Pular para o conteúdo

Visualizou e não respondeu: por que o silêncio no WhatsApp incomoda tanto?

A demora na resposta de mensagens pode desencadear sentimentos de rejeição e insegurança Foto: ingoodtime/Adobe Stock

A mensagem foi enviada. O celular mostra que chegou. Pouco depois, aparece o aviso de que foi visualizada. Mas a resposta não vem. Passam cinco minutos. Dez. Meia hora. Uma hora. Nesse intervalo, uma pergunta ou uma mensagem aparentemente simples pode começar a ocupar espaço demais na cabeça de quem a enviou. Será que a pessoa ficou brava? Falei alguma coisa errada? Ela está me evitando?

“Isso me incomoda demais porque sinto que a pessoa não quer me responder”, comenta a auxiliar de escola, Paula Diana, de 35 anos.

O silêncio de quem está do outro lado pode ser suficiente para mudar o humor de quem espera. Há quem fique irritado, quem confira o celular repetidamente e quem comece a reconstruir a conversa em busca de algum sinal de que fez algo errado. Em situações mais intensas, a ausência de resposta pode ser interpretada como rejeição, abandono ou rompimento de um vínculo.

“Quando não me respondem parece que a pessoa não está nem aí para mim”, reflete o assistente de marketing, Lucas Augusto, de 42 anos.

O curioso é que, objetivamente, pouca coisa aconteceu. Uma pessoa recebeu uma mensagem e não respondeu. Todo o restante é interpretação.

Nas relações presenciais, o silêncio também existe. A diferença é que, no WhatsApp, ele ganhou marcadores: a mensagem foi entregue, visualizada, a pessoa esteve online e talvez tenha aparecido digitando e depois parado. Cada uma dessas informações pode ser interpretada de uma maneira por quem espera.

A tecnologia, que tornou a comunicação mais rápida, também criou uma espécie de rastreamento da disponibilidade do outro. Isso cria uma expectativa específica. Se a pessoa viu, por que não respondeu?

Para o cérebro, porém, não existe uma única resposta possível. A ausência de informação precisa ser preenchida de alguma maneira e o significado atribuído ao silêncio depende de quem espera, da relação entre as pessoas e do contexto daquela conversa.

“Vivemos em uma cultura marcada pela comunicação instantânea. A tecnologia encurtou distâncias e acelerou nossa percepção do tempo. Se conseguimos enviar uma mensagem para qualquer lugar do mundo em segundos, passamos também a criar, muitas vezes sem perceber, a expectativa de que a resposta deveria ser igualmente rápida”, diz Anette Blaya, psiquiatra e psicanalista da FEBRAPSI (Federação Brasileira de Psicanálise).

Uma demora de duas horas pode ser irrelevante quando a mensagem é enviada para um amigo ou contato de trabalho. Mas, pode ser angustiante quando vem de um namorado ou de alguém cuja aprovação é importante. É por isso que o mesmo “visualizou e não respondeu” pode produzir reações completamente diferentes na mesma pessoa.

“A incerteza é difícil de suportar. Quando não sabemos por que alguém não respondeu, nossa mente tenta preencher essa lacuna construindo hipóteses. O silêncio funciona quase como uma tela sobre a qual projetamos nossos medos, fantasias e experiências anteriores”, acrescenta Anette.

O cérebro não gosta muito de incerteza

A expectativa tem papel importante nesse processo. Quando enviamos uma mensagem existe uma previsão implícita de que haverá uma resposta e se ela não aparece, o cérebro precisa lidar com uma quebra de expectativa. O problema não é apenas esperar, mas sim não saber o motivo da espera.

A pessoa pode estar trabalhando, dirigindo, conversando com alguém, sem tempo para responder ou simplesmente ter esquecido. Também pode estar evitando aquela conversa. Sem uma informação adicional, todas essas possibilidades permanecem abertas.

Em situações de maior insegurança, entretanto, a interpretação negativa pode ganhar espaço.

“O nosso cérebro pode criar explicações negativas porque interpreta o silêncio como uma exclusão social, mesmo que a pessoa esteja ocupada com outras coisas. Como não há pistas do que ocorreu, o cérebro tende a projetar hipóteses negativas”, acrescenta o psicólogo Francisco Carlos Gomes.

Cinco minutos que parecem muito mais

Quando existe expectativa, o tempo também corre diferente.

“Durante tal espera, pode surgir uma hipervigilância relacional, ou seja, uma atenção excessiva a possíveis sinais de afastamento. A pessoa monitora o celular, relê a conversa e observa horários. Esta concentração na espera pode fazer o tempo parecer mais longo. O imediatismo amplia o desconforto ao transformar a rapidez numa expectativa de cuidado e consideração”, explica a psicóloga e psicanalista Luciana Inocêncio.

Esse comportamento pode alimentar o próprio desconforto. Quanto mais a pessoa monitora a conversa, mais central aquela ausência de resposta se torna.

A situação pode ficar ainda mais intensa quando existe alguma recompensa envolvida. Uma resposta de alguém importante pode trazer alívio, confirmação ou sensação de proximidade. Já a ausência dessa resposta, por outro lado, mantém a situação em aberto. É como se a conversa não terminasse enquanto o outro não responde.

Quando vale prestar atenção

“Na comunicação digital, a confirmação de leitura pode ser um gatilho de emoções negativas durante a espera. Entretanto, é fundamental diferenciar a realidade da interpretação: a ausência de resposta é um fato; concluir que ela significa rejeição é uma hipótese. Visualizar uma mensagem não significa necessariamente ter disponibilidade psíquica ou prática para responder”, diz Luciana.

Ficar incomodado porque alguém não respondeu é uma reação comum. O sinal de alerta aparece quando essa tensão passa a interferir na vida cotidiana.

Se a pessoa não consegue se concentrar em outra atividade, verifica o celular compulsivamente, muda o próprio comportamento por medo da reação do outro ou sente sofrimento intenso diante de pequenas mudanças na comunicação, pode ser importante entender o que está por trás daquela reação — e um especialista em saúde mental pode ajudar nisso.

Em muitos casos, o problema não está exatamente na mensagem sem resposta. Ela apenas aciona questões que já existiam, como medo de rejeição, necessidade de aprovação ou insegurança em relação ao vínculo.

Para aliviar o estresse e a ansiedade durante a espera, especialistas recomendam estabelecer limites para a checagem do celular e direcionar a atenção para atividades que exijam concentração, como trabalhar ou fazer alguma atividade em casa para reduzir o espaço dedicado à expectativa.

Também é importante reconhecer que a demora na resposta pode ter diferentes explicações e não significa, necessariamente, desinteresse ou rejeição. “Aprender a esperar também significa não transformar a velocidade da resposta do outro em uma medida do nosso próprio valor”, finaliza Anette.

Fonte: Estadão