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Lula e Flávio Bolsonaro fazem guerra santa e vamos à votação do Deus nos acuda

Lula e Flávio segurando imagens de Nossa Senhora Aparecida Foto: Reprodução/Lula via YouTube e SantoFlow Podcast/Reprodução via YouTube

Se Deus é brasileiro, ele deve estar de férias. Ou de olhos e ouvidos bem fechados. Melhor não prestar atenção na guerra santa instaurada na campanha eleitoral para presidente da República neste 2026.

A disputa é pelo voto e entre seres humanos. As questões de fé, no entanto, estão incrustadas na corrida presidencial.

Em janeiro, Flávio Bolsonaro foi para Israel. Entrou nas águas do rio Jordão, o mesmo onde Jesus foi batizado. Depois, do alto de uma colina na Galiléia, fez uma vídeo-chamada e pediu uma oração para sua caminhada rumo ao Planalto.

Em maio, o mesmo Flávio profetizou: seria Deus contra o diabo. Ele, claro, representante na terra do primeiro, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do segundo.

“Ergam a cabeça, estufem o peito, porque a força está do nosso lado, a verdade está do nosso lado. Lula disse há pouco tempo que ia fazer o diabo para conseguir se reeleger. Ele está com o diabo e nós estamos com Deus”, discursou.

Ainda que o petista não tenha pronunciado essa frase, pouco importa. O neo evangélico invocou a bênção divina para sua missão de tirar do Planalto aquele que, segundo ele, representa o mal.

Não foi de graça. A grande maioria do público evangélico não engolia mesmo Lula. Essa parcela da população que em número já é a segunda maior religião no Brasil – só perdem para os católicos – precisava ser cevada para manter-se fiel na ojeriza ao petista.

Em agosto deste ano, Flávio, em nova pregação, prometeu, sendo eleito, fazer do País, uma nação de Jesus Cristo. Parte da Igreja Católica não gostou. Viu ali um aviso de que o eventual futuro candidato poderia pôr em risco os símbolos da majoritária fé católica.

E chegamos à reta final da campanha com a pitada que faltava. As pregações de Flávio ganharam cores conhecidas no mundo da desordem da informação. No campo das chamadas fake news, a declaração do senador foi transformada em ameaça direta à Nossa Senhora Aparecida, detentora do título de padroeira do Brasil.

Pegando emprestado uma explicação do professor Wilson Gomes, fake news pode ser uma “informação fabricada com base em parcialidades, distorções” e tem o fim de enganar ou confundir o público e quer “levar as pessoas a tomarem uma determinada posição ou agir de um certo modo”.

Ou seja, Flávio não prometeu publicamente destronar Nossa Senhora, ainda que o pastor que o batizou tenha pregado isso em livro há mais de 20 anos. Mas a história da perseguição à padroeira soou crível por conta de todos os componentes históricos de divergências ligadas ao mundo da fé transportados para a arena política.

Uma mentira com pitadas de verdade ao redor dá à informação uma certa verossimilhança.

Feita a confusão, Lula explorou até não poder mais. Aderiu à guerra santa levando a imagem de Nossa Senhora para o palanque de comício. Ergueu a padroeira como troféu na tentativa de assumir o posto de soldado em uma cruzada em defesa da fé católica.

Outra vez, não importava se Flávio nunca tivesse dito que iria partir contra a “rainha dos céus”. O tumulto informacional jogou na campanha a dúvida sobre os objetivos do senador do PL e buscou atiçar no eleitor cristão o receio de ver sua fé atacada.

Como já disse o professor Eugênio Bucci, “desinformação e fake news não são aceitáveis porque são uma forma de corrupção do debate público. Produzem desconhecimento”.

Neste dia 4 de outubro que está logo ali na esquina, seria melhor que o votante fosse para a urna pesando programas, promessas e intenções de como o País deve ser governado nos próximos quatro anos. Mas diante do que assistimos nas últimas semanas, teremos a votação do Deus nos acuda. Só que a eleição é para presidente da República, não para beato ou messias.

Foto do autor
Por Francisco Leali – Coordenador na Sucursal do Estadão em Brasília. Jornalista, Doutor em Comunicação e pesquisador dedicado a temas de transparência pública.