
Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a uma grande elevação da expectativa de vida da população. Os idosos deixaram de ser a menor fatia em 2023 e, daqui a duas décadas, vão ser a maior delas, segundo dados do IBGE. Mas quem é o brasileiro que está envelhecendo? O estudo “Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar”, conduzido pelo data8, tem apontado que a transição demográfica no país vem produzindo uma longevidade assimétrica: brasileiros das classes C, D e E envelhecem com menos saúde, menor autonomia financeira e baixa proteção social. O estudo foi realizado em fevereiro de 2023 e há uma nova edição atualizada com dados de 2026 a ser divulgada em breve. No último dia da série “Vidas Longas”, que desde domingo tem mostrado dados, curiosidades e histórias sobre longevidade no Brasil, discutimos esse retrato desigual do envelhecimento no país.
— Esse ganho de anos de vida não veio acompanhado, na mesma velocidade, por mais anos de saúde, segurança financeira e proteção social para todos. E esse descompasso não começa na velhice. Ele é construído ao longo de toda a vida — explica Adriana de Queiroz, uma das coordenadoras do estudo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_1f551ea7087a47f39ead75f64041559a/internal_photos/bs/2026/4/h/5ArA0PTrKX9h896bzg0A/extra-16-09-velhice-site-imagem.png)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_1f551ea7087a47f39ead75f64041559a/internal_photos/bs/2026/t/p/UMU4AASBembbB6wwwO4g/extra-16-09-velhice-site-imagem-copia.png)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_1f551ea7087a47f39ead75f64041559a/internal_photos/bs/2026/o/d/uJZTs0Tiyf1QnWPVKR7Q/extra-16-09-velhice-site-imagem-copia-2.png)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_1f551ea7087a47f39ead75f64041559a/internal_photos/bs/2026/z/H/clbYA2SSSqzr0lKqAe2Q/extra-16-09-velhice-site-imagem-copia-3.png)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_1f551ea7087a47f39ead75f64041559a/internal_photos/bs/2026/c/9/a2Mk8ZQnAlDwbMdfBrdg/extra-16-09-velhice-site-imagem-copia-4.png)
As classes C, D e E, historicamente, têm menor acesso à educação e à qualificação profissional. É uma parcela da população que começou a trabalhar mais cedo e teve trajetórias profissionais mais marcadas pela informalidade e pela instabilidade. Isso impacta renda, capacidade de poupança, formação de patrimônio e, consequentemente, a segurança financeira na maturidade, ressalta a pesquisa.
Menor acesso à educação também tende a restringir oportunidades profissionais e renda, que, por sua vez, influenciam o acesso à informação, à prevenção e às condições necessárias para cuidar da própria saúde ao longo da vida.
— Prevenção, alimentação, saneamento, condições de moradia, tipo de trabalho exercido, possibilidade de praticar atividade física, diagnóstico precoce e acompanhamento médico fazem diferença na maneira como chegamos à velhice. A longevidade é resultado de uma vida inteira — diagnostica Adriana.
A violência e a criminalidade também ajudam a determinar quem consegue envelhecer no Brasil. Elas atingem de maneira desigual os territórios e a população, especialmente homens jovens, negros e moradores das periferias. Isso ajuda a explicar o importante descompasso de gênero na longevidade.
E as responsabilidades não diminuem com a idade. Muitas pessoas continuam trabalhando porque a aposentadoria não é suficiente e seguem sustentando ou ajudando financeiramente filhos e netos.
— É por isso que falamos em um descompasso entre diferentes ‘relógios’ da longevidade: o tempo de vida aumentou, mas o tempo de vida saudável e de autonomia financeira não avançou no mesmo ritmo. E, para uma parcela importante da população, o tempo de trabalho precisou se estender. O Brasil ainda precisa democratizar o acesso a uma boa longevidade. Porque viver mais é uma conquista coletiva. O próximo desafio é fazer com que origem, território, escolaridade, gênero e renda não determinem tanto quem terá a oportunidade de chegar à velhice e, principalmente, em quais condições chegará — conclui Adriana.
Idosos movimentam mais de R$ 1 trilhão
Segundo a consultoria data8, os idosos movimentam R$ 1,8 trilhão ao ano. A projeção é que esse valor dobre nas próximas duas décadas. O gasto com tratamentos de saúde e medicamentos encabeçam a lista de despesas: até 20% do gasto mensal. A geração prateada representará metade do consumo de produtos e serviços de saúde no Brasil em 2044, segundo a data8. Mais de 42% dos sexagenários tomam, em média, mais de cinco medicamentos por dia, de acordo com a Abradilan. Ou seja: envelhecer é caro no país.
Glossário renda domiciliar total mensal, segundo FGV Social:
Classe E: até R$ 1.580
Classe D: de R$ 1.580 até R$ 2.525
Classe C: de R$ 2.525 até R$ 10.885
Classe B: de R$ 10.885 até R$ 14.191
Classe A: acima de R$ 14.191
Por que as mulheres vivem mais?
As mulheres vivem mais do que os homens. No Brasil, a expectativa de vida delas é de quase 80 anos, enquanto a deles fica em torno de 73 anos. Aproximadamente 90% de todos os supercentenários verificados no mundo são mulheres, segundo o Grupo de Pesquisa de Gerontologia (GRG, na sigla em inglês), uma instituição global de pesquisadores em campos de gerontologia, longevidade, saúde e demografia baseada em Los Angeles, nos EUA.
— Entre os homens, fatores como violência, acidentes, trabalhos de maior risco e menor cultura de prevenção contribuem para uma mortalidade mais precoce — comenta a pesquisadora de longevidade Adriana de Queiroz.
Mas, como vimos, viver mais não significa necessariamente viver melhor. Apesar da maior longevidade, as mulheres carregam outras vulnerabilidades acumuladas: historicamente tiveram rendimentos menores, trajetórias profissionais mais interrompidas e assumiram uma parcela desproporcional do trabalho de cuidado. Isso aparece de maneira ainda mais forte entre mulheres negras e periféricas, que frequentemente chegam à maturidade continuando a cuidar de filhos, netos, pais e outros familiares, ao mesmo tempo em que precisam garantir a própria renda e, muitas vezes, a da família.
— É um paradoxo: os homens estão mais expostos ao risco de não chegar à velhice, enquanto muitas mulheres chegam à velhice, mas com carga maior de vulnerabilidade econômica e de cuidado.
Do ponto de vista biológico, há diferenças que influenciam na desigualdade da expectativa de vida, aponta o médico especializado em longevidade Moizes Batista (outros aspectos podem ser conferidos no quadro acima):
— Na mulher, a menopausa é um divisor a ser considerado. A queda do estrogênio pode mexer com composição corporal, massa óssea, metabolismo e risco cardiovascular. Só que tem uma diferença importante: homem é mais difícil de cuidar. A mulher normalmente faz acompanhamento, procura médico, faz exame. O homem muitas vezes só aparece quando alguma coisa está errada.
Fonte: Portal Ceará Agora





