplar todas as gestantes ao longo do ano”, diz a nota enviada ao Estadão. Não há previsão para vacinação dos idosos.
Diante do cenário da VSR no Brasil, a SBI lançou a campanha “Protegido você vai longe”, que destaca o risco de idosos desenvolverem pneumonia por conta do vírus. Um dos objetivos da ação é diferenciar a infecção na infância (que causa bronquiolite) das implicações na população 60+.
O VSR é transmitido por meio de gotículas respiratórias e contato com superfícies contaminadas, como resultado de tosses e espirros de pessoas infectadas. Por isso, Cunha recomenda o uso de máscara e álcool gel nas mãos para evitar a transmissão, principalmente durante os meses mais frios do ano.
“Um estudo brasileiro mostrou que o vírus sincicial respiratório acontece durante o ano todo, mas há o que chamamos de pico sazonal no outono e inverno”, explica.
“Em geral, dizemos que 70% (dos casos) acontecem no período de sazonalidade, do qual começamos a sair, mas 30% acontecem fora (dele)”, diz o infectologista pediátrico Marcelo Otsuka, membro da SBI e responsável pelo Serviço de Infectologia do Hospital Infantil Darcy Vargas.
fonte: O Estadão