
A tosse seca persistente, principalmente quando acompanhada de falta de ar, pode ser um dos primeiros sinais de fibrose pulmonar, que pode ser idiopática (quando a causa não é definida) ou progressiva — mas ambas comprometem progressivamente os pulmões e podem levar à morte. O diagnóstico precoce é fundamental para iniciar o tratamento e tentar retardar sua evolução.
O aposentado Ibranez de Mero Rodrigues conviveu por quase duas décadas com crises de tosse e falta de ar até descobrir a causa dos sintomas, no ano passado. Quando recebeu o diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática, metade dos pulmões já estava comprometida. Atualmente, ele precisa utilizar um equipamento de oxigênio durante 24 horas por dia para conseguir respirar sem esforço.
— A fibrose vem aos poucos e a gente não sabe. Eu ia ao médico e nem o médico pediu o exame de fibrose. Pediam para eu fazer caminhada, e eu dizia que não conseguia — relata.
Segundo o pneumologista e professor de Medicina da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Dagoberto Godoy, a doença costuma começar com uma tosse seca, que se repete ao longo do tempo. A falta de ar aparece posteriormente.

O especialista explica que os primeiros sintomas são mais comuns em pessoas com mais de 50 anos e que tiveram algum grau de exposição prolongada a agentes que podem agredir os pulmões. O problema é que os sinais iniciais podem ser confundidos com outras doenças respiratórias. Isso atrasa o diagnóstico e, consequentemente, o início do tratamento.
Para o professor, a experiência mostra que metade dos pacientes com fibrose pulmonar idiopática morre nos dois primeiros anos após o diagnóstico.
Diagnóstico depende de exames específicos
A investigação deve ser conduzida por um pneumologista ou especialista em doenças pulmonares. Por isso, em caso de tosse persistente por mais de três semanas, a orientação é procurar um especialista. A avaliação inclui consulta clínica detalhada e exames para identificar o comprometimento dos pulmões e medir a capacidade respiratória.
Entre os procedimentos utilizados estão:
- Radiografia do tórax: identifica possíveis áreas de cicatrização nos pulmões.
- Tomografia computadorizada: produz imagens detalhadas que permitem identificar e medir o grau de fibrose.
- Espirometria e teste de função pulmonar completa: avaliam a quantidade de ar nos pulmões e a eficiência da troca gasosa.
- Gasometria arterial: analisa os níveis de oxigênio e dióxido de carbono no sangue.
- Broncoscopia: permite coletar pequenas amostras de tecido pulmonar.
- Biópsia pulmonar: pode ser indicada quando os demais exames não são conclusivos.
Medicamentos podem retardar a evolução da doença
A fibrose pulmonar não tem cura e o tratamento medicamentoso busca impedir ou retardar o avanço da cicatrização dos pulmões. De acordo com Godoy, os medicamentos apresentam melhores resultados quando utilizados nas fases iniciais da doença. Em estágios mais avançados, a eficácia diminui e o transplante pulmonar pode se tornar uma alternativa.

No caso de Ibranez, o transplante não é uma possibilidade. A alternativa é o tratamento com medicamentos, mas o custo representa um obstáculo. No Brasil, o preço dos medicamentos disponíveis varia de R$ 15 mil a mais de R$ 20 mil.
Ibranez só conseguiu acesso ao tratamento por meio de uma decisão judicial que obrigou a empresa onde trabalhava a comprar o remédio. A primeira dose foi tomada em setembro.
Nova medicação pode aumentar a sobrevida
A expectativa da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) é que uma nova medicação, chamada nerandomilast, esteja disponível nas farmácias até o fim do ano.
O pneumologista Adalberto Rubin, da SBPT, afirma que o medicamento é um antifibrótico e apresentou resultados positivos em pesquisas, com menos efeitos colaterais em comparação aos remédios já utilizados.
— Essa nova medicação é um antifibrótico superior ao que nós já temos em uso e, com uma grande vantagem, tem muito menos efeito colateral. Nós trabalhamos na Santa Casa, na Capital, nessa pesquisa e demonstramos que ele vai ser de alto benefício para os pacientes. O nosso obstáculo vai ser realmente o acesso — afirma.
Segundo Rubin, os estudos demonstraram que o medicamento também pode aumentar a sobrevida dos pacientes:
— Esse é o primeiro medicamento que comprovadamente reduziu a mortalidade. Ele não apenas mantém a função pulmonar por mais tempo preservada, mas conseguiu, nos estudos, demonstrar que aumenta a sobrevida. Portanto, vai ser um salto fundamental para o futuro manejo e controle dessa doença.
A SBPT também trabalha para que o medicamento seja disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
De acordo com Rubin, um laudo elaborado com a participação de diferentes entidades já foi preparado para fornecer subsídios à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), órgão responsável pela avaliação de medicamentos e tecnologias que podem ser incorporados ao sistema público.
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