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Viver mais e com autonomia: os desafios da medicina diante do envelhecimento da população

População idosa no Brasil cresce rapidamente — Foto: Magnific

O avanço dos tratamentos, a ampliação da vacinação, o controle de doenças infecciosas e a melhora das condições de vida contribuíram para aumentar a longevidade. De acordo com o Ministério da Saúde, 36,6 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais em 2026. Em apenas duas décadas, esse contingente deve saltar para 61,5 milhões.

Para a médica Patrícia Ferreira, head nacional de Longevidade da Rede D’Or e pesquisadora do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), o envelhecimento populacional deve ser compreendido como uma conquista,mas também exige uma preparação da sociedade e dos serviços de saúde. Ela chama a atenção para a velocidade dessa transformação no país.

— O Brasil está realmente apresentando uma aceleração do envelhecimento populacional. Em 25 anos, vai dobrar a população com 60 anos ou mais. A França demorou 145 anos para atingir esse marco, a Suécia 99 anos e o Reino Unido, 80 anos. É um país que era jovem até então e agora envelhece antes de enriquecer. O desafio é esse — afirma Ferreira. — O que queremos é que a conquista do envelhecimento venha com funcionalidade, que é a capacidade da pessoa ter autonomia para tomar as decisões, ter mobilidade e hábitos de vida saudáveis.

A mudança exige uma revisão da maneira como a medicina organiza o cuidado. Em vez de se concentrar no diagnóstico e no tratamento de doenças, profissionais de saúde precisam considerar como cada condição afeta a vida do paciente: sua capacidade de caminhar, alimentar-se, tomar banho, administrar os próprios medicamentos, manter relações sociais e tomar decisões.

Isso não significa abandonar a busca pela cura ou pelo controle de doenças. Significa reconhecer que o sucesso de um tratamento também deve ser avaliado pelo que ele permite que a pessoa continue fazendo.

— É uma população que não quer simplesmente viver mais, quer viver uma vida com significado, com tomada de decisões, com participação —diz a médica geriatra Mônica Campanha, professora da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) adota princípio semelhante no conceito de envelhecimento saudável, definido como o processo de desenvolver e manter a capacidade funcional que possibilita o bem-estar na velhice. Essa capacidade depende tanto das condições físicas e mentais do indivíduo quanto do ambiente em que ele vive e do suporte disponível.

Visão geral

Uma das principais mudanças na prática médica é o aumento da relevância das doenças crônicas e da multimorbidade — quando uma mesma pessoa convive com duas ou mais condições de saúde. Hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, artrose e problemas respiratórios, por exemplo, podem coexistir e exigir acompanhamento contínuo.

O problema é que essas condições nem sempre podem ser tratadas isoladamente. Um medicamento que controla adequadamente uma doença pode provocar efeitos adversos que agravam outra condição. Uma recomendação de tratamento pode ser difícil de seguir quando o paciente precisa administrar muitos remédios, comparecer a consultas frequentes e realizar diversos exames.

Daí a importância de ter o acompanhamento de um geriatra, por exemplo.

— Todo idoso tem que ter um geriatra que o acompanhe para fazer esse gerenciamento de problemas de saúde e interações medicamentosas com foco em longo prazo — explica Campanha.

A especialista também ressalta que o ideal é ir ao geriatra antes de ficar idoso.

— O geriatra não atende só o idoso, ele trabalha com o envelhecimento em si. Quem tem 50 anos e nunca foi, deveria fazer pelo menos uma primeira consulta. Essa é a hora de parar e alinhar a rota — completa.

Embora se recomende que todo idoso seja acompanhado por um geriatra para gerenciar sua saúde de maneira geral, a médica Patrícia Ferreira ressalta que, atualmente, todas as especialidades médicas “devem estar preparadas para atender esse contingente de pessoas com mais de 60 anos e entender que não é só uma questão de remédio e doença, e sim funcionalidade”.

Independência

Entre as prioridades do cuidado à população idosa estão a preservação da mobilidade, da força muscular, do equilíbrio e da capacidade cognitiva. Essas funções influenciam diretamente a possibilidade de realizar atividades cotidianas sem depender de outras pessoas.

Um dos problemas que merecem atenção é a fragilidade, condição clínica caracterizada pela redução das reservas fisiológicas do organismo e pelo aumento da vulnerabilidade a situações de estresse, como uma infecção, uma cirurgia ou uma internação. Em pessoas frágeis, um evento que teria consequências limitadas em outros pacientes pode provocar uma deterioração importante da saúde e da capacidade funcional.

A perda de massa e força muscular, conhecida como sarcopenia, também merece atenção. Quando associada a alterações de equilíbrio e mobilidade, pode aumentar o risco de quedas, fraturas e dependência. A avaliação dessas condições ajuda a identificar pacientes que precisam de intervenções antes que uma limitação se torne mais grave.

Segundo Kelem de Negreiros Cabral, médica geriatra do Hospital Sírio-Libanês, o reconhecimento da síndrome da fragilidade é uma etapa importante da assistência. Há sinais cotidianos que podem indicar o início de um comprometimento funcional:

— Um sinal clínico que chama muita atenção é quando você começa a precisar levantar da cadeira com a ajuda das mãos. E um segundo sinal de comprometimento funcional é a lentificação de marcha.

A identificação precoce dessas alterações permite investigar suas causas e avaliar intervenções que ajudem a preservar ou recuperar a capacidade funcional. A atividade física é uma das estratégias com evidências consistentes para preservar a funcionalidade.

As recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para pessoas idosas incluem exercícios aeróbicos, fortalecimento muscular e atividades que trabalhem equilíbrio e força, adaptados às condições e capacidades individuais. Para quem apresenta limitações de mobilidade, o treinamento de equilíbrio e a prevenção de quedas são ainda mais importantes.

— A literatura aponta que começar o exercício físico resistido com carga, uma musculação, com orientação de um profissional de educação física faz toda a diferença. Sempre há tempo — afirma Ferreira.

A prevenção, porém, não se resume à prática de exercícios. Alimentação adequada, acompanhamento de doenças crônicas, revisão da visão e da audição, identificação de alterações do humor e avaliação das condições da moradia também podem contribuir para manter a independência.

Manter a saúde cerebral é outra frente importante da medicina voltada ao envelhecimento. Alterações de memória, atenção, linguagem e capacidade de julgamento podem comprometer a independência, especialmente quando interferem na administração de medicamentos, no controle das finanças ou na realização de tarefas habituais.

Para Mônica Campanha, a prevenção deve começar antes da velhice, já que muitas condições que afetam a saúde nessa fase se desenvolvem ao longo da vida adulta. Ela também ressalta a importância de não negligenciar sintomas que possam parecer comuns com o avanço da idade.

— Um dos segredos para envelhecer bem é não acreditar [que os problemas são inevitáveis], é buscar soluções para aquilo que está ruim, que está prejudicando a saúde no dia a dia, ver o que pode ser feito — afirma.

A médica cita situações em que dores, problemas de sono, desequilíbrio ou cansaço levam uma pessoa a abandonar atividades de que gosta. Uma dificuldade para caminhar até o supermercado, por exemplo, pode acabar reduzindo a autonomia e a convivência social. Já a interrupção de uma atividade esportiva pode diminuir o contato com amigos e restringir a rotina ao ambiente doméstico.

Por isso, investigar queixas e buscar soluções não significa apenas tratar sintomas isolados, mas também evitar que eles desencadeiem perdas progressivas de independência.

Campanha defende que o planejamento terapêutico leve em conta as experiências, os desejos e os objetivos individuais:

— O idoso é um ser social com as suas características, suas particularidades, que a gente tem que conhecer em cada recomendação.

Por isso, a médica ressalta que a adesão ao tratamento depende, em parte, de o profissional compreender o que é importante para aquela pessoa. Uma recomendação que não leva em conta a rotina ou os interesses do paciente pode ser mais difícil de incorporar.

Além da saúde

O envelhecimento populacional não representa apenas um desafio para os consultórios e hospitais. Calçadas adequadas, transporte público seguro, moradias adaptadas e oportunidades de convivência ajudam a determinar se uma pessoa conseguirá manter sua autonomia mesmo diante de limitações físicas.

A própria OMS reconhece que o ambiente e o suporte social podem facilitar ou dificultar a participação das pessoas idosas na sociedade. Isso significa que a responsabilidade não pode recair apenas sobre o indivíduo.

Recomendações médicas são fundamentais, mas precisam ser acompanhadas de condições concretas para que apessoas de qualquer idade consigam adotá-las, independentemente de renda, escolaridade, local de residência ou disponibilidade de cuidadores.

Fonte: O Globo